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A COBIÇA DE WASHINGTON NO TURBILHÃO ARGELINO

A saga pela "democracia" é movida pela cobiça de Washington em relação ao gás natural argelino

2019-04-08

Jean Périer*, New Eastern Outlook/O Lado Oculto

Depois de semanas de grandes protestos, o presidente argelino Abdelaziz Bouteflika, com 82 anos e no cargo há mais de duas décadas, anunciou a renúncia. Basicamente, o que isso significa é que a Argélia, um país em geral frustrante para as comunidades ocidentais de espionagem, devido às duras posições assumidas em relação às suas actividades, mostrou afinal ao mundo que não é menos volátil que nações como a Tunísia, o Egipto e a Líbia.

Tal como em outros Estados árabes que foram vítimas de “revoluções coloridas”, os promotores dos actuais levantamentos aproveitaram uma série de erros que o governo acumulou ao longo dos anos, entre os quais podem encontrar-se altas taxas de desemprego na população urbana em rápido crescimento, corrupção generalizada, tensões não resolvidas entre grupos étnicos e, de novo, o iminente aumento da ameaça islamita.
Apesar de o governo Bouteflika ter marcado muitos pontos políticos combatendo o terrorismo islâmico durante o período de 1991 a 2002, agora está condenado a cair. Este desenvolvimento parece particularmente invulgar quando é certo que Argel conseguiu navegar com êxito nas águas agitadas da “moda das revoluções coloridas” na Tunísia e na Líbia. No entanto, com o experiente homem político de saída, a incerteza é tudo o que resta na Argélia, uma vez que ainda não se percebe como irá o governo lidar com as tarefas que tem entre mãos. E como os manifestantes encaram os desenvolvimentos em curso como uma vitória, anseiam agora por uma mudança positiva que entendem bem merecida.

Os bastidores

No entanto, acabarão por perceber que os patrocinadores nos bastidores destes “eventos revolucionários”, isto é, o Ocidente, têm os seus próprios planos para Argel, tendo em conta que Washington está, há muito, desesperado para submeter o país à sua vontade. Por alguma razão, as forças que continuam escondidas dos acontecimentos - que se desenvolveram rapidamente - conseguiram canalizar as frustrações das multidões contra o ex-líder político deste país do Norte de África – Abdelaziz Bouteflika – e não contra o sistema político vigente. Afinal, não deve esquecer-se que Bouteflika conseguiu fazer com que o seu país saísse ileso enquanto, à sua volta, outros parceiros regionais caíam como peças de dominó.
Quando chegou na frente da corrida presidencial de 1999, este homem forte e experiente anunciou uma amnistia para alguns dirigentes islamitas radicais, o que se reflectiu num declínio acentuado do número de ataques terroristas. No início da sua presidência, adoptou uma política bastante flexível, garantindo simultaneamente que não haveria acções contra os opositores políticos. Tentou traduzir a subida dos preços globais do petróleo em benefícios sociais para os cidadãos comuns, política que a maioria dos Estados produtores não assumem.

Desgaste e abuso

No entanto, quando foi aprovada a lei permitindo que o presidente em exercício fosse reeleito várias vezes, a situação começou a deteriorar-se. Esta circunstância fez com que a oposição alegasse a necessidade de o sistema político sofrer mudanças fundamentais. E quando o equilíbrio de poderes entre as elites políticas argelinas se tornou frágil chegou a altura de várias organizações não-governamentais pró-ocidentais transformarem a crescente insatisfação interna em protestos de rua.
A falta de uma figura sucessora com carisma e a incapacidade das elites políticas para resolverem a crise económica e social agravaram ainda mais as incertezas quanto ao futuro da Argélia; o que significa que Washington não vai perder tempo em aproveitar situação, o mesmo acontecendo com os principais opositores internos do regime derrubado – os radicais islâmicos.

O segredo é o gás natural

De facto, os Estados Unidos estão entre os principais interessados em aproveitar a situação turbulenta na Argélia. Sob o pretexto de combater o terrorismo, Washington colocou destacamentos militares no Sahel e no Saara. Ao estabelecer uma presença militar em larga escala, enquanto o povo argelino continua preocupado com o drama político que se desenrola em Argel, Washington lança a sua própria operação de extracção de gás de xisto na Argélia, em mais uma tentativa de inundar o mercado europeu de energia com gás próprio.
Basta ter em conta estes acontecimentos para existir a certeza de que Washington está por detrás do movimento de protesto na Argélia, interessado em mergulhar o país numa guerra civil para assumir o controlo das suas reservas de hidrocarbonetos. É que Donald Trump continua com pressa em cumprir as promessas eleitorais que fez aos produtores norte-americanos de gás natural liquefeito (GNL) sobre a criação de condições para a exportação de gás com destino à União Europeia; e o golpe de Estado na Argélia é um desenvolvimento de que necessitava para transformar esses projectos em realidade.
É interessante notar que as acções desenvolvidas para fomentar a instabilidade pública contra o governo partiram, desta feita, de algumas organizações não-governamentais que operam fora do território do país atacado, como o Centro para o Estudo do Islão e Democracia (CSID), a Fundação Internacional para os Sistemas Eleitorais e o Instituto Republicano Internacional e algumas outras, todas com sede em Washington.
Como pretextos para invocar a sua intromissão nos assuntos soberanos da Argélia, os Estados Unidos citam a deterioração da situação socioeconómica e a corrupção das elites políticas dominantes, susceptíveis de perturbar a situação internacional. Naturalmente, a juventude da Argélia não tem memória dos terrores da guerra civil imposta pelos radicais islâmicos da Frente Islâmica de Salvação (FIS) nos anos oitenta do século passado. Daí que não tenha hesitado um momento em tomar as ruas, tanto mais que não faltaram meios de comunicação a incitá-la para o fazer.
Agora, há que esperar que as ONG’s pró-ocidentais definam uma série de objectivos, entre os quais o da infiltração de grupos de activistas na sociedade civil argelina de modo a promover uma reforma completa do sistema político e económico do país. Não surpreenderá que os acusados de terem estado ao lado de Bouteflika passem a ser considerados “inimigos do povo”, apesar de, entre eles, figurarem alguns dirigentes históricos que contribuíram para salvar o país em mais do que uma ocasião.

Os argelinos têm fibra

As ONG’s exigirão o reforço da “transparência das eleições”, a liberalização da legislação existente, e convidarão numerosos “observadores internacionais”. Enquanto isso, Washington treina os futuros campeões políticos pró-ocidentais sob o pretexto de dar assistência a jovens dirigentes.
No entanto, se tivermos em conta o espírito de liberdade e patriotismo partilhado pela esmagadora maioria dos argelinos, o próprio espírito que permitiu à Argélia tornar-se o primeiro país a derrubar o domínio colonial francês, será difícil acreditar que os argelinos instalarão alegremente novos opressores ocidentais para os dominar. Podem os Estados Unidos desejar ter um controlo absoluto sobre os recursos naturais da Argélia através das suas ONG’s, mas isso não acontecerá.

*Investigador, analista independente e especialista em Próximo e Médio Oriente da publicação online New Eastern Outlook

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