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WASHINGTON PERSEGUE OS PORTOS CHINESES

Projecto de empreendimento turístico em Koh Kong (Camboja) financiado pela Chima e que os Estados Unidos alegam tratar-se da construção de uma base naval

2019-03-06

Vladimir Terekhov*, New Eastern Outlook/O Lado Oculto

Em 15 de Novembro do ano passado, o popular jornal Asia Times, de Hong Kong, publicou um artigo com o seguinte título: “Camboja no centro de uma nova guerra fria”. O texto revelava que desde 2017 a China tem desenvolvido esforços junto do governo cambojano para permitir a construção de uma base naval perto da cidade portuária de Koh Kong, no Golfo da Tailândia, Mar da China Meridional.

O artigo suscitou muita atenção porque o Mar da China Meridional – incluindo a ilha de Taiwan – tem sido um foco de tensão entre duas grandes potências mundiais, os Estados Unidos e a China. Essa tensão assume um carácter global: e pode, sem exagero, ser qualificada como “uma nova guerra fria”. O que já será um pouco exagerado é descrever o Reino do Camboja – um dos países ribeirinhos do Mar da China Meridional – como o “centro” dessa nova guerra fria.
Até recentemente, as tensões concentraram-se no sector Leste do Mar do Sul da China, que Pequim considera fazer parte das suas águas territoriais. A China Popular construiu ilhas artificiais nesta zona do Mar da China Meridional e utiliza-as também no âmbito das suas infraestruturas militares: portos, bases aéreas, postos de observação em terra e sistemas antimísseis. No entanto, outras nações ribeirinhas do mesmo mar reivindicam igualmente a soberania sobre todos ou alguns arquipélagos da região. E observadores têm feito notar que navios da Marinha dos Estados Unidos estão também cada vez mais activos na zona. Washington, que adopta oficialmente uma posição de neutralidade em relação às disputas territoriais entre a China e os vizinhos, afirma que a sua presença é apenas o exercício do direito geral de “livre circulação no Mar da China Meridional”.

Uma rota económica

É possível identificar, nos últimos anos, duas importantes razões para as actividades amplas da China Popular neste mar. A primeira é o conceito quase sagrado, profundamente enraizado, de “uma nação chinesa única”. Este ideal é um objectivo em si mesmo, independentemente de quaisquer vantagens “práticas” que possa permitir.
A segunda razão está directamente associada com as actuais políticas pragmáticas da China. Uma diz respeito ao objectivo de garantir o transporte ininterrupto e seguro de hidrocarbonetos dos seus principais fornecedores em África e no Golfo Árabe-Pérsico. O principal adversário geopolítico da China, os Estados Unidos, tem um controlo quase total sobre os oceanos do mundo, o que levou a China a construir novos portos que possam ser utilizados pelos seus navios comerciais na rota de transporte fundamental do Oceano Índico, através do Estreito de Malaca, para o Mar da China Meridional.
Portos como o de Hambantota, na costa sul do Sri Lanka, e Gwadar, na costa do Mar Arábico, no Paquistão, tornaram-se bem conhecidos. Ambos os países são inflexíveis ao rejeitar o uso desses portos para fins militares; e a China, que arrendou essas estruturas, pronuncia-se no mesmo sentido, confirmando que não existe qualquer objectivo militar na sua utilização.

A questão do Estreito de Malaca

O sector mais vulnerável na citada rota é o Estreito de Malaca, especialmente a sua entrada, onde se encontra a Cidade-Estado de Singapura. Este país, como todos os do Sudeste Asiático, situam-se entre as esferas de influência de duas das principais potências mundiais e procuram manter um delicado equilíbrio.
Qualquer desses países tem uma estreita margem de manobra para atingir um equilíbrio perfeito, o qual, em todos os casos, será frágil e incerto. Embora Singapura esteja determinada a desenvolver vínculos com a China, particularmente em questões económicas, existem poucas dúvidas sobre a sua posição “pró-americana”. Por isso, para encontrar um ponto onde possa estabelecer um porto muito perto da entrada do Estreito de Malaca, a China precisa de procurar noutro lugar.
Ao que parece, Pequim encontrou no Camboja o que pretende. Como ficámos a saber em meados de Novembro, representantes dos Estados Unidos e do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Camboja encontraram-se à margem do Fórum ASEAN+EUA, realizado em Singapura, para discutirem um eventual arrendamento de território na costa cambojana pela China. Até o Asia Times revelar essa reunião, o assunto tinha escapado completamente aos media globais.

