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EUROPA SERÁ REFÉM DE UMA GUERRA NUCLEAR

A miniaturização da bomba nuclear como a B61-12 torna o seu uso mais tentador. E este engenho norte-americano será distribuído por vários países europeus

2019-01-10

Manlio Dinucci*, Il Manifesto/O Lado Oculto

A Federação Russa tornou-se a primeira potência militar convencional em 2015 e, em 2018, passou a ser a primeira potência nuclear, na sequência dos êxitos dos ensaios com mísseis hipersónicos. O presidente Vladimir Putin advertiu as potências ocidentais quanto ao significado desta inversão da hierarquia do mundo, mas a NATO parece não querer entender os novos perigos com os quais tem de se confrontar.

Que resposta obteve o presidente russo quando alertou para o facto de o mundo subestimar os riscos de uma guerra nuclear, tendência esta que está em vias de se acentuar?
Significativo é o comentário do diário italiano La Repubblica, que fala de um “tom muito alarmista”. É também eloquente o silêncio praticamente absoluto de todo o arco parlamentar italiano. Como se a Itália não tivesse nada a ver com a corrida aos armamentos nucleares que, conforme Putin advertiu na conferência de imprensa de final do ano, poderá conduzir “à destruição de toda a civilização, talvez de todo o planeta”. Cenário que não é alarmista, pois está previsto pelos cientistas que estudam os efeitos das armas nucleares.
Um perigo especial, sublinha Putin, é representado pela “tendência para baixar os limites de utilização de armas nucleares, criando cargas nucleares tácticas de impacto reduzido que podem conduzir a um desastre nuclear mundial”. A esta categoria pertencem as bombas nucleares B61-12 que os Estados Unidos começarão a instalar em Itália, na Bélgica, na Holanda e talvez noutros países europeus já na primeira metade do ano de 2020. “A alta precisão e a possibilidade de recorrer a ogivas menos destrutivas” – adverte a Federação dos Cientistas Norte-americanos (FAS) – “podem levar os comandantes militares a fazerem pressão para que, durante um ataque, se utilizem bombas nucleares sabendo que as emissões radioactivas e os danos colaterais poderão ser limitados”.
A Itália, e outros países nas mesmas condições, são corresponsáveis pelo perigo crescente de guerra nuclear, violando o Tratado de Não Proliferação e não aderindo ao Tratado da ONU pela interdição de armas nucleares. Assumindo uma posição predominantemente anti-russa, estes países fornecem aos Estados Unidos não apenas as bases mas também os aviões e os pilotos para a utilização das bombas nucleares. Isso decorre, pelo menos no caso italiano, do consentimento explícito ou implícito (através da renúncia a uma oposição efectiva) de todo o arco parlamentar.

Outro perigo

O outro perigo, previne Putin, é representado pela “desintegração do sistema internacional de controlo dos armamentos”, iniciado pera retirada dos Estados Unidos do Tratado ABM, o que aconteceu em 2002. Concretizado em 1972 pelos Estados Unidos e a União Soviética, o tratado proíbe a qualquer das partes a instalação de mísseis interceptores que, neutralizando as represálias de um país atacado, permite a vantagem do primeiro golpe, isto é, um ataque nuclear de surpresa. Desde então, os Estados Unidos desenvolveram o “escudo anti-mísseis”, estendendo-o na Europa até às fronteiras com a Rússia: duas instalações terrestres na Roménia e na Polónia e quatro navios de guerra navegando no Báltico e no Mar Negro equipados com rampas de lançamento que, além dos mísseis interceptores, podem lançar mísseis de cruzeiro com ogivas nucleares.
A Itália é igualmente corresponsável por esta situação: em Sigonella (Sicília) está instalada a JTAGS, a estação de comunicações por satélite do “escudo anti-mísseis”, uma das cinco mundiais. A situação agravou-se ainda com o facto de os Estados Unidos pretenderem agora retirar-se do Tratado IMF (mísseis de médio alcance) de 1987 e que eliminou os mísseis nucleares norte-americanos então instalados na base italiana de Comiso. Esta retirada corresponde à vontade norte-americana de voltar a instalar mísseis de médio alcance contra a Rússia em bases terrestres. O facto acontece também com a corresponsabilidade do governo italiano, que na reunião do Conselho do Atlântico Norte, realizada em 4 de Dezembro de 2018, deu o seu aval a este plano e está seguramente disponível para receber esse tipo de mísseis em Itália. “Se esses mísseis chegarem à Europa, o Ocidente não se admire com o facto de nós reagirmos”, disse Putin. Advertência ignorada pelo presidente do Conselho de Ministros de Itália, Giuseppe Conte, e pelos dois vice-presidentes, Luigi Di Maio e Matteo Salvini: multiplicam os apelos em defesa do “decreto de segurança” anti-imigrantes e, quando chegam bombas nucleares dos Estados Unidos, ponto em perigo a verdadeira segurança de Itália, nada vêem, nada ouvem, nada dizem.

*Geógrafo; geopolitólogo



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