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UCRÂNIA CHEGA ÀS ELEIÇÕES NO TOPO DA POBREZA EUROPEIA

O presidente e agora candidato presidencial favorito dos Estados Unidos e da União Europeia, Petro Porochenko, é o mesmo que reabilitou o criminoso nazi Stepan Bandera como "herói nacional"

2019-02-25

Dmitry Babich, Strategic Culture/O Lado Oculto
Com as eleições presidenciais ucranianas cada vez mais próximas, marcadas para 31 de Março, políticos ocidentais esforçam-se por protegê-las das “intromissões russas”. Esta protecção transformou-se numa espécie de desporto peculiar anglo-saxónico, pelo que o próximo acto eleitoral ucraniano foi ponto destacado da agenda da reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia realizada em 18 de Fevereiro.

Um leitor ingénuo da imprensa ocidental poderá interrogar-se sobre as razões pelas quais o presidente da “recém-ocidentalizada” Ucrânia, Petro Porochenko, tem apenas 14% de aprovação nas sondagens, arrastando-se atrás do comediante Vladimir Zelensky, com 21,9%, e da ex-primeira-ministra Yulia Tymochenko, com 19%. Obviamente devem ter ocorrido “intromissões” russas.

Um país que é uma ameaça a si próprio

Observando mais atentamente a situação, as eleições ucranianas parecem necessitar muito mais de protecção contra as formas de extremismo ucraniano, que podem parecer idiotices se olhadas superficialmente, do que resguardar-se de intromissões do lado russo. Basta olhar para uma curta lista de recentes sugestões e reais decisões políticas (algumas delas oriundas dos escalões mais altos do governo) assumidas no calor da histeria eleitoral. Naturalmente, a maioria dessas sugestões e decisões estão associadas à Rússia.
O candidato presidencial Vitaly Kupryi sugere, pura e simplesmente, que a Ucrânia deve declarar guerra à Rússia e, por isso, o presidente Petro Porochenko tem de anunciar uma mobilização geral imediata e fazer aprovar uma nova lei que permita às tropas começarem a marchar contra “o agressor”. Kupryi é um deputado da Rada Suprema (o Parlamento ucraniano): o seu projecto de lei, que tem o apoio de um grupo de deputados também ansiosos pela guerra, deu oficialmente entrada e aguarda a inclusão na lista de temas a debater. Até agora, o Parlamento tem evitado seguir por esse caminho um tanto ou quanto suicida, preferindo outras rotas mais longas e enviesadas em direcção à catástrofe. Recentemente a Rada abriu caminho para a NATO e a União Europeia através uma alteração na Constituição que torna essas integrações vinculativas. Desde 1990, a Lei Fundamental da Ucrânia estabelecia que o país era neutro e não deveria fazer parte de qualquer bloco.
Os parlamentares continuam entretanto a trabalhar num projecto de lei que transforma a “negação da agressão russa contra a Ucrânia” (isto é, afirmar a verdade sobre a guerra promovida por Kiev contra os territórios ucranianos russófonos) num crime punível com vários anos de prisão.
O principal candidato presidencial e presidente em exercício, Petro Porochenko, não permitiu, contudo, que o Parlamento o ultrapassasse em disparates bélicos. Declarou as visitas dos cidadãos russos à Península da Crimeia como “crimes de ódio – violações da fronteira ucraniana”, puníveis com vários anos de prisão em território ucraniano. Como 6,8 milhões de turistas russos visitaram a Crimeia só no ano de 2018, Porochenko poderá fazer entrar a Ucrânia para Livro dos Recordes do Guiness como o país do mundo potencialmente com a maior população carcerária.

A falsa escolha entre Putin e Porochenko

Quanto às “interferências” russas nas eleições ucranianas, são alguns dos próprios candidatos, entre eles Porochenko, que estão a fabricá-las através de uma permanente campanha, não sobre as questões da Ucrânia mas contra a Rússia e o seu presidente, Vladimir Putin. Anúncios da campanha de Porochenko, por exemplo, exibem fotomontagens do presidente ucraniano lutando com o seu homólogo russo acompanhadas pela seguinte legenda: “Ou Putin ou Porochenko”.
As razões pelas quais o presidente em exercício tenta permanentemente redirecionar a atenção dos eleitores para longe dos problemas reais, substituindo-os pela “invasão” da Rússia é óbvia: “A situação económica catastrófica da Ucrânia não deixa a Porochenko qualquer espaço para se autopromover”, afirma Mikhail Pogrebinsky, presidente do Centro de Estudos de Investigação Política e de Conflitos, com sede em Kiev. “Este multimilionário do chocolate, que enriqueceu à sombra de todos os governos, de Kuchma a Yanukovich, tornou-se impotente perante os problemas económicos do país”, acrescenta.
No último trimestre de 2018, o rendimento médio mensal de uma família ucraniana era de 9400 hryvnas, pouco mais de 300 euros, o que levou o FMI a declarar a Ucrânia como o país mais pobre da Europa – isto é, superou a Moldávia (salário médio de 350 euros) no topo do pouco honroso ranking da pobreza. Oleg Lyashko, um extravagante candidato nacionalista do Partido Radical da Ucrânia, acusou Porochenko de “nos levar para a Europa via África”.

