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A UNIÃO EUROPEIA COMO CÂMARA DE ECO DE TRUMP

Donald Tusk e Jean-Claude Juncker, a subserviência perante o imperador

2019-03-23

Manlio Dinucci, Il Manifesto/O Lado Oculto

O Parlamento Europeu aprovou uma resolução no sentido de a União Europeia deixar de considerar a Rússia como um parceiro estratégico mas sim um inimigo da humanidade. Simultaneamente, a Comissão Europeia advertiu contra a ameaça chinesa. Tudo se passa como se os Estados Unidos manipulassem a União para a integrar na sua própria estratégia supremacista.

“A Rússia não pode mais ser considerada um parceiro estratégico e a União Europeia deve estar pronta a impor-lhe novas sanções se continuar a violar o direito internacional”: é o que estabelece a resolução aprovada pelo Parlamento Europeu em 12 de Março, por 402 votos a favor, 163 contra e 89 abstenções. A resolução, apresentada pela deputada letã Sandra Kalniete*, recusa qualquer legitimidade às eleições presidenciais na Rússia, qualificando-as como “não-democráticas”, e declara também o presidente Putin como um usurpador.
O texto acusa a Rússia não apenas de ter “violado a integridade territorial da Ucrânia e da Geórgia”, mas também de “intervir na Síria e de interferir em países como a Líbia”; e de praticar na Europa “uma interferência com o objectivo de influenciar as eleições e agravar as tensões”. Acusa igualmente a Rússia de “violação dos acordos de controlo de armamentos”, atribuindo-lhe a responsabilidade de ter minado o Tratado de Proibição dos Mísseis de Médio Alcance (INF). Nos termos do documento aprovado pelo Parlamento Europeu, Moscovo é ainda responsável por “importantes violações de direitos humanos na Rússia, incluindo tortura e execuções extra-judiciais”, além de “assassínios perpetrados por agentes de espionagem russos em solo europeu e com recurso a armas químicas”.
Ao cabo destas e outras acusações, o Parlamento Europeu declara que o gasoduto Nord Stream 2 – que tem como objectivo duplicar o fornecimento de gás natural russo à Alemanha através do Mar Báltico – “faz crescer a dependência europeia em relação ao gás natural russo, ameaça o mercado interno europeu e os seus interesses estratégicos (…) pelo que deve ser cancelado”.

A voz de Washington

A resolução do Parlamento Europeu repete fielmente, não apenas nos conteúdos mas também nas palavras usadas, as acusações que os Estados Unidos e a NATO proferem contra a Rússia. Mais importante ainda, repete fielmente a exigência de bloquear o Nord Stream 2: objectivo da estratégia de Washington para reduzir os fornecimentos energéticos russos à União Europeia, de modo a substituí-los por gás liquefeito proveniente dos Estados Unidos ou de empresas norte-americanas.
No mesmo âmbito insere-se o comunicado da Comissão Europeia dirigido aos Estados-membros da União, e portanto à Itália, que têm a intenção de aderir à iniciativa chinesa “Cintura e Rota”, também conhecida como “Nova Rota da Seda”. A Comissão adverte os países nessa situação de que a China é um parceiro mas também um concorrente económico e, coisa da maior importância, “um rival sistémico que promove modelos alternativos de governança”, por outras palavras, modelos alternativos à governança até agora dominada pelas potências ocidentais”.
A Comissão adverte que é preciso, antes de mais, “salvaguardar as infraestruturas digitais críticas de ameaças potencialmente sérias contra a segurança” resultantes de redes 5G fornecidas por empresas chinesas como a Huawei, banida nos Estados Unidos. A Comissão Europeia repete fielmente a advertência dos Estados Unidos aos aliados. O comandante supremo aliado na Europa, o general norte-americano Scaparrotti, avisou que as redes móveis ultra-rápidas de quinta geração desempenharão um papel cada vez mais importante nas capacidades guerreiras da NATO: daí que não sejam admissíveis “ligeirezas” por parte dos aliados.
Tudo isto confirma o grau de influência que o “partido americano” exerce, poderoso campo transversal que orienta as políticas da União segundo as linhas estratégicas dos Estados Unidos e da NATO.
Construindo a falsa imagem de uma Rússia e uma China ameaçadoras, as instituições europeias preparam a opinião pública para aceitar o que os Estados Unidos têm vindo a preparar para “defender” a Europa. Os Estados Unidos – declarou um porta-voz do Pentágono à CNN – preparam-se para testar mísseis balísticos baseados em terra (proibidos pelo Tratado INF, enterrado por Washington), isto é, os euromísseis de mais recente geração, que transformarão de novo a Europa numa base e, ao mesmo tempo, num alvo de uma guerra nuclear.

*Antiga ministra dos Negócios Estrangeiros da Letónia e ex-comissária europeia da Agricultura. Trabalhou pela independência contra a União Soviética e é uma das autoras da “Declaração de Praga” (2008) que assimila “o nazismo ao comunismo”, através do chamado “Grupo de Reconciliação das Histórias Europeias”. Dedica agora a sua actividade contra a Rússia.




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