Afinal é um empreendimento turístico

Vários dias após a publicação do artigo, o primeiro-ministro do Camboja, Hun Sen, confirmou que o seu país discutiu essa questão com os Estados Unidos e também que ele próprio recebeu uma carta do vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, que chefiou a delegação norte-americana ao citado Fórum em Singapura.
Citando a Constituição do país, Hun Sem negou categoricamente a possibilidade de serem construídas bases militares estrangeiras ou de permitir o estacionamento de tropas estrangeiras no Camboja.
Afinal, os receios de Washington acabaram por provocar a divulgação de informações sobre os planos de Pequim para financiar um resort turístico com 450 quilómetros quadrados (uma área que é claramente excessiva para uma base naval) na região de Koh Kong. Como se trata de atraír turistas, os planos prevêem uma infraestrutura moderna de transportes e logística, e não uma base naval, principalmente porque a área não está longe dos famosos e populares resorts costeiros da Tailândia. Daí ser natural que o projecto inclua a modernização do porto de Koh Kong.
Apesar disso, os “serviços de observação” dos Estados Unidos passarão a acompanhar de perto não apenas os portos de Hambantota e Gwadar, mas também o de Koh Kong, no Camboja.

O caso de Israel

E não apenas o de Koh Kong. Os Estados Unidos alegam ter motivos para se preocupar com outro porto, desta feita num país de onde não se esperaria advir qualquer problema. O porto em questão é Haifa, em Israel. Em Setembro de 2018, o jornal israelita Haaretz publicou um artigo com um título apelando ao dramatismo: “Israel está a entregar as chaves do seu maior porto à China – e a Marinha dos Estados Unidos pode abandonar Israel”.
O artigo descreve um cenário que é, de facto, difícil de imaginar: um porto com uma secção chinesa, equipada para receber grandes navios porta-contentores, ao lado de ancoradouros e infraestruturas costeiras utilizadas por navios da Marinha dos Estados Unidos e de bases da Marinha israelita vocacionadas para submarinos (presumivelmente) portadores de mísseis nucleares.
Um mês depois, a revista inglesa The Economist, num tom menos sensacionalista, revelou que chefes dos serviços secretos israelitas ficaram “surpreendidos” ao ver operários de construção chineses trabalhando arduamente em instalações próximas de um dos terminais portuários de Haifa.
O autor do artigo sugere que o aparecimento de trabalhadores chineses em Haifa, a partir de Junho de 2018, está associado às actividades do Shangai International Port Group, que em 2015 venceu um concurso internacional para modernizar algumas partes do porto daquela cidade. Aparentemente, a eventualidade de participação de empresas chinesas no concurso não fora discutida pelo governo israelita.
Ainda de acordo com o artigo, os serviços de espionagem israelitas estão muito preocupados com o desenvolvimento de amplos laços entre Israel e a China, especialmente com a partilha de conhecimentos tecnológicos.
Deve ser levado em conta que as acusações destinadas ao governo israelita sobre esta matéria estão provavelmente relacionadas com a campanha política que culminará com as eleições gerais de Abril
No entanto, para salvaguardar as relações com os Estados Unidos, que nem sempre são simples, o governo israelita está a ser cuidadoso ao não colocar todos os ovos na mesma cesta, neste caso a chinesa.

Onde entra o Japão

A influência do Japão, rival geopolítico da China, na economia de Israel está também a crescer rapidamente. De acordo com um relatório oficial, o número de empresas japonesas que fazem negócios com Israel triplicou desde 2013, o que fez aumentar significativamente o volume dos investimentos nipónicos na economia israelita. Já este ano registaram-se novos movimentos traduzindo o interesse comum dos dois países em desenvolver a sua cooperação, especialmente no sector de alta tecnologia: em meados de Janeiro, uma delegação comercial japonesa chefiada pelo ministro da Economia, Comércio e Indústria, Hiroshige Seko, visitou Israel; a comitiva incluiu representantes de grandes empresas de numerosos sectores.
Como resposta às preocupações dos Estados Unidos sobre os esforços da China para desenvolver instalações portuárias em várias partes do mundo, Pequim continua a insistir que as actividades são exclusivamente de índole civil e pacífica, inseridas no desenvolvimento da sua iniciativa estratégica Cintura e Rota (One Belt, One Road).
Na realidade, a China tem uma única base militar fora do território nacional, em Djibuti (Corno de África), o que compara com mais de 800 bases militares norte-americanas distribuídas pelo mundo. Independentemente disso, após um período bastante estático a seguir à guerra fria registam-se agora algumas mudanças significativas na ordem internacional, um processo contínuo susceptível ainda de provocar muitas surpresas.

*Especialista em questões da Região Ásia-Pacífico



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