Um triste fim para os “salvadores estrangeiros”

Não admira que Porochenko tenha deixado de falar sobre o combate à corrupção e a introdução de padrões ocidentais na gestão do Estado, os dois pilares essenciais no início da sua presidência, em 2014. O “paraquedismo” de supostos especialistas estrangeiros para o governo (os georgianos Mikheil Saakashvili e Alexander Kvitshvili, o lituano Alvaras Abramovicius e a cidadã norte-americana Natália Jaresko) terminou em desonrosas demissões à mistura com escândalos e acusações mútuas. Quando deixaram os cargos, o ex-ministro da Economia e do Comércio, Abramovicius, e o ex-governador de Odessa, Saakashvili, acusaram Porochenko de práticas de corrupção ainda mais graves do que as atribuídas ao ex-presidente Viktor Yanukovich, É interessante notar que tanto Saakashvili como o primeiro procurador-geral de Porochenko, Vitaly Yarema, associaram os protestos de 2013 e 2014 na Praça Maidan, nos quais foram mortos 38 polícias por “manifestantes pacíficos” apoiados pelos Estados Unidos, ao “corrupto” Yanukovich. Ambos reconhecem agora, porém, “que os esquemas de corrupção se tornaram ainda mais intrincados e prejudiciais” para a sociedade do que no tempo de Yanukovich. Sem qualquer surpresa, Yarema foi demitido poucos dias depois de ter proferido tais declarações.
“O domínio dos oligarcas sobre a economia e a extorsão de subornos aos cidadãos por funcionários do Estado não diminuíram desde o governo de Yanukovich”, escreve Viktor Datsyuk, um politólogo e muito lido blogueiro de Kiev. “Pior ainda”, sublinha, “a ganância da elite dominante destruiu o ‘consenso oligárquico’ que há muito tempo existia na Ucrânia”. Datsyuk considera que esta situação é susceptível de levar a “uma guerra de todos contra todos” na Ucrânia.

Novo consenso: submissão ao Ocidente

Se observarmos o cenário de maneira mais atenta verificaremos que ainda existe, contudo, um certo “consenso oligárquico”, baseado agora na rendição total da oligarquia local aos “tutores” da Ucrânia que operam a partir de Washington e Bruxelas.
No auge da campanha presidencial, registou-se uma explosão de descontentamento no país quando Porochenko se recusou a obedecer a uma decisão do Supremo Tribunal Administrativo de Kiev. O tribunal deliberou remover do governo o último dos “especialistas estrangeiros”, Ulyana Suprun, portadora de passaporte norte-americano. Existem poucas ou nenhumas dúvidas sobre a correcção legal da decisão do tribunal: a norte-americana com ascendência ucraniana exerce funções de ministra da Saúde sem ser oficialmente nomeada e violando a lei que proíbe cidadãos estrangeiros de ocuparem cargos governamentais.
“Atribuí-lhe a cidadania através de um decreto presidencial”, alegou Porochenko tentando branquear o facto de Suprun não ter renunciado à cidadania norte-americana, como é exigido pelas leis da Ucrânia.
A última vez em que a elite ocidental se agitara para proteger um “especialista estrangeiro” no interior da elite ucraniana fora em 2017, quando Porochenko revogou subitamente o seu próprio decreto que atribuía a cidadania ucraniana a Mikheil Saakashvili, antigo presidente da Geórgia. Na ocasião, Saakashvili estava na Europa Ocidental mas fez o caminho de regresso através de um posto fronteiriço no qual foi aclamado por uma multidão de apoiantes, em Setembro de 2017. No lado ucraniano da fronteira estavam a recebê-lo, “por mero acaso”, os chefes de organizações influentes na Rada: Yulia Tymochenko, do Partido da Mãe Pátria, e Andrei Sadovoy, do Samooborona ou Movimento de Autodefesa. No mesmo posto fronteiriço foi também reconhecido, na mesma ocasião, o temível Valentin Nalivaichenko, ex-chefe dos serviços secretos ucranianos (SBU).
Todos eles abraçaram Saakashvili com rostos onde não se vislumbrava qualquer surpresa por terem descoberto, de forma “milagrosa e espontânea”, alguém conhecido do outro lado da fronteira fortemente vigiada.
Alguns meses mais tarde, quando Saakashvili caiu de alguma forma em desgraça perante os seus supervisores ocidentais – e foi expulso da Ucrânia pelas forças especiais de Porochenko, em voo fretado para a Europa – os seus “amigos” Tymochenko e Nalivaichenko não levantaram um dedo em sua defesa.
O inevitável candidato
Obviamente que depois de os Estados Unidos e a União Europeia terem permitido a Porochenko ejectar Saakashvili da Ucrânia, sem punição, ficou claro que não tinham qualquer outra alternativa séria ao presidente em exercício. Muito provavelmente vão permitir que Porochenko vença as eleições, também por causa da imagem muito negativa que Tymochenko tem entre os eleitores – 70% dos ucranianos não querem vê-la como presidente, seja em que circunstância for.
Quanto às pessoas que apresentam alternativas realistas para o desastroso caminho actual, são logo estigmatizadas como “agentes russos” ou, pior ainda, “amigas de Putin”.
Eis, portanto, uma situação em que nenhuma notícia não é uma boa notícia. A continuação do domínio de Porochenko sobre a Ucrânia significa a ameaça permanente de mais guerra contra o Donbass, a perseguição de opositores políticos, a expropriação e a perda de estatuto legal da Igreja Ortodoxa Ucraniana dependente do Patriarcado de Moscovo, como tem sido ao longo dos séculos.
Por estes motivos, Porochenko não tem que se escandalizar porque, como ele próprio disse aos jornalistas, Vladimir Putin se recusou a atender um telefonema seu. “Eu não quis auxiliar Porochenko na sua campanha eleitoral”, explicou Putin. E tinha boas razões para o dizer.




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