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APAGÃO: “ACONTECIMENTO DECISIVO” NA ESTRATÉGIA GOLPISTA

Srdja Popovic, fazedor de "revoluções coloridas", treinador de Juan Guaidó em "mudanças de regime", pago pelos Estados Unidos

2019-03-18

A estratégia golpista na Venezuela segue um guião que não é de hoje e tem quase tanto tempo de vida como a Revolução Bolivariana. E que não hesita em tirar proveito do sofrimento de milhões de pessoas. A organização CANVAS, financiada pelos Estados Unidos e que treinou Juan Guaidó e os seus aliados, elaborou um memorando em 2010 dedicado à exploração de apagões eléctricos, instando as oposições a regimes independentes dos Estados Unidos a “aproveitar a situação… como resposta às suas necessidades”.

Max Blumenthal, Grayzone Project/O Lado Oculto

Um memorando de Setembro de 2010, elaborado por uma organização de “soft power” financiada pelos Estados Unidos que ajudou a treinar o dirigente golpista venezuelano Juan Guaidó e seus aliados, identifica o colapso potencial do sector eléctrico de um país como “um acontecimento decisivo” que “provavelmente terá um impacto para galvanizar o mal-estar público com uma tal dimensão que jamais algum grupo de oposição poderia esperar”.
O memorando tem uma relevância especial nos dias que correm, quando Guaidó se esforça por explorar os apagões a nível nacional na Venezuela provocados por uma avaria na Central Hidroeléctrica Símon Bolívar, na barragem de Guri – uma crise cuja responsabilidade o governo venezuelano atribui a sabotagem dos Estados Unidos.
O documento foi escrito por Srdja Popovic, do Centro de Acção e Estratégias Não-Violentas Aplicadas (CANVAS), uma organização “para promoção da democracia” com sede em Belgrado, financiada pelos Estados Unidos e que tem formado milhares de jovens activistas alinhados com Washington em países onde o Ocidente procura mudar o regime.
Este grupo hospedou Guaidó e dirigentes-chave do seu partido Voluntad Popular para uma série de sessões de treino, transformando-os na “Geração 2007” decidida a fomentar a oposição contra o então presidente Hugo Chávez e a sabotar os seus planos para desenvolver o “socialismo do século XXI” na Venezuela.
Nesse memorando de 2010, Popovic, do CANVAS, escreveu: “Uma das chaves da actual debilidade de Chávez é a fragilidade do sector eléctrico”. Popovic identificou explicitamente a Central Hidroeléctrica Simón Bolívar como um ponto fraco, realçando que “os níveis de água na barragem de Guri estão a baixar e Chávez não conseguiu reduzir o consumo o suficiente para compensar a deterioração da indústria”.
Especulando sobre uma “grande possibilidade de cerca de 70% da rede eléctrica do país ter problemas a partir de Abril de 2010”, o elemento do CANVAS declarou que “um grupo de oposição seria o mais indicado para aproveitar a situação, virando-a contra Chávez para responder às suas necessidades”.
Se avançarmos para Março de 2019, o cenário esboçado por Popovic está a desenvolver-se exactamente como ele o tinha imaginado.
Em 7 de Março, apenas uns dias depois do regresso de Guaidó da Colômbia, onde participou no golpe falhado e visivelmente violento de 23 de Fevereiro para forçar a travessia da fronteira venezuelana com “ajuda” norte-americana, a Central Hidroeléctrica Simón Bolívar teve um colapso grave e, contudo, inexplicável.
Dias depois a electricidade continua a ser intermitente em todo o país. Entretanto, Guaidó faz todos os possíveis “para aproveitar a situação e revertê-la” contra o presidente Nicolás Maduro, tal como o CANVAS sugeriu aos seus aliados há mais de oito anos.

