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O TERROR AMADURECE NA AMÉRICA LATINA

Iván Duque, presidente da Colômbia e membro da coligação anti-Venezuela, com o respectivo comandante operacional, o almirante comandante do SouthCom, Kurt Tidd

2018-12-27

José Goulão

O ano de 2019 inicia-se na América Latina sob a ameaça de conflitos de grandes proporções tendo como objectivo concretizar a consigna norte-americana de erradicar a “troika da tirania”, expressão em que secretário de Estado, John Bolton, agregou Cuba, Nicarágua e Venezuela. Um grupo de mercenários está em fase de treino na base de Tona, na Colômbia, para desencadear um falso ataque da Venezuela contra território colombiano que funcionará como detonador de uma guerra contra Caracas. O grupo provocatório é enquadrado por forças especiais dos Estados Unidos estacionadas nas bases de Tolemaida (Colômbia) e Eglin (Flórida).

A posse de Jair Bolsonaro como presidente do Brasil e de Nicolás Maduro para o segundo mandato como presidente da Venezuela são dois momentos considerados decisivos para o tipo de agressão militar idealizada pelos Estados Unidos. As linhas gerais da operação já tinham sido avançadas em Maio de 2018 pelo general norte-americano Kurt Tidd, comandante-em-chefe do SouthCom, o Comando Sul das forças armadas dos Estados Unidos. Posteriormente, depois das eleições brasileiras, o secretário de Estado de Trump, John Bolton, falou na constituição de um grupo integrado por Iván Duque, presidente da Colômbia e Jair Bolsonaro, expoentes do novo fascismo latino-americano, em que assentará a frente sul-americana da guerra contra a Venezuela.
O comando operacional da acção envolvendo os mercenários treinados na Colômbia será assumido pelo general venezuelano Oswaldo García Palomo, que fugiu para território colombiano depois da tentativa de assassínio do presidente Maduro com um drone, em 4 de Agosto de 2018. O objectivo estratégico da primeira ofensiva contra território venezuelano será o controlo das bases militares de Libertador de Polo Negro, Puerto Cabello e Barcelona.
Tudo indica que as tropas envolvidas na invasão serão brasileiras, colombianas e da Guiana. Este país tornou-se uma ponta de lança dos projectos norte-americanos contra a Venezuela a partir de 2015, quando reactivou velhas reivindicações sobre território insular venezuelano, precisamente na ocasião em que foram detectadas importantes reservas de hidrocarbonetos nas águas envolventes.
No Verão de 2017 já tinham ocorrido grandes manobras multinacionais de transporte de tropas simulando a concentração de meios militares em condições de atacar a Venezuela.

Cenários “políticos”

A eleição de Jair Bolsonaro como presidente do Brasil foi um passo que contribuiu para definir, com maior precisão, as bases políticas que tornam possível desenvolver este tipo de operação conduzida pelos Estados Unidos.
Em várias ocasiões, os peões do novo regime brasileiro verbalizaram a intenção de participar em operações militares contra a Venezuela com o objectivo de liquidar o sistema popular bolivariano.
Uma dessas situações aconteceu na entrevista do vice-presidente eleito, general Hamilton Mourão, à revista Piauí. Mourão defendeu o derrube de Maduro pela força e o envio de um “contingente de paz” brasileiro para a Venezuela. Bolsonaro tentou apagar os efeitos das palavras do general dizendo que, por vezes, “ele fala demais” – embora não tenha desmentido o conteúdo das afirmações.
Outro dos pressupostos “políticos” em que assenta o cenário fabricado em Washington resulta do facto de vários chefes de Estado latino-americanos não terem reconhecido, por pressão dos Estados Unidos, a eleição de Maduro para o segundo mandato, pondo em causa a “legitimidade” do acto eleitoral. Esta situação “facilitaria” o envolvimento de vários países da região na operação para mudar o regime em Caracas.

Conspiração permanente

O ambiente tem vindo a ser preparado há muitos anos através de uma conspiração permanente contra a Venezuela.
Nesse quadro avultam as tentativas de golpe de Estado e de assassínio dos presidentes Hugo Chávez e Nicolás Maduro, a manipulação da conjuntura internacional dos preços do petróleo através da Arábia Saudita – que também mina as principais fontes venezuelanas de receitas – os ataques contra a moeda venezuelana, conduzidos a partir de Washington, os tumultos violentos, ditos “manifestações populares”, organizados pela oposição directamente vinculada ao Pentágono e ao Departamento de Estado norte-americano. Nesse contexto avultam ainda os incentivos à emigração de dezenas de milhares de venezuelanos para países vizinhos, com promessas de melhores condições de vida que se revelaram falsas. Grande parte desses cidadãos manipulados têm regressado ao seu país; outros que pretendem seguir-lhes as pisadas têm sido alvo de manobras desencorajadoras que integram a proibição de aviões venezuelanos de circularem nos espaços aéreos dos países de acolhimento e o levantamento de obstáculos à circulação de autocarros através das fronteiras.
Todos os procedimentos conspirativos têm sido envolvidos por permanentes acções de propaganda e de disseminação de “fake news”, sobretudo através da comunicação global mainstream. Trata-se, essencialmente, de espalhar a imagem de que um irreversível ambiente de violência, de opressão e de ingovernabilidade tornam insuportáveis as condições de vida na Venezuela e também na Nicarágua, transformados em Estados falidos e falhados.
Não é difícil perceber o objectivo destas operações convergentes e em grande escala: fazer da agressão militar contra a Venezuela e a Nicarágua, e a consequente substituição dos seus regimes políticos, não apenas uma “necessidade democrática” mas também uma “causa humanitária” capaz de mobilizar a chamada “comunidade internacional” e os seus ramos “benfeitores” – armados ou não.
O ano de 2019 parece ser o do amadurecimento e colheita dos resultados da conspiração cultivada. Pode acontecer, porém, que as evoluções da relação internacional de forças já não sejam compatíveis com o primado da arbitrariedade que tornou possíveis dramas como os do Afeganistão, Iraque, Iémen, Líbia e Síria.

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