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WASHINGTON REFORÇA GUERRA CONTRA A EUROPA

Nord Stream 2, um casus belli: os Estados Unidos parecem dispostos a ir até à guerra para evitar que os europeus tenham energia mais barata só porque a origem é russa

2018-12-27

No dia 11 de Dezembro, a Câmara dos Representantes dos Estados Unidos aprovou uma resolução que autoriza Trump a impor sanções às empresas europeias que colaborem com a construção do gasoduto Nord Stream 2. É uma guerra económica contra a Europa assumida por todo o sistema político norte-americano, porque a resolução foi aprovada por unanimidade.

Eric Zuesse, Strategic Culture/O Lado Oculto

Nas últimas décadas tem vindo a ser sistematicamente ignorada a cláusula da Constituição dos Estados Unidos que exige uma aprovação do Congresso antes de der desencadeada uma acção militar contra qualquer país. Além disso, desde que em 2012 foi aprovada pelo Congresso a Lei Magnitsky contra a Rússia, as sanções económicas impostas pelo governo norte-americano são extensivas a qualquer empresa, de tal maneira que o seu não-cumprimento pode implicar uma multa superior a mil milhões de dólares. Deste modo, as sanções são agora o novo caminho através do qual o Congresso dos Estados Unidos autoriza uma guerra – um novo caminho, mas que não respeita o que está estipulado na Constituição do país.
No entanto, na fase de sanções económicas – o primeiro passo de um conflito – a guerra é igualmente imposta directamente contra qualquer empresa que viole uma sanção económica determinada pelos Estados Unidos contra a Rússia, o Irão ou qualquer outro país que seja alvejado pelo Congresso. Este órgão consegue assim, através das sanções económicas, criar uma situação na qual o “estado de guerra” passa a existir.
Para o Congresso dos Estados Unidos, a autorização de sanções económicas contra um país funciona efectivamente como uma autorização dada ao presidente para ordenar aos militares que intervenham contra esse país, se e quando decidir fazê-lo. Mais nenhuma autorização do Congresso será necessária (a não ser segundo a letra da Constituição). Esta fase inicial de uma guerra penaliza sobretudo as empresas nas suas relações com as congéneres de outras nações – que não o país atingido. Embora o governo dos Estados Unidos puna a corporação infractora, a meta real é o país sancionado. As sanções estão a ser utilizadas para estrangular esse alvo. As empresas multadas são apenas “danos colaterais” nesta fase da nova guerra dos Estados Unidos da América.

A guerra contra a Rússia

Como primeiro passo num conflito, o governo dos Estados Unidos coage as empresas a associarem-se à guerra económica norte-americana contra o país-alvo, que no caso presente é a Rússia.
Em 11 de Dezembro, a Câmara dos Representantes votou por unanimidade, através de voto não-nominal – para que ninguém possa vir a ser responsabilizado no futuro – uma autorização para que o presidente Donald Trump imponha penalidades, que podem atingir milhares de milhões de dólares, contra qualquer corporação com sede na União Europeia que participe com a Rússia na concretização do gasoduto Nord Stream 2, para abastecer a Europa com gás natural russo. A resolução aprovada – H. Res. 1035 - intitula-se “Expressar oposição à conclusão do Nord Stream 2 e outros propósitos” e termina com a afirmação segundo a qual a Câmara dos Representantes dos Estados Unidos “apoia a imposição de sanções em relação ao Nord Stream 2 no âmbito da secção 232 da ‘Lei contra os Adversários da América através de Sanções’”. Sem oposição de qualquer membro, a Câmara dos Representantes obriga as empresas a cessar os negócios com a Rússia sob pena de imposição de multas. O sistema dirigente dos Estados Unidos impõe assim a sua vontade, como se fosse um ditador no espaço mundial, sem necessitar sequer de impor a coacção militar, mas apenas a económica.
No Senado norte-americano não existe ainda qualquer projecto de lei semelhante, mas a aprovação unânime na Câmara dos Representantes constitui uma forte advertência às corporações europeias, porque ou cumprem as sanções estabelecidas pelos Estados Unidos ou sofrerão grandes penalizações financeiras. Não existem, aliás, muitas matérias sobre as quais a Câmara dos Representantes dos Estados Unidos manifeste uma unanimidade de 100%. Pelo que pode dizer-se que esta fase introdutória da guerra norte-americana contra a Rússia é de inteira responsabilidade bipartidária.

Europa resiste

Como reacção à decisão, o CEO da empresa austríaca OMV, Rayner Zele, declarou que a empresa vai continuar a financiar a obra do gasoduto, na qual já investiu 607 milhões de dólares. O ministro alemão dos Negócios Estrangeiros, Heiko Maas, afirmou, por seu turno, que o abandono do projecto por parte de Berlim não faria sentido. A Alemanha já anteriormente tinha rejeitado as críticas de Trump segundo as quais Berlim estava “prisioneiro de Moscovo” por causa da suposta dependência alemã em relação ao gás natural de Moscovo.
Se o governo dos Estados Unidos não conseguir estrangular as economias de países como a Rússia e o Irão através de sanções, então o próximo passo poderá ser alguma acção de tipo militar. Antes de os Estados Unidos invadirem o Iraque, em 2003, as sanções económicas norte-americanas mataram um número indeterminado de crianças entre 100 mil e 500 mil; com a invasão, porém, a tragédia foi ainda bastante mais ampla.
As sanções económicas funcionam como uma tentativa de forçar a rendição de um país-alvo sem necessidade de passar à fase de agressão militar. Qualquer país que esteja sob sanções, portanto na mira dos Estados Unidos, corre o risco de, mais tarde ou mais cedo, sofrer uma punição militar, a menos que Washington seja forçado a recuar.
De acordo com o estudo mais extenso alguma vez feito dobre o assunto, no mundo existem mais de mil bases militares norte-americanas, número que excede várias vezes o total das bases não norte-americanas. Esse estudo foi efectuado em 1995.
Ora muitas novas bases foram construídas pelos Estados Unidos desde esse ano, por exemplo algumas dezenas num país como a Síria, cujo governo nunca convidou os militares norte-americanos a entrar; pelo contrário, exige permanentemente que saiam. Nos dias de hoje, os Estados Unidos são responsáveis por mais de metade das despesas militares feitas em todo o mundo.
Quanto ao gasoduto Nord Stream 2, se não vier a ser concluído os principais beneficiados serão os produtores norte-americanos de gás natural liquefeito e também alguns dos aliados preferenciais dos Estados Unidos, como a Arábia Saudita e Israel. Uma terceira guerra mundial poderá resultar mesmo do facto de o governo dos Estados Unidos privilegiar os produtores de combustíveis fósseis norte-americanos (e aliados) acima de todas as outras preocupações relacionadas não apenas com o aquecimento global mas também com a paz mundial. Trata-se de interesses que estão, realmente, em guerra contra o mundo inteiro. E não se trata de uma mera opinião: é uma realidade esmagadoramente documentada e bem demonstrada.

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