As premonições de Rubio

O governo venezuelano culpou directamente Washington pelo sucedido, acusando-o de sabotagem através de um ataque cibernético à infraestrutura eléctrica do país. Os actores-chave da tentativa de golpe de Estado dirigida pelos Estados Unidos fizeram pouco para dissipar as suspeitas.
Num tweet de 8 de Março, o secretário de Estado, Michael Pompeo, registou o apagão como uma etapa crucial nos planos dos Estados Unidos para mudar o regime: “As políticas de Maduro só conseguem produzir escuridão. Não há comida. Não há medicamentos. Agora, não há energia. A seguir, não haverá Maduro”.
Ao meio dia de 7 de Março, durante uma audição sobre a Venezuela na Subcomissão de Negócios Estrangeiros do Senado, em Washington, o senador Marco Rubio fez um apelo explícito aos Estados Unidos para que promovam “um mal-estar generalizado”, acrescentando “ser necessário que tal aconteça” para provocar uma mudança de regime.
“A Venezuela vai entrar num período de sofrimento que nenhuma nação do nosso hemisfério enfrentou na sua história moderna”, proclamou Rubio.
Por volta das cinco da tarde, a Central Eléctrica Simón Bolívar sofreu um colapso total e ainda por explicar. Os habitantes de Caracas e de toda a Venezuela mergulharam imediatamente na escuridão.
Às 5 e 18 da tarde, um Rubio visivelmente emocionado postou um tweet para anunciar o apagão, afirmando que “os geradores de emergência falharam”. Não é possível saber como o senador norte-americano Marco Rubio obteve uma informação tão específica logo a seguir ao início do apagão.
Segundo Jorge Rodríguez, ministro das Comunicações da Venezuela, no momento do tweet de Rubio as autoridades locais ainda não sabiam que os geradores de emergência se tinham avariado.
De regresso a Caracas, Guaidó dispôs-se imediatamente a tirar proveito da situação, tal como tinham aconselhado os seus treinadores do CANVAS mais de oito anos antes. Intervindo no Twitter pouco mais de uma hora depois de Rubio declarou: “A luz voltará quando terminar a usurpação (de Maduro)”. Tal como Pompeo, o autoproclamado presidente identificou os apagões como parte de uma estratégia de mudança de regime, não como um acidente ou um erro.
Dois dias depois, Guaidó foi a figura central de um encontro da oposição que convocou para o sector Oriente de Caracas, vociferando a um megafone: “Activaremos o artigo 187 quando o dia chegar. Irão encontrar-nos nas ruas, mobilizados, o que só depende de nós, de mais ninguém”.
O artigo 187 estabelece o direito de a Assembleia Nacional “autorizar operações militares venezuelanas no estrangeiro ou estrangeiras no país”.
Ao mencionar o artigo da Constituição, os partidários de Guaidó responderam: “Intervenção! Intervenção!”

Explorar a crise “para regressar a uma situação de poder”

Como Dan Cohen e eu próprio revelámos em Grayzone, a ascensão de Guaidó – e o complot golpista que foi encarregado de supervisionar – são produto de um projecto com uma década de existência, orientado pela equipa CANVAS com sede em Belgrado.
CANVAS é um ramo do Otpor, um grupo de protesto sérvio fundado por Srdja Popovic em 1998 na Universidade de Belgrado. Otpor, que significa “resistência” em servo-croata, foi o grupo estudantil que trabalhou em conjunto com organizações norte-americanas de “soft power” para mobilizar as manifestações que acabaram por derrubar o falecido presidente sérvio Slobodan Milosevic.
CANVAS é financiado, em grande parte, através do National Endowment for Democracy (NED), um apêndice da CIA que funciona como o principal braço do governo dos Estados Unidos para promover mudanças de regime. Segundo mensagens de correio electrónico filtradas pela agência Stratfor, uma empresa de inteligência conhecida por ser “A CIA na sombra”, CANVAS “pode ter recebido também financiamento e treino da CIA durante a luta contra Milosevic em 1999/2000”.
Uma mensagem de e-mail revelada por um membro do pessoal da Stratfor sublinha que, depois de terem expulso Milosevic, “os jovens que dirigiam o Otpor cresceram, vestiram fato e criaram CANVAS … ou, por outras palavras, um grupo para ‘exportação da revolução’ que espalhou as sementes de uma série de revoluções coloridas. Estão, contudo, dependentes do financiamento dos Estados Unidos e basicamente andam por todo o mundo tratando de derrubar ditadores e governos autocráticos (aqueles de que os Estados Unidos não gostam)”.
Posteriormente, Stratfor revelou que CANVAS “dirigiu a sua atenção para a Venezuela” em 2005, depois de treinar os movimentos de oposição que lideraram as operações de mudança de regime pró-NATO em todo o Leste da Europa.
Em Setembro de 2010, numa altura em que a Venezuela se preparava para as eleições parlamentares, CANVAS elaborou uma série de memorandos esboçando os planos destinados a “actores não formais” como Guaidó e o seu quadro de activistas estudantis para derrubar Chávez. “Esta é a primeira oportunidade para que a oposição volte a ocupar uma posição de poder”, escreveu então Popovic.
No memorando sobre os cortes de electricidade, Popovic destacou a importância dos militares venezuelanos para alcançar uma mudança de regime. “As alianças com os militares poderão ser críticas, porque numa tal situação de mal-estar público massivo e rejeição da presidência”, escreveu o fundador de CANVAS, “é provável que sectores descontentes dos militares decidam intervir, mas apenas se acreditarem que têm apoio suficiente”.
Ainda que o cenário idealizado por Popovic não se tenha materializado em 2010, descreve perfeitamente a situação em que a Venezuela se encontra hoje em dia, uma vez que um dirigente da oposição formado pelo CANVAS pretende virar a crise contra Maduro, ao mesmo tempo que apela aos militares para quebrarem lealdades.
A partir do momento em que Grayzone expôs os laços profundos entre CANVAS e o partido Voluntad Popular de Guaidó, Popovic tentou distanciar-se publicamente do seu historial de treino da oposição venezuelana.
Hoje, porém, o memorando de Popovic de 2010 sobre a exploração dos apagões pode ler-se como um plano estratégico que Guaidó e os seus patronos de Washington desenvolveram activamente. Resulte ou não o apagão de uma acção de sabotagem externa, representa o “acontecimento decisivo” para o qual CANVAS preparou os seus quadros venezuelanos.



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