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TRUMP AMEAÇA RÚSSIA E ONU

Donald Trump ameaçando a Rússia no gabinete oval da Casa Branca e na presença da "primeira dama interina" da Venezuela

2019-03-31

Eric Zuesse, Strategic Culture/O Lado Oculto

No dia 27 de Março, o presidente dos Estados Unidos declarou que “a Rússia tem de saír” da Venezuela e “todas as opções estão sobre a mesa” se Moscovo se recusar a suspender a protecção que ofereceu recentemente ao governo eleito em Caracas.

No mesmo dia, o vice-presidente norte-americano, Michael Pence, afirmou que “Nicolás Maduro é um ditador sem direito legítimo ao poder; pelo que a política oficial dos Estados Unidos, sob o comando do presidente Donald Trump, é a de que ele deve retirar-se”.
Através destas declarações concluiu-se que os Estados Unidos estão a fazer em relação a Maduro o que Barack Obama fez com Victor Yanukovich na Ucrânia em 2014; com Muammar Khaddafi na Líbia em 2011; e o que os Estados Unidos tentam fazer com Bachar Assad na Síria desde 2011; e o que George W. Bush fez com Saddam Hussein em 2003 no Iraque.
Desta feita, porém, há uma diferença porque a Rússia, por antecipação, não está a permitir que isso aconteça e enviou homens e equipamentos militares para a Venezuela para impedir que os Estados Unidos se apossem do país.
Em 22 de Janeiro, como se sabe, o presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Juan Guaidó, recebeu instruções do vice-presidente dos Estados Unidos para se proclamar chefe de Estado “interino”. E Guaidó obedeceu, embora a Constituição venezuelana estabeleça que apenas o Supremo Tribunal Judicial (com funções de Tribunal Constitucional) pode autorizar a Assembleia Nacional a considerar a possibilidade de remover o presidente – ainda que só uma pessoa possa suceder-lhe, o vice-presidente e não o presidente do Parlamento.
O Supremo Tribunal não tomou qualquer decisão nesse sentido, pelo que Guaidó, ao seguir as instruções de Michael Pence, está a cometer um golpe contra o seu país. O planeamento deste golpe foi demorado; é uma continuação do que estava a ser preparado pelo antecessor de Trump, Barack Obama.

A Rússia reagiu

A Rússia enviou tropas e armas para a Venezuela com o objectivo de proteger o país de uma possível invasão pelos Estados Unidos. O que Trump e Pence pretendem agora comunicar a Moscovo é que não vão aceitar que tal esteja a acontecer. Isto é, exigem que a tentativa de golpe seja bem sucedida.
Não é provável que a Rússia acate essas exigências mais do que o fez na Síria, onde a invasão norte-americana por procuração prossegue. Portanto, pelo menos nesses dois países os Estados Unidos estão a tentar conseguir mudanças de regime enquanto a Rússia, de maneira menos pública e explícita, está talvez até mais comprometida em fazer fracassar as agressões dos Estados Unidos.
O conceito de que os Estados Unidos actuam como “polícia do mundo” tornou-se um insulto para as Nações Unidos e deixa claro o que o actual conselheiro de segurança nacional de Trump, John Bolton, quis dizer quando declarou:

“Para nós será um grande erro conceder qualquer validade ao direito internacional mesmo que, a curto prazo, possa parecer vantajoso fazê-lo; porque, a longo prazo, o objectivo dos que pensam que o direito internacional significa realmente alguma coisa é o mesmo dos que pretendem constranger os Estados Unidos”. (in Registos do Congresso dos Estados Unidos, Volume 154, parte 8, 22 de Maio de 2008 a 6 de Junho de 2008 – última fonte, entrevista de John Bolton à revista News em 1999)

“As Nações Unidas não existem”

Ou ainda quando o mesmo Bolton declarou:

“O que pretendo deixar-vos claro, nesta breve apresentação, é exactamente o ponto por onde comecei: as Nações Unidas não existem. O que há é uma comunidade internacional que ocasionalmente pode ser liderada pelo único poder real que resta no mundo, o dos Estados Unidos da América, quando isso se encaixa nos nossos interesses e quando conseguimos fazer com que os outros nos acompanhem… O edifício do Secretariado da ONU em Nova York tem 38 andares; se hoje perder 10 andares isso não fará qualquer diferença” (in Convocação das Estruturas Globais, Nova York, 3 de Fevereiro de 1994).

Especificamente quanto à tentativa de golpe de Estado dos Estados Unidos contra a nação soberana da Venezuela, aqui fica o que disse John Bolton em 23 de Janeiro de 2019:

“Olhemos para os activos petrolíferos. Traduzem a mais importante fonte de rendimentos para o governo da Venezuela. Estamos a estudar o que fazer com isso… Não queremos que empresas ou investidores norte-americanos sejam apanhados de surpresa. Podem observar o que o presidente Trump fez ontem… Continuamos em contacto com grandes empresas norte-americanas que agora estão na Venezuela ou, no caso da Citgo (ramo norte-americano da petrolífera estatal venezuelana), aqui nos Estados Unidos (…) Economicamente seria uma grande diferença para os Estados Unidos se pudéssemos ter empresas petrolíferas dos Estados Unidos realmente a investir e a tirar proveito das capacidades petrolíferas venezuelanas”.

“Povo manipulado, não representado”

Por que razão John Bolton regressa sempre ao poder nos Estados Unidos? Porque representa os bilionários, não importa de que ramo, e porque o governo dos Estados Unidos também não representa o povo do país; representa apenas os indivíduos que financiam esmagadoramente os políticos dos Estados Unidos; e esses políticos, por sua vez, representam os interesses dos 585 bilionários dos Estados Unidos e não os interesses e as prioridades do povo norte-americano. O povo é meramente manipulado, não representado. É por isso que invadimos o Iraque. É por isso que invadimos a Líbia. É por isso que invadimos a Síria. Foi por isso que o regime dos Estados Unidos assumiu a Ucrânia. É por isso que agora está a tentar assumir a Venezuela.
A população não aprende com a história, mas é constantemente manipulada, sofre de ingenuidade permanente. Uma nação dirigida por gangsters contrata profissionais para a enganar constantemente. Isto é um negócio sério, não é para amadores. A visão ingénua da “democracia” faz com que pareça natural – mas não é, nem um pouco. Às vezes, coisas que não são naturais são essenciais; o que é cada vez mais o caso. Chamar aos Estados Unidos da América uma “democracia” é apoiar este governo que o mundo inteiro (nas únicas sondagens que já foram feitas sobre o assunto) reconhece ser o regime mais agressivo e perigoso da Terra. Este governo é natural, mas está podre.

Pirataria internacional

Por outras palavras, trata-se de pirataria internacional. Então, em vez de serem uma polícia do mundo, os Estados Unidos funcionam como o maior gang internacional; são os líderes globais do gangsterismo internacional, superando a máfia. Este é a realidade. E explica a razão pela qual o governo dos Estados Unidos despreza a ONU.
Qualquer pessoa, instituição ou entidade que apoie os Estados Unidos opõe-se às Nações Unidas e despreza a democracia – não apenas internamente, mas sobretudo internacionalmente. Ou o mundo é comandado pelo seu gangster principal, que representa e gang dominante e não, definitivamente, a população global (e nem a sua população nacional); ou então o mundo será liderado pela única democracia internacional que existe actualmente. É por isso que o regime dos Estados Unidos quer destruir a ONU – para eliminar até mesmo a pequena democracia que realmente conseguimos.



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