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O LONGO DEDO DA CIA NAS ARMAS “HUMANITÁRIAS”

O avião da 21 Air que fez contrabando de um lote de armas para a Venezuela

2019-02-15

Whitney Webb, MintPress/O Lado Oculto

Dois directores executivos da empresa que fretou o avião norte-americano detectado a fazer contrabando de armas para a Venezuela foram associados a uma empresa de carga aérea que colaborou com a CIA no transporte de supostos terroristas para instalações clandestinas onde se faziam interrogatórios. A preocupante revelação coincide com a rejeição pelo presidente venezuelano, Nicolás Maduro, de um comboio de “ajuda humanitária” dos Estados Unidos, por recear que pudesse conter armamento destinado à oposição venezuelana que recebe apoio norte-americano.

Na terça-feira, 12 de Fevereiro, as autoridades venezuelanas anunciaram que um lote de 19 espingardas, 118 revistas de munições, 90 rádios e seis iPhones foi contrabandeado para o país por um avião norte-americano que partiu de Miami. Caracas responsabilizou o governo dos Estados Unidos pela carga ilícita e acusou-o de tentar armar grupos de oposição financiados por Washington para derrubar o actual governo chefiado por Nicolás Maduro.
Uma investigação posterior sobre o avião que transportou as armas, efectuada pela empresa McClatchyDC, mereceu pouca atenção dos media, apesar de terem sido descobertas informações demonstrando claramente que o aparelho em causa realizou um número invulgarmente elevado de viagens para a Venezuela e a Colômbia durante as últimas semanas.
Steffan Watkins, um analista de Otava, Canadá, revelou durante uma entrevista telefónica à McClatchy que o avião é operado pela companhia aérea 21 Air, voando normalmente entre Filadélfia e Miami, e sempre em rotas continentais nos Estados Unidos, isto durante o ano de 2018. Watkins observou, no entanto, que “em Janeiro deste ano subitamente as coisas mudaram”; o aparelho começou a fazer viagens diárias para a Colômbia e a Venezuela, por vezes várias no mesmo dia.
Steffan Watkins acrescentou que, durante o último mês, este mesmo avião realizou 40 voos de ida e volta do Aeroporto Internacional de Miami para Caracas e Valência – onde as armas foram descobertas – na Venezuela, e também para Medellin, na Colômbia.
Informações de radar disponíveis publicamente revelam que o aparelho, embora tenha deixado de viajar para a Venezuela desde que as armas foram descobertas, continuou a voar para Medellin, na Colômbia, na segunda-feira, dia 11.

Vários laços com a CIA

Além da mudança radical e abrupta nos padrões de voo que aconteceram poucas semanas antes de o vice-presidente dos Estados Unidos, Michael Pence, telefonar ao oposicionista venezuelano Juan Guaidó para se declarar “presidente interino”, a investigação da McClatchy também revelou que dois altos executivos da empresa proprietária do avião já tinham trabalhado com uma empresa ligada às polémicas instalações clandestinas de tortura, ou “locais negros”, da CIA.
O presidente e accionista maioritário da 21 Air, Adolfo Moreno, e o director de qualidade, Michael Steinke, têm, de facto, “laços coincidentes ou directos” com a Gemini Air Cargo, empresa anteriormente identificada pela Amnistia Internacional como uma das envolvidas em fretes aéreos relacionados com o programa de transporte de supostos terroristas montado pela CIA. No quadro desse programa, indivíduos suspeitos de terrorismo foram sequestrados pela agência de espionagem norte-americana e levados para “locais negros” secretos em países terceiros, onde regularmente se praticava tortura, oficialmente designada “interrogatório aprofundado”.
Steinke trabalhou para a Gemini Air Cargo em 1996 e 1997, de acordo com um documento de 2016 do Departamento de Transportes citado pela McClatchy. Moreno, embora não tenha trabalhado para a Air Gemini, inscreveu dois negócios separados num endereço em Miami e que depois foram registados nesta empresa, na altura em que o programa da CIA estava activo. Segundo a McClatchy, o primeiro negócio inscrito por Moreno no endereço de Miami teve registo de 1987; o segundo foi do ano de 2001. A Gemini Cargo Logistics, uma subsidiária da Gemini Air Cargo, também foi registada no mesmo local, em 2005.
A 21 Air negou qualquer responsabilidade pelo lote de armas descoberto a bordo do avião, atribuindo a origem da carga ilícita a uma empresa designada GPS-Air. E César Meneses, um director da GPS-Air, disse à McClatchy que a remessa de armas foi “fabricada” pelo governo de Maduro para se fazer passar por vítima. Meneses acrescentou que “a carga não pertence à 21 Air nem à GPS-Air e foi fornecida por terceiros, cujas identidades se recusou a revelar.

Reedição do escândalo Irão-Contras?

A revelação de que a companhia que opera o avião onde se fez o contrabando de armas para a Venezuela tem ligações com anteriores programas controversos da CIA não é muito surpreendente para quem conhece a história da agência na canalização de armas para grupos de oposição apoiados pelos Estados Unidos na América Latina, Sudeste Asiático e outras áreas de conflito no mundo.
Um dos exemplos mais conhecidos da utilização de aviões pela CIA para contrabandear armas destinadas a um grupo paramilitar apoiado pelos Estados Unidos ocorreu durante a década de oitenta; ficou conhecido como escândalo Irão-Contras, mediante o qual a administração Reagan comprou ilegalmente armas ao Irão (que estava já sob sanções norte-americanas) e encaminhou-as para os rebeldes chamados Contras, que pretendiam derrubar o movimento sandinista, que acabara de liquidar a sangrenta ditadura fascista de Anastácio Somoza. Muitas dessas armas foram escondidas em aviões cujos responsáveis que alegavam estar a fazer transporte de “ajuda humanitária” para a Nicarágua.
O paralelismo entre aspectos do escândalo Irão-Contras e a situação actual na Venezuela é impressionante, particularmente em função da recente “indignação” manifestada pelos media mainstream e por destacados políticos norte-americanos perante a recusa em Maduro de permitir a “ajuda humanitária” dos Estados Unidos ao país.
Maduro explicou a sua atitude parcialmente com base na preocupação de que tal expediente sirva para cobrir o envio de armas e outros suprimentos destinados a criar uma força de oposição armada, tal como em 2011 os chamados “rebeldes” foram armados pela CIA na Síria.
Embora os media tenham qualificado a argumentação de Maduro como infundada, não deve ser esse o caso, à luz da recente nomeação por Donald Trump de Elliott Abrams como enviado a Caracas encarregado da política de administração da Venezuela. Abrams foi um elemento fundamental na entrega de armas aos Contras da Nicarágua, incluindo o disfarce desses engenhos em remessas de “ajuda humanitária”. Em depoimentos posteriores, proferidos quando o escândalo foi denunciado, ainda na década de oitenta, o próprio Elliott Abrams admitiu que as armas para os Contras eram transportadas exactamente dessa maneira.
Com o recente envio ilegal de armas ilícitas dos Estados Unidos para a Venezuela, agora associado a empresas que trabalharam anteriormente para a CIA na concretização de operações secretas, tornou-se ainda mais justificada a atitude de Maduro na controvérsia sobre a “ajuda humanitária”. No entanto, o “presidente interino” designado pelos Estados Unidos, Juan Guaidó, anunciou na segunda-feira, dia 11, que o seu “governo” paralelo recebeu a primeira remessa de “ajuda humanitária” externa, mas não divulgou a origem, o conteúdo específico nem a forma como entrou no país.


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