O Lado Oculto é uma publicação livre e independente. As opiniões manifestadas pelos colaboradores não vinculam os membros do Colectivo Redactorial, entidade que define a linha informativa.

EUA E ISRAEL PREPARAM GUERRA NOS MONTES GOLÃ

A descoberta de importantes reservas de petróleo nos Montes Golã revolucionou os dados geoestratégicos do território sírio ilegalmente ocupado por Israel

2019-02-28

Whitney Webb, MintPress News/O Lado Oculto

Projectos de lei apresentados recentemente no Senado e na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos poderão levar o país a reconhecer a soberania de Israel sobre os Montes Golã, território ocupado por Israel à Síria desde 1967. O governo israelita procedeu à sua anexação em 1981, mas esse facto não foi reconhecido pela comunidade internacional, nem mesmo pelos Estados Unidos.

Os textos depositados no Congresso norte-americano defendem também a promoção de “projectos conjuntos” com Israel na região do Golã, incluindo “pesquisa e desenvolvimento industrial”. Esta recomendação revela o interesse em incentivar esforços entre os Estados Unidos e Israel para explorar as grandes reservas de petróleo detectadas recentemente no território e cujos direitos de extracção foram cedidos a uma joint venture israelo-norte-americana, a Genie Energy.
Nos últimos meses têm vindo a intensificar-se os jogos de influência de Israel para que a questão dos Montes Golã seja abordada do ponto de vista legislativo pelos Estados Unidos, sobretudo após a decisão da administração Trump de reconhecer unilateralmente a cidade de Jerusalém como pertencente a Israel e ser a capital do país.

O Irão no horizonte

Em Maio passado, o ministro israelita responsável pelos serviços secretos, Israel Katz – agora ministro interino dos Negócios Estrangeiros – afirmou à agência Reuters que o reconhecimento por Washington do controlo israelita sobre os Montes Golã estava “no topo da agenda” das negociações bilaterais, o que poderá significar a passagem à prática dentro de alguns meses.
Katz afirmou igualmente que o reconhecimento norte-americano estava a ser apresentado a Trump como mais uma vertente do combate ao Irão, objectivo que se tornou a força motriz que impulsiona a política da actual administração em relação ao Médio Oriente. Ainda segundo o ministro israelita, as discussões bilaterais sobre o reconhecimento do Golã pelos Estados Unidos expandiram-se ao ponto de envolverem vários níveis da administração de Washington e diversos congressistas.
Os esforços aos quais Israel Katz fez alusão em Maio parecem ter dado origem aos projectos de lei recentemente apresentados tanto na Câmara como no Senado. O projecto de lei do Senado foi proposto pelo republicano do Texas Ted Cruz, o principal destinatário, entre os republicanos, das contribuições do lobby israelita no Senado; e pelo também senador republicano Tom Cotton, do Arkansas, igualmente muito financiado pelo lobby israelita. De facto, Cotton recebeu mais de 700 mil dólares do Comité de Emergência para Israel em 2014 e quase um milhão de dólares do mesmo grupo um ano depois.
Como previu Israel Katz, os textos dos novos projectos de lei moldam o reconhecimento da anexação dos Montes Golã por Israel como um meio para combater o Irão; afirmam directamente que os Estados Unidos devem reconhecer a soberania israelita sobre o território “à luz das novas realidades regionais, incluindo a presença do Irão na Síria”. Declaram ainda que é “no interesse da segurança nacional” dos Estados Unidos que Israel consolide o seu controlo sobre a área e sublinham que o movimento para reconhecer os Montes Golã como pertencentes a Israel é “diplomático e geopolítico”. Os projectos invocam igualmente o alegado recurso a “armas de destruição massiva”, à “limpeza étnica de árabes sunitas” e ao assassínio de civis pelo governo sírio.

Falsos argumentos

Esta argumentação para punir a Síria e enfraquecer a sua reivindicação de soberania sobre os Montes Golã ocupados é, na melhor das hipóteses, duvidosa. De facto, o alegado “uso de armas de destruição massiva” pelo governo sírio, aparentemente uma referência a armas químicas, é um assunto polémico, uma vez que muitos, se não todos, os ataques com engenhos desse tipo foram encenados por grupos armados apoiados pelos Estados Unidos e os seus aliados regionais, como Israel. Além disso, os Estados Unidos usaram repetida e ilegalmente uma arma química contra populações sírias – o fósforo branco.
Enquanto isso, os projectos de lei omitem que os Estados Unidos mataram muitos civis sírios nas suas operações militares – incluindo em Raqqa, onde ainda continuam a ser descobertos corpos de civis quase dois anos depois da “libertação” da cidade, comandada por efectivos norte-americanos. Aparentemente, apenas as mortes de civis provocadas pelo lado sírio têm “consequências diplomáticas e geopolíticas”.
O ponto da argumentação que diz respeito às supostas “limpezas étnicas de árabes sunitas” praticadas pelo governo da Síria, cuja maioria dos habitantes é formada também por árabes sunitas, é bastante irónico; lembremos a limpeza étnica na Palestina e o facto de grupos armados apoiados pelos Estados Unidos limparem etnicamente vastos territórios e grupos minoritários religiosos, como cristãos e yazidis.
A justificação de reconhecer a soberania israelita sobre os Montes Golã como uma forma de punição da Síria é, deste modo, apenas uma fachada para o objectivo israelita de consolidar o seu controlo do território recorrendo à ajuda dos Estados Unidos. Apesar disso, porém, os projectos de lei têm boas hipóteses de serem aprovados tendo em conta a recente e esmagadora aprovação bipartidária do chamado projecto “anti-BDS”*, que foi impulsionado pelo lobby israelita como meio de combater a resistência cívica e pacífica à desumana ocupação da Palestina.

