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OURO DA VENEZUELA SEQUESTRADO POR LONDRES

O governo de Londres deixou de ser fiável como guardião do ouro que é encarregado de guardar

2018-11-16

Peter Korzun, Truthdig/O Lado Oculto

A Rússia e a Venezuela estão entre os países aos quais a União Europeia, incluindo o Reino Unido, aplica sanções. Ambas as nações têm sido alvo de vigorosos ataques de Londres, supostamente culpadas de terem praticado numerosas coisas nefandas. O Reino Unido exige que todos sigam as suas regras. Enquanto isso, Londres brinca com normas que são aceites e de uso comum nas relações internacionais.

O governo da Venezuela está a tentar repatriar pelo menos 14 toneladas do ouro que tem depositado no Banco de Inglaterra. Recentemente pediu que sejam devolvidas barras de ouro no valor de 420 milhões de libras, cerca de 480 milhões de euros. Este movimento é adequado e oportuno, como demonstra a última série de medidas punitivas recentemente impostas por Washington a Caracas. O Banco de Inglaterra recusou o pedido!

“O que pretende fazer com o ouro?”

Segundo informações disponíveis, as autoridades do Reino Unido insistem que a Venezuela declare as suas intenções em relação ao ouro. Segundo a narrativa londrina, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, é suspeito de ter planos para vender o tesouro nacional de modo a obter vantagens pessoais. Há ainda um outro subterfúgio a que a parte britânica recorre para tentar explicar por que razão não devolve o ouro venezuelano ao legítimo proprietário: diz que é muito difícil obter um seguro para o embarque de carga tão valiosa. Mesmo que a Venezuela receba o ouro pedido, ainda assim terá muitas dificuldades em usá-lo para ter acesso a divisas fortes, devido à nova série de sanções norte-americanas que entrou em vigor em 1 de Novembro. Devido a estas medidas, porém, é de todo impossível vender directamente o ouro a partir do Banco de Inglaterra.
O Reino Unido sabe melhor do que ninguém quem é suspeito de não ser fiável, a partir do momento em que se recusa a devolver propriedade que não lhe pertence. Se isto não é roubo, então o que será? Serão normas de um comportamento civilizado? Esqueçam tudo isso: a Londres cabe apenas seguir escrupulosamente as instruções emanadas de Washington para decidir sobre o que é ou não é civilizado.
Segundo John Bolton, conselheiro de segurança nacional da administração Trump, “as novas sanções pretendem atingir as redes que operam dentro dos sectores económicos corruptos da Venezuela e vedar-lhes o aceso às riquezas roubadas”. O conselheiro acrescentou que, ”no imediato, as novas sanções impedirão cidadãos dos Estados Unidos de envolver-se com actores e redes cúmplices de transações corruptas e falsificadas do ouro venezuelano”. Deste modo, o governo dos Estados Unidos torna-se o juiz supremo para decidir sobre o que é uma transacção “corrupta” ou “enganosa”. E Londres corre a aplicar o que é ordenado pelos seus “superiores”.
Dezenas de nações em risco
Hoje é a Venezuela; amanhã pode ser qualquer outra das mais de 30 nações que mantêm reservas de ouro depositadas nos cofres do Banco de Inglaterra.
A Venezuela, que juntamente com a Nicarágua e Cuba integram a “troika da tirania”, assim definida por John Bolton, está a desenvolver esforços para certificar 32 explorações de ouro e construir 54 unidades de processamento.
A violação flagrante dos direitos de um Estado soberano praticada pelas autoridades do Reino Unido afecta outras nações, igualmente prejudicadas. A Rússia é uma delas. Moscovo prefere o metal precioso às notas verdes de dólar e, por isso, transformou-se num significativo importador mundial de ouro. No ano passado comprou um recorde de 92,2 toneladas, fazendo as suas reservas ultrapassar as duas mil toneladas. Em breve poderá alcançar a Itália (2451,8 toneladas) e a França (2436 toneladas), respectivamente terceiro e quarto maiores detentores mundiais de ouro. As actividades britânicas representam uma ameaça directa aos interesses nacionais da Rússia.

O mistério do ouro alemão

A Alemanha, o segundo país do mundo quanto ao volume de reservas de ouro (3378 toneladas), repatriou 300 toneladas dos Estados Unidos durante o ano passado. Os Estados Unidos, porém, demoraram vários anos a atender o pedido de Berlim. O facto de as barras de ouro recebidas pelo Bundesbank terem rótulos diferentes faz pensar na possibilidade de os Estados Unidos terem substituído os lingotes originais alemães por barras de ouro compradas no mercado. Isto significa que o ouro não estava no lugar na altura em que a Alemanha fez o pedido. O que levanta a hipótese de o Reino Unido não conseguir responder à solicitação da Venezuela pelo mesmo motivo – o ouro não está nos cofres e Londres precisa de tempo para adquiri-lo.
Koos Jansen, colaborador da BullionStar (primeiro operador mundial no negócio de ouro e prata), interroga-se sobre se o ouro de Fort Knox ainda aí estará. O ex-congressista norte-americano Ron Paul tentou decifrar alguns mistérios em torno da Reserva Federal confrontando directamente esta entidade e alguns dos seus representantes, mas nunca conseguiu respostas claras. O governo dos Estados Unidos não audita o ouro.
Há ainda uma outra razão pela qual a Rússia pode ser afectada pelos procedimentos do Reino Unido: a Venezuela é um dos seus principais parceiros económicos. Caracas paga as suas contas e Moscovo deseja que seja solvente.
O próprio facto de o Reino Unido perguntar à Venezuela “para que precisa do seu ouro?” é um absurdo. Este tipo de comportamento é inaceitável e escandaloso. Será que Londres se recusará a pagar as facturas de gás proveniente da Rússia perguntando a Moscovo “para que precisa deste dinheiro?” Desta feita o Reino Unido foi longe demais. Este procedimento é suficientemente relevante para alarmar a comunidade internacional. Ou respeitamos as normas habitualmente aceites ou então vivemos numa selva. Em vez de atacar a Venezuela e outras nações sem qualquer prova que sustente as alegações, Londres teria feito melhor em olhar-se ao espelho. O mundo pode deduzir agora que o Reino Unido não é um parceiro fiável. E que precisará de um prolongado e difícil esforço para restaurar a reputação.

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