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LÍBIA: A CIMEIRA E A ATROCIDADE SILENCIADA

Imagem dá "reconstrução" e "democratização" da Líbia executadas pela NATO (Associated Press/Manu Brabo)

2018-11-23

Manlio Dinucci, Il Manifesto, Roma

Com o falhanço de Emmanuel Macron em resolver a crise líbia, chegou a vez de Giuseppe Conte tentar qualquer coisa. Roma está em melhor posição que Paris, na medida em que tem o apoio da Casa Branca. Contudo, há poucas hipóteses de alcançar seja o que for, os “bem-intencionados” são os antigos lobos que devoraram a Líbia.

Um crescente de lua (símbolo do islamismo) desenhado como um hemisfério estilizado que, flanqueado por uma estrela e as palavras “for/with Libya” (pela/com a Líbia) representa “um mundo que deseja colocar-se ao lado da Líbia”: foi este o logotipo da “Conferência pela Líbia” organizada pelo governo italiano, como mostra a bandeira tricolor na parte inferior do crescente de lua/hemisfério.
A conferência internacional realizou-se nos dias 12 e 13 de Novembro em Palermo, na Sicília; que foi, há sete anos, a base principal de lançamento da guerra na qual a NATO, sob comando norte-americano, destruiu o Estado líbio. Esta guerra iniciou-se com o financiamento e o fornecimento de armas a sectores tribais e grupos islamitas da Líbia hostis ao governo de Tripoli; e infiltrando forças especiais no país, entre as quais milhares de comandos do Qatar camuflados de “rebeldes líbios”. Depois, em Março de 2011, foi lançado o ataque aeronaval dos Estados Unidos e da NATO que se prolongou por sete meses. A aviação efectuou 30 mil missões, das quais dez mil de ataque, lançando mais de 40 mil bombas e mísseis.
A Itália, por decisão de uma vasta coligação política que ia da direita à esquerda, participou na guerra não apenas com a aviação e a marinha, mas colocando sete bases aéreas à disposição das forças norte-americanas e da NATO: Trapani, Sigonella, Pantelleria, Gioia del Colle, Amendola, Decimomannu e Aviano.
Com esta guerra de 2011, a NATO demoliu um Estado que, na margem sul do Mediterrâneo, de frente para a Itália, atingiu, embora com notáveis disparidades internas, “altos níveis de crescimento económico e de desenvolvimento humano” (como documentou em 2010 o próprio Banco Mundial), superiores aos dos outros países africanos. Além do facto de cerca de dois milhões de imigrantes, a maioria africanos, terem encontrado trabalho na Líbia. Ao mesmo tempo, a Líbia tornou possível, com os seus fundos soberanos, o nascimento em África de organismos económicos independentes e de uma moeda africana.

Da guerra ao saque

Os Estados Unidos e a França – como provam os e-mails da então secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton – chegaram a acordo para bloquear, em primeiro lugar, o plano de Khaddafi para criar uma moeda africana alternativa ao dólar e ao franco CFA, imposto pela França a 14 ex-colónias africanas.
Aos níveis externo e interno e na situação caótica criada depois da demolição do Estado e do assassínio de Muammar Khaddafi iniciou-se uma luta cruel pela partilha de um enorme saque: as reservas de petróleo – as maiores de África – e de gás natural; o imenso lençol núbio de água fóssil, este ouro branco que se perspectiva mais precioso que o ouro negro; o próprio território líbio, de primeira importância geoestratégica; os fundos soberanos de cerca de 150 mil milhões de dólares investidos pelo Estado líbio no estrangeiro, “congelados” em 2011 nos maiores bancos europeus e dos Estados Unidos, isto é, roubados. Por exemplo, dos 16 mil milhões de euros de fundos líbios bloqueados no Euroclear Bank na Bélgica e no Luxemburgo, mais de dez mil milhões desapareceram. “Desde 2013”, revela a RTBF (Radiotelevisão Francófona Belga), “centenas de milhões de euros provenientes destes fundos foram enviados para a Líbia com a finalidade de financiar a guerra civil que provocou uma grave crise migratória”.
Numerosos imigrantes africanos na Líbia foram presos e torturados pelas milícias islâmicas. A Líbia tornou-se o principal ponto de passagem, nas mãos de traficantes e dos manipuladores internacionais, de um caótico fluxo migratório que provocou anualmente, no Mediterrâneo, mais vítimas do que as bombas da NATO em 2011.
Não podemos silenciar, como fizeram os próprios organizadores de uma contra-cimeira em Palermo, que na origem desta tragédia humanitária esteve a guerra através da qual, há sete anos, os Estados Unidos e a NATO destruíram totalmente um Estado em África.


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