Onde há petróleo…

Apesar da ansiedade de Israel em consolidar o controlo sobre os Montes Golã, qualquer reconhecimento da soberania pelos Estados Unidos provocará provavelmente grandes repercussões na comunidade internacional e aumentará a tensão entre Israel e a Síria. Em grande parte porque as leis internacionais rejeitam o reconhecimento do território como parte de Israel, apesar de este país ter enviado mais de 20 mil colonos judeus para alterar a composição étnico-demográfica, transformando a população drusa nativa em minoria.
Muitos dos drusos que vivem no Golã ocupado queixam-se há longo tempo de serem rotineiramente discriminados pelo governo israelita e continuam a apoiar o governo sírio. Além disso, a ONU acusou Israel de “forçar a cidadania” desse grupo étnico para intensificar a sua reivindicação de soberania. Israel tenciona, entretanto, enviar mais cem mil colonos para o território até 2020 para impor ainda mais a sua posição.
Embora seja improvável que qualquer medida desse tipo recolha amplo apoio internacional, é importante notar que o objectivo da decisão norte-americana de reconhecer a soberania israelita sobre os Montes Golã não é angariar essa aprovação, mas fornecer cobertura diplomática suficiente para a extracção conjunta de petróleo por Estados Unidos e Israel e apropriar-se dos recursos estratégicos do território. De facto, foi descoberta em 2015, nos Montes Golã, uma enorme reserva de petróleo, da ordem dos “milhares de milhões de barris”, susceptível de transformar Israel – que actualmente importa a grande maioria dos seus combustíveis – num exportador líquido de petróleo.
Logo após a descoberta, o governo israelita concedeu direitos exclusivos de perfuração à Afek, uma empresa subsidiária israelita da Genie Energy, com sede em Nova Jersey, que congrega representantes de poderosos interesses dentro dos Estados Unidos. Entre eles estão Larry Summers, secretário do Tesouro; Dick Cheney, ex-vice-presidente e executivo da Halliburton; e James Woolsey, ex-director da CIA. Multimilionários sionistas muito poderosos como o magnata australiano dos media, Rupert Murdoch, e o inglês Jacob Rothschild também estão associados à empresa. O ramo israelita Afek é dirigido por um amigo pessoal e muito próximo do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu.
Os investimentos da Genie Energy nos Montes Golã são, muito provavelmente, o factor mais influente para que os Estados Unidos reconheçam a soberania israelita sobre o território ocupado. Na realidade, sem uma mudança dos Estados Unidos no sentido de reconhecerem essa soberania, a subsidiária da Genie não poderá vender o petróleo extraído do Golã no mercado internacional.
Esta situação ressalta do texto dos projectos de lei, que exigem especificamente o estabelecimento de empreendimentos conjuntos dos Estados Unidos e Israel nos Montes Golã, designadamente em “campos científicos básicos e aplicados” e em “pesquisa e desenvolvimento industrial”.

Petróleo mistura-se com água

Além do petróleo, os Montes Golã têm ainda importantes recursos de água doce, uma vez que ali se situa uma das três fontes que alimentam o Estado de Israel. Das três, é a maior em dimensão e a mais abundante, pois inclui os córregos de montanha que abastecem o Lago Kinneret (Mar da Galileia) e o rio Jordão. Os recursos hídricos dos Montes Golã são essenciais não apenas para a existência de Israel como para as suas ambições expansionistas, facto que explica a sua participação num plano de 2006 para fomentar uma “guerra civil” na Síria. No entanto, a descoberta de petróleo e a criação da Genie Energy vieram reforçar drasticamente a determinação de Israel e de interesses poderosos nos Estados Unidos e no Reino Unido para consolidar o controlo sobre o Golã.
Os textos dos projectos de lei sugerem que a utilização dos recursos hídricos também está em jogo, uma vez que os planos conjuntos entre Israel e os Estados Unidos contêm um ponto sobre “pesquisa estratégica e aplicada de problemas agrícolas”.
Originalmente, Israel planeava recorrer a uma “zona-tampão” assegurada por grupos extremistas no sul da Síria, que financiou, para fazer pressão internacional favorável ao reconhecimento da anexação do Golã, especialmente se o conflito sírio tivesse como consequência uma mudança de governo em Damasco. No entanto, como notou a publicação Southfront no final de 2018, a derrota desses grupos às mãos do exército regular sírio representou “um grande golpe para as pretensões de Telavive de fazer a comunidade internacional reconhecer a anexação dos Montes Golã”; e levou o então ministro israelita da Defesa, Avigdor Lieberman, a recear que o êxito dos militares sírios pudesse, em breve, ameaçar o controlo de Israel sobre o território.
Daí o facto de Israel reforçar a sua pressão no sentido de os Estados Unidos reconhecerem a sua soberania sobre a região, com medo de perdê-la totalmente, ainda que isso possa provocar uma guerra generalizada entre Israel a Síria e os seus aliados, o Irão e o Hezbollah do Líbano. Israel tem vindo a preparar-se para esta guerra há bem mais de um ano; e agora, que encara a possibilidade de envolver tropas norte-americanas nesse conflito, quendo ele for desencadeado, as consequências da aprovação destes projectos de lei no Congresso podem representar mais uma guerra - e devem ser encaradas com a gravidade que merecem.

*BDS – Campanha “Boicote, Desinvestimento, Sanções” no sentido de isolar a política de apartheid praticada por Israel através da recusa em consumir produtos israelitas e rejeitar a cumplicidade com acontecimentos políticos, comerciais, económicos e culturais patrocinados por Israel.



Mais notícias...

Iniciar sessão

Recuperar password

goto top