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WASHINGTON EXIGE PAZ NO IÉMEN E ACELERA A GUERRA

A obra da Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Estados Unidos na região portuária de Hodeidah

2018-11-16

Edward Barnes, Damasco; com Armando Vicente, Adem

A declaração do secretário da Defesa norte-americano, James Mattys, fazendo pressão para que a guerra do Iémen chegue ao fim num prazo de 30 dias foi o ponto de partida para uma grande ofensiva da coligação militar chefiada pela Arábia Saudita contra o porto estratégico de Hodeidah, no sul do país. As negociações “de paz” previstas para este mês foram adiadas, pelo menos para o fim do próximo, e o Pentágono reforça o apoio às operações militares.
Mohamed bin Salman, o príncipe herdeiro do trono da Arábia Saudita e considerado o principal responsável pelo recente assassínio do jornalista-espião Jamal Khashoggi, é a figura de Riade que está por detrás da agressão estrangeira contra o Iémen.

No entanto, apesar da onda internacional de protestos contra a morte de Khashoggi, e até de algumas prometidas medidas de retaliação contra a Arábia Saudita, a agressão da coligação estrangeira contra a soberania do Iémen, provocando uma penúria alimentar das mais graves de sempre no mundo, não suscita qualquer reacção eficaz das grandes potências e das principais instâncias internacionais. Até ao momento, as Nações Unidas limitaram-se a pedir um cessar-fogo no porto de Hodeidah – e fê-lo mais de quatro dias depois de reforçada a ofensiva pelas tropas invasoras.
Os Estados Unidos apoiam militarmente o ataque tendo colocado dois aviões de reconhecimento, vigilância e inteligência ao serviço da campanha contra a região meridional iemenita. O fim anunciado das operações norte-americanas de reabastecimento em vôo dos caças-bombardeiros sauditas e dos Emirados Árabes Unidos, alguns deles pilotados por militares israelitas, não tem qualquer repercussão prática no desenvolvimento da ofensiva.
O porto de Hodeidah é, desde o início da guerra, um alvo estratégico da coligação estrangeira, que o considera o principal canal de abastecimento de armas da resistência Houthi à ocupação.

Funcionários dos EUA no planeamento da ofensiva

Nos bastidores diplomáticos do Médio Oriente circulam informações segundo as quais a grande ofensiva desencadeada no fim de semana de 10 e 11 de Novembro foi planeada durante uma reunião efectuada em Riade e na qual participaram funcionários norte-americanos, juntamente com oficiais sauditas e dos Emirados Árabes Unidos. Os Estados Unidos, inclusivamente, contribuíram com recolha de inteligência fundamental para o ataque militar. As mesmas fontes consideram que a ofensiva praticamente apagou o impacto inicial do caso Khashoggi, pelo menos quanto a eventuais dissonâncias que pudessem existir entre a Casa Branca e a monarquia saudita.
A situação decorrente do assassínio do jornalista-espião Khashoggi está, aliás, a tornar-se cada vez mais embaraçosa para muitos governos, depois de o presidente turco Erdogan ter anunciado publicamente que enviou cópias de todas as gravações áudio e vídeo obtidas no consulado de saudita de Istambul aos principais países ocidentais, entre eles Estados Unidos, Alemanha, França e Reino Unido. “Eles ouviram todas as conversas, eles sabem o que se passou”, informou o dirigente turco. O silêncio que se mantém sobre estas revelações, uma semana depois de recebidas, traduz as dificuldades que os principais aliados do regime saudita têm em lidar com o assunto.

Resistência e terrorismo

Entretanto, enquanto foram adiadas as negociações diplomáticas sobre o Iémen, que datam já do tempo de John Kerry como secretário de Estado norte-americano, na administração Obama, o presidente Donald Trump está a desenvolver iniciativas que conduzam à declaração da resistência Houthi como “movimento terrorista”, designadamente o seu braço armado, o Ansarullah.
Estes esforços coincidem com as operações de salvamento de terroristas do Daesh a que as tropas norte-americanas continuam a proceder na Síria, para evitar que sejam dizimados pelo exército nacional de Damasco ou pela aviação russa, sua aliada.
O actual secretário de Estado norte-americano, Michael Pompeo, adoptou uma posição complementar ao recomendar que o Irão, país que apoia as comunidades houthis, de origem xiita, venha a ser responsabilizado “pela destruição do Iémen”, um discurso que sustenta a posição agressiva de Israel em relação a Teerão.
A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, que recorrem a mercenários recrutados em países pobres da África Central, continuam a acolher e a considerar o fugitivo presidente iemenita, Abdo Rabbo Mansur Hadi, como “legítimo” titular do cargo, posição partilhada pelas principais potências da União Europeia e da NATO.
Ao mesmo tempo, Riade tenta reconstruir e colocar ao seu lado o Conselho Geral do Povo, organização que sustentava o falecido presidente Ali Abdallah Saleh. As diligências estão a ser efectuadas junto do filho do ex-presidente, Ahmed Saleh.
O Congresso Geral do Povo, que era transversal às etnias étnico-religiosas, fragmentou-se desde que estas, a exemplo do que acontece através do Médio Oriente, se tornaram determinantes para alimentar conflitos e dissolver Estados. A guerra lançada pela Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, com apoio norte-americano e israelita e desenvolvida com armamentos fornecidos por estes países, a Alemanha, o Reino Unido e a França, fraccionou o país entre as comunidades sunitas e xiitas.
A coligação dominada pelos houthis não é, porém, xiita de maneira homogénea, uma vez que integra sectores urbanos oriundos do Congresso Geral do Povo e que são maioritariamente sunitas.
Ao procurar reconstruir o Congresso Geral do Povo, a Arábia Saudita está a tentar enfraquecer a coligação Houthi e alcançar um outro objectivo estratégico: divisão absoluta entre as comunidades sunita e xiita, uma orientação pretendida por Estados Unidos e Israel, por exemplo no Iraque e na Síria, à luz da criação de “um novo mapa do Médio Oriente”. Trata-se de substituir os antigos Estados nacionalistas e seculares da região por entidades étnico-religiosas homogéneas aptas a guerrear-se entre si em vez de assumirem a solidariedade com a causa palestiniana e, desde modo, perturbarem o controlo do Médio Oriente pretendido pelos Estados Unidos através de uma coligação formada por Israel e a Arábia Saudita, já no terreno.

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