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UM OLHAR BRASILEIRO PARA O FUTURO

João Pedro Stedile, dirigente do Movimento dos Sem Terra, com o ex-presidente Lula da Silva

2018-11-09

Numa entrevista à rádio Brasil de Fato, o dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Brasil, João Pedro Stedile, faz um balanço da eleição de Bolsonaro, porém a olhar já para o futuro, para o que poderá ser a luta das forças sociais, laborais e populares. O fascismo ganhou, admite, mas uma maioria de 76 milhões de brasileiros não apoiaram o fascismo Esta circunstância abre campo para  uma procura de unidade nas lutas perante os problemas concretos, que são muitos e cuja resolução não virá de um governo "à Pinochet no Chile", que antes tenderá a agravá-los. Pelo caminho está a luta pela libertação e o desagravo de Lula e a dinamização da grande campanha internacional para levá-lo a Prémio Nobel da Paz, lançada por Adolfo Perez Esquível.

Entrevista de Pedro Ribeiro Nogueira, para Brasil de Fato/Edição O Lado Oculto

"É um governo que vai usar continuadamente a repressão, as ameaças, o amedrontamento. Vai libertar as forças reaccionárias que estão presentes na sociedade. Por outro lado, vai tentar dar liberdade total ao capital num programa neoliberal. Porém, essa fórmula é inviável, não dá coesão social e não resolve os problemas fundamentais da população", diz Stedile. 

 Transcrição da entrevista, na íntegra

O que dizer aos mais de 46 milhões de pessoas que votaram no candidato Fernando Haddad, apoiado pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST)?

Ainda estamos no calor dos resultados e precisamos, acima de tudo, de ter muita serenidade e entender o contexto da luta de classes; e não nos considerarmos derrotados por este resultado. Ainda que as urnas tenham dado legitimidade a Bolsonaro, não significa que tenha tido o apoio da maioria população. Há um alto índice de abstenção, 31 milhões.  Haddad teve 45 milhões. São, portanto, 76 milhões os brasileiros que não votaram em Bolsonaro.

Portanto, a sociedade brasileira está dividida. Mesmo no resultado eleitoral e pelo que pude acompanhar  nas sondagens prévias, ficou claro que quem está apoiando o projecto de Haddad é quem ganha menos, de dois a cinco salários mínimos, e quem tem até ao ensino fundamental; e, claramente, os mais ricos e abastados votaram em Bolsonaro. 

Mas também houve uma divisão eleitoral clara, geograficamente. Quando olhamos para o mapa do Brasil com os governadores eleitos, temos 12 candidatos progressistas do campo popular que vai desde o Pará até ao governador Renato Casagrande (PSB) no Espírito Santo. O Nordeste e aquela parte da Amazónia são um polo de resistência geográfico que demonstra claramente que aquela população não quer seguir os rumos do projecto fascista de Bolsonaro.

Por último, como um breve balanço,  a última semana consagrou uma vitória política da esquerda e dos movimentos populares. Tivemos inúmeras manifestações de todas as forças organizadas: sindicatos, intelectuais, estudantes, universidades. 

Nunca antes na história do país tínhamos colocado mais de 500 mil mulheres em todo o Brasil, em 360 cidades, que foram às ruas dizer "Ele não", "Fascismo não"; de maneira que eu acho que o balanço não é de uma derrota política. Sofremos uma derrota eleitoral, mas saímos deste processo aglutinados, com capacidade e força organizada para resistir à pretensa ofensiva fascista. 

Os problemas da sociedade vão agravar-se

Apesar das ameaças de Bolsonaro, sabemos que no campo institucional há limitações. Ele já disse que tem a intenção de tipificar o MST e o MTST  (Movimento dos Trabalhadores Sem Tecto) como organizações terroristas. Vê alguma possibilidade real e institucional de que isso realmente aconteça?

Eu acho que o governo Bolsonaro vai assemelhar-se, se fizermos um paralelo, ao de Pinochet no Chile. Não pela forma como chegou, mas pela sua natureza fascista. É um governo que vai usar continuamente a repressão, as ameaças, o amedrontamento. Vai libertar as forças reaccionárias que estