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TRUMP E A CHINA: GUERRA FRIA OU GUERRA QUENTE?

Sem palavras

2018-12-27

Marc Vandepitte*, Global Research/O Lado Oculto

À primeira vista, o confronto em curso entre os Estados Unidos e a China gira em torno da concorrência desleal e da apropriação indevida de propriedade intelectual. Observando ao pormenor, verificamos que se trata de algo muito mais fundamental, a saber, as frenéticas tentativas de Washington para preservar a hegemonia sobre o planeta. Estamos a caminho de um confronto entre dois titãs?

Poder absoluto e duradouro
Os Estados Unidos saíram da Segunda Guerra Mundial como vencedores. Todas as anteriores potências, antigas e emergentes, estavam completamente esgotadas. Em Washington sonha-se com uma nova ordem mundial com os Estados Unidos no comando. Infelizmente para estes sonhadores, a rápida recuperação da União Soviética e a quebra do monopólio nuclear frustram esses planos.
Meio século depois o sonho tornou-se realidade com a queda do Muro de Berlim e a implosão da União Soviética. A partir de então não haveria mais obstáculos a um governo dominante. Por fim, os Estados Unidos dirigiam a política mundial e queriam manter essa posição.
Assim se pensava no Pentágono em 1992:
“O nosso principal objectivo é evitar o aparecimento de um novo rival. Devemos manter mecanismos dissuasores em relação a potenciais concorrentes que aspirem a ter um maior papel regional ou global.”
A China, naquela altura, não era (ainda) uma ameaça. A sua economia estava subdesenvolvida, com um PIB apenas um terço do norte-americano. Tratava-se de um país insignificante do ponto de vista militar. Nessa época a China era encarada como um lugar interessante para gerar lucros: com um contingente de mão-de-obra barata e disciplinada e, a longo prazo, um quinto da população mundial, prometia transformar-se num mercado atraente para os produtos ocidentais. Por outro lado, Pequim orientava-se para o investimento estrangeiro e o mercado global com o objectivo de se desenvolver rapidamente.

A grande ilusão

Na sede do capitalismo alimentou-se a ilusão de que, através da abertura económica, o sistema iria infiltrar-se irreversivelmente e acabaria por substituir o regime comunista. Dois coelhos mortos com uma cajadada: perspectivas favoráveis para as multinacionais, por um lado, e a eliminação de um rival ideológico, pelo outro. Por essa razão, a China foi admitida na Organização Mundial de Comércio em 2001.
De qualquer maneira, a adesão à OMC representou um impulso para a economia chinesa. Em 1995, o país estava na 11ª posição na lista dos maiores exportadores de mercadorias; 20 anos depois chegou à cabeça da lista. Desde que ingressou na OMC, o crescimento chinês foi multiplicado por quatro, uma situação que também beneficiou os Estados Unidos pois as multinacionais norte-americanas continuam a fazer excelentes negócios na China. No ano de 2017 as suas vendas chegaram quase a 500 mil milhões de euros, o que representa cem mil milhões a mais que o défice comercial entre os Estados Unidos e a China. O poder de compra da população norte-americana aumentou devido à importação de produtos chineses baratos.
Existem igualmente importantes vantagens monetárias. Para poder manter a cotação do yuan ligada à do dólar, a China compra grandes quantidades de dólares, o que significa que os Estados Unidos obtêm crédito barato e podem, portanto, manter baixas taxas de juros.

Para lá da ilusão

Mas – e é um grande “mas” – quanto a uma infiltração do capitalismo na China e a um enfraquecimento do Partido Comunista nada corre como foi previsto em Washington. Segundo o economista Brad W. Setser, “o Partido Comunista da China não foi domesticado pelo comércio; o Estado mantém o controlo das principais alavancas da economia chinesa, tanto directa como indirectamente, através da sua influência em empresas ‘privadas’, que só podem continuar a ser bem-sucedidas e privadas com o apoio do Partido”.
A frustração daí resultante é evidente nos altos círculos dirigentes norte-americanos, como se nota neste excerto de um discurso do vice-presidente Pence:
“A seguir à queda da União Soviética assumimos que uma China livre era inevitável. Plenos de optimismo na virgem do século, os Estados Unidos estiveram de acordo em permitir o acesso livre de Pequim à nossa economia e trouxemos a China para a Organização Mundial de Comércio. Mas a esperança não se cumpriu…”
Gigantes capitalistas, sejam eles empresas financeiras, industriais ou digitais como Google, Amazon ou Facebook fazem o que querem em qualquer lugar, mas não na China. É um dos poucos países onde esses gigantes têm pouco ou nenhum controlo. Além disso, o “Império do Meio” deixou de ser um mero lugar de passagem, onde os bens de consumo são montados, fornecendo serviços sem que o país tire daí grandes vantagens.
Já é suficientemente mau, na perspectiva de Washington, que a China tenha deixado de ser o pátio de recreio das grandes multinacionais. Muito pior é o facto de a posição económica dos Estados Unidos ter vindo a enfraquecer, enquanto a da China melhorou significativamente. Em 1980, o PIB norte-americano representava um terço do PIB mundial e o da China era pouco mais de um vigésimo. Hoje representam ambos um quarto.
E não é apenas uma evolução quantitativa: a economia chinesa deu também um salto qualitativo, designadamente através de grandes progressos no campo tecnológico. Até muito recentemente, a China era vista como um imitador de tecnologia; hoje é um inovador. Actualmente, 40% de todas as patentes mundiais são chinesas, um valor superior à soma de países como os Estados Unidos, o Japão e a Coreia do Sul. Em 2015 foi lançado por Pequim o programa “Made in China 2025” para reforçar a inovação industrial e adquirir autonomia em dez sectores-chave.
Por esse caminho, os produtos e serviços chineses tornam-se cada vez mais competitivos e, a longo prazo, ameaçarão a supremacia das multinacionais ocidentais. Este, obviamente, é um resultado indesejável e intolerável nos Estados Unidos. Eis o que pensa Peter Navarro, assessor económico principal do presidente Donald Trump:
“No seu manifesto de lançamento do programa ‘Made in China 2025’, o governo chinês definiu explicitamente como alvos as indústrias que vão desde a inteligência artificial, robótica e computação quântica até aos veículos autónomos. Se a China se tornar dominante nessas indústrias, os Estados Unidos não terão, pura e simplesmente, futuro económico.”

São os militares, estúpido!

Porém, ainda segundo Navarro, não se trata apenas de economia, prosperidade ou lucros. “Não é apenas a prosperidade norte-americana que está em risco”, diz. “O cerne do caminho de desenvolvimento da China”, acrescenta, “é uma chave que ameaça a continuação do domínio militar norte-americano”.
As declarações de Navarro dizem muito. Hoje em dia, a administração Trump lança muita agitação em torno do défice comercial, mas esta não é a preocupação real. O importante é manter o domínio em três grandes áreas: tecnologia, indústrias do futuro e armamento. Segundo a OCDE, este domínio é ameaçado, em primeiro lugar, pela China.
Navarro não falou em seu próprio nome, expressando antes a política do governo dos Estados Unidos. Política esta que foi amplamente explicada num revelador relatório do Pentágono divulgado em Setembro de 2018. Segundo este documento, as áreas de tecnologia, economia e armamento estão intimamente interligadas. A liderança tecnológica é essencial para triunfar na competição económica e manter a superioridade militar. O relatório adverte:
“Os investimentos chineses em investigação e desenvolvimento (I&D) convergem rapidamente em direcção aos dos Estados Unidos e provavelmente atingirão a paridade num qualquer momento de um próximo futuro. Uma das principais iniciativas industriais do Partido Comunista da China, o programa ‘Made in China 2025’ , tem como alvos as áreas de inteligência artificial, computação quântica, robótica, veículos movidos por novas fontes de energia e autónomos, dispositivos médicos de alta performance, componentes para navios de elevada tecnologia e outras indústrias emergentes.”
A Iniciativa Belt & Road (Estrada e Cintura, BRI na sigla anglo-saxónica) é igualmente abordada pelo relatório do Pentágono, também numa perspectiva de inquietação. A BRI é uma rede de rotas marítimas e terrestres através de 64 países, com investimentos, empréstimos, acordos comerciais e dezenas de Zonas Económicas Especiais, no valor de 900 mil milhões de dólares:
“Como parte da iniciativa One Belt, One Road da China para projectar os poderes moderados e duros do país, Pequim procurou adquirir infraestruturas críticas para os Estados Unidos, incluindo caminhos-de-ferro, portos e telecomunicações. As estratégias económicas da China, combinadas com os impactos adversos de políticas industriais de outras nações representam ameaças significativas para a base industrial dos Estados Unidos e, portanto, significam um risco crescente para a segurança nacional dos Estados Unidos.”
Contudo, a interligação entre tecnologia, economia armamento vai ainda além disso. Para manter a supremacia militar, os Estados Unidos necessitam de uma base industrial sólida. Do ponto de vista da segurança nacional norte-americana a globalização foi longe demais. O nível de deslocalização de sectores da economia dos Estados Unidos corroeu as bases da indústria de guerra, minando a segurança.
Segundo o relatório do Pentágono:
“A perda de mais de 60 mil fábricas norte-americanas, de empresas-chave e de quase cinco milhões de empregos industriais desde 2000 ameaça minar a disponibilidade e capacidade dos fabricantes norte-americanos para atender às necessidades da defesa nacional e levanta preocupações sobre as bases da indústria militar e de defesa… Hoje confiamos em fontes domésticas únicas para alguns produtos e em redes estrangeiras de fornecimento para outros e enfrentamos a possibilidade de não podermos produzir em casa componentes especializadas para os militares”.
A política proteccionista do governo de Trump não é motivada principalmente pelo défice comercial. O relatório do Pentágono apenas aborda esse facto de passagem. O défice comercial é um efeito colateral de um problema mais profundo. O que importa, salienta o documento, “é um sector produtivo nacional enérgico” e “sólidas redes de abastecimento”. Isso é “uma prioridade nacional”.
Do que se trata é de “capacidades de defesa” ou, por outras palavras, da preparação para a guerra. O que o Pentágono tem em mente não são conflitos isolados e de pequena escala, mas sim um esforço de guerra em massa e duradouro contra os “poderes revisionistas”, mais precisamente a China e a Rússia. O relatório recomenda uma “reestruturação” da economia dos Estados Unidos e que se prepare um “cenário de grande conflito de poderes”:
“Temos estado ocupados em conflitos de baixa tecnologia contra pessoas que disparam ‘rockets’ entrincheirados entre camiões enquanto a China desenvolveu conhecimentos e se aproximou de nós. Agora esse deve ser o nosso foco”.
No século XX, os principais esforços dos Estados Unidos dirigiram-se contra a União Soviética; os do século XXI concentram-se no “perigo chinês”. No contexto das discussões do orçamento para 2019, o Congresso declarou que “a competição estratégica de longa duração com a China é uma prioridade principal dos Estados Unidos”. Não se trata apenas de aspectos económicos, mas de uma estratégia global a desenvolver em várias frentes. A abordagem exige a “integração de diferentes áreas do poder nacional, incluindo elementos diplomáticos, económicos, de inteligência, policiais, militares para proteger a fortalecer a segurança nacional”.
Vamos restringir-nos aos aspectos económicos e militares.

Uma cortina de ferro económica
Trump está à procura de uma redefinição completa das relações entre os Estados e a China.
Como diz, no seu bem conhecido estilo:
“Quando cheguei, íamos numa direcção que permitiria à China ser maior do que nós em muito pouco tempo. Isso vai deixar de acontecer. De modo a evitar a ascensão da China é necessário, portanto, separá-la economicamente dos Estados Unidos tanto quando seja necessário. Tanto os investimentos chineses nos Estados Unidos como os dos Estados Unidos na China devem ser limitados ou proibidos, a começar pelos sectores estratégicos.”
O comércio mútuo também deve ser restringido. Os Estados Unidos já impõem tarifas a metade das importações da China e Trump ameaçou tarifar todas as importações, se necessário. Também as exportações para a China são um alvo. Na sua economia, Pequim depende fortemente de componentes estratégicos como chips. Em Maio de 2018, a exportação de chips para o ZTE, um grande grupo chinês de telecomunicações que emprega cerca de 75 mil pessoas, foi temporariamente suspensa. Kathleen Gaffney, uma gestora destacada, prevê que seja apenas um começo:
“Somos líderes em tecnologia e inovação nas indústrias de chips. A longo prazo, a China pretende ocupar essa posição. Por isso, é muito importante que, apesar dos inconvenientes, façamos controlo de exportação. Será uma medida que prejudicará a China, mas não atingirá a economia como um todo. É o tipo de acções que temos de avaliar”.
Observadores mais objectivos estão convencidos de que as tarifas comerciais impostas terão um efeito adverso sobre a economia dos Estados Unidos e não resolverão o défice comercial com a China. Mas essa não é a preocupação real de Trump e seus seguidores. O seu foco é “tentar atrapalhar a ascensão tecnológica da China em vez de procurar acordos que convenham à economia dos Estados Unidos”, nas palavras de um investidor.
Trump está também a tentar que outros países entrem na guerra comercial contra a China. Nas recentes negociações com o Canadá e o México para um novo acordo de comércio livre, o presidente norte-americano incluiu uma cláusula declarando que esses dois países não poderão concluir acordos com “economias sem mercado”, por outras palavras, com a China. A intenção é estender essa cláusula em acordos futuros com países e instituições como o Japão, a União Europeia e o Reino Unido. Se os Estados Unidos forem bem-sucedidos, será um duro golpe para a China e o início da construção de uma espécie de “cortina de ferro económica”.
A atitude anti-China não é exclusiva de Trump e dos falcões do seu governo. Grande parte do establishment partilha a ideia de que os Estados Unidos e a China estão envolvidos numa rivalidade estratégica a longo prazo e que a ascensão do gigante asiático representa uma ameaça à posição dominante norte-americana. Existe um consenso crescente segundo o qual as políticas comercial e de segurança nacional não podem ser separadas e que a Casa Branca deve dar uma resposta forte ao rival estratégico. A ânsia por confrontos está a aumentar.
Podem encontrar-se sentimentos anti-chineses entre os republicanos, os ideólogos do mercado livre, os falcões da segurança nacional e no interior do Pentágono; mas também entre os democratas, mesmo os da própria ala esquerda, e parte da estrutura sindical. Isto significa que a hostilidade nos Estados Unidos em relação à China provavelmente será duradoura e, em qualquer caso, não desaparecerá com a saída do actual presidente.

Dispare primeiro

A superioridade militar dos Estados Unidos sobre a China é esmagadora. Têm 800 bases distribuídas por 70 países e mais de 150 mil soldados em 177 países. As despesas militares aproximam-se dos 800 mil milhões de dólares anuais, isto é, mais de um terço do total mundial. Triplicam as da China e, na comparação por habitante é superior a 12 vezes mais.
Durante 70 anos, as forças militares dos Estados Unidos dominaram os mares e o espaço aéreo de quase todo o planeta, incluindo o leste da Ásia. Tinham quase total liberdade de movimentos e a capacidade de negar essa liberdade aos inimigos. Trump quer manter a situação:
“A América nunca aceitará ser o número dois. Tornarei as nossas forças armadas tão fortes que jamais iremos temer outro poder”.
De acordo com a Estratégia de Segurança Nacional definida em 2017, a China está a criar “os militares mais capazes e mais bem financiados a seguir aos nossos”. E o “outro poder” de que Trump fala é a China. Segundo o Pentágono, tudo deve ser feito para preservar a supremacia no leste da Ásia. Isso significa controlar a China.
Lê-se no documento da Estratégia de Segurança:
“Enquanto a China prosseguir a sua ascensão económica e militar, afirmando o seu poder numa estratégia a longo prazo, continuará a desenvolver um programa de modernização militar para estabelecer, a curto prazo, a hegemonia na região Índico-Pacífico, em direcção aos Estados Unidos, para alcançar a supremacia global no futuro”.
No seu discurso em tom de guerra fria, em Outubro passado, o vice-presidente Michael Pence não deixou margem para dúvidas:
“A nossa mensagem aos dirigentes chineses é esta: o presidente não recuará. À medida que formos reconstruindo as nossas forças armadas continuaremos a afirmar os interesses americanos em toda a região Índico-Pacífico."
A estratégia militar em relação à China tem duas frentes: a corrida aos armamentos e o cerco ao país.
A estratégia armamentista está em pleno desenvolvimento. Os Estados Unidos gastam 150 mil milhões de dólares anuais em investigação militar, cinco vezes mais do que a China. Trabalham febrilmente numa nova geração de armas altamente sofisticadas – drones e todos os tipos de robots, na suposição de que um futuro inimigo não conseguirá enfrentá-los. Os caças F-35 possuem a mais desenvolvida tecnologia do momento e têm uma vantagem de 15 a 20 anos sobre os aparelhos chineses da geração equivalente. No desenvolvimento dessas armas com incorporação de elevado índice tecnológico, a inteligência artificial, a mecânica quântica, a tecnologia laser, as velocidades supersónicas, as ignições nucleares e a guerra electrónica desempenham um papel cada vez mais importante. São as ciências da guerra do futuro.
Os chineses devem ser mantidos à distância durante o desenvolvimento dessa corrida aos armamentos. De acordo com a Estratégia de Segurança Nacional, de Dezembro de 2017, “parte da modernização militar e da expansão económica da China deve-se ao acesso à economia de inovação dos Estados Unidos, incluindo as universidades norte-americanas de expressão mundial”.
O crescente proteccionismo da Casa Branca não se manifesta apenas no comércio, no investimento ou na tecnologia, mas cada vez mais no conhecimento.
Atenção especial é dedicada às armas espaciais.
“Se a dissuasão fracassar, estou convencido de que, na perspectiva de um próximo enfrentamento, teremos de lutar pela superioridade espacial”, afirma o general John Raymond, comandante-em-chefe do Comando Espacial da Força Aérea.
No ano passado, Trump decidiu criar um novo ramo de pleno direito dentro das forças armadas: a Força Espacial dos Estados Unidos.
Uma guerra preventiva não está excluída. Robert Work, ex-subsecretário da Defesa, sublinha que a China está a desenvolver mísseis que se aproximam dos produzidos pelos Estados Unidos.
Os Estados Unidos nunca tiveram de lutar contra um adversário que tenha sido capaz de combater de uma maneira tão profunda e massiva como os Estados Unidos. A utilização de munições teleguiadas em qualquer guerra do futuro será tão difundida e penetrante que fará todo o sentido ser o primeiro a disparar.
A segunda frente é a do cerco militar. No seu comércio externo, a China depende em 90% do transporte marítimo. Mais de 80% do abastecimento de petróleo tem de passar pelo Estreito de Malaca (nas imediações de Singapura), onde os Estados Unidos têm uma bases militar. Kissinger disse uma vez: “quem controlar o petróleo controla as nações”. De qualquer forma, Washington pode cortar facilmente os fluxos de petróleo para a China, que actualmente não tem defesa contra isso – embora procure uma alternativa ao Estreito de Malaca através do sul da Tailândia. Em toda a região envolvente da China, os Estados Unidos têm mais de trinta bases ou centros de treino. Até 2020, cerca de 60% das forças navais dos Estados Unidos ficarão estacionadas na região. Não será exagero dizer que a China está cercada e espremida. Agora imagine-se o que aconteceria se a China instalasse uma base militar perto dos Estados Unidos. Neste contexto, torna-se importante, do ponto de vista chinês, desenvolver as pequenas ilhas do Mar do Sul da China, o que inclui a reivindicação de grande parte desta área. Controlar as rotas marítimas ao longo das quais se processa o transporte de energia e dos bens industriais é vital para Pequim.

A armadilha de Trucídides

A China é uma ameaça à supremacia dos Estados Unidos. O que conduzirá, inevitavelmente, a uma armadilha mortal descrita pela primeira vez por Trucídides. Este antigo historiador grego explica que a ascensão de Atenas criou tantos receios em Esparta que a impeliu a lançar a guerra para tentar travar essa ameaça. O historiador Graham Allison considera que durante os últimos 500 anos houve 16 períodos em que uma potência emergente ameaçou suplantar um poder dominante; em 12 casos, o conflito degenerou em guerra.
Embora a história não seja uma ciência exacta nem anuncie fatalidades, estes factos são indicadores importantes. Em qualquer caso, para os Estados Unidos uma superioridade militar duradoura é a garantia da preservação da supremacia económica. E quando se fala de supremacia económica fala-se de um negócio de milhares de biliões de dólares, de um nível tão poderoso que exerce influências políticas sobre a Casa Branca, independentemente do presidente em exercício. Os muitos biliões de lucros não serão entregues sem uma luta feroz. Como disse Karl Marx, há 160 anos:
O capital não se contenta em buscar pequenos lucros. Se os lucros forem grandes, manifestará alguma audácia; se os lucros forem muito grandes, não terá escrúpulos em cometer qualquer crime, não haverá riscos que não corra”.
Alguns argumentarão que o poder de extermínio das armas actuais se tornou tão elevado que é grande demais para arriscar um conflito em grande escala. Porém, esse erro de cálculo já foi cometido há 100 anos, segundo Katrina Mason:
“Há pouco mais de 100 anos, os analistas previram que as armas de guerra se tornaram tão avançadas tecnologicamente e tão letais que alguém jamais recorreria a usá-las. Muitos encararam a implacável corrida aos armamentos como parte de um esforço económico para estimular a base industrial doméstica e descartaram que tais impulsos conduzissem a conflitos. A Primeira Guerra Mundial demonstrou que estavam errados em ambos os aspectos”.
Como poderão os gigantescos interesses económicos submeter-se ao controlo democrático de modo a que prevaleça o senso comum e não a lei do lucro? Esta é uma pergunta fundamental para o futuro.

*Filósofo e economista belga, autor de numerosos livros sobre relações Norte-Sul, América Latina, Cuba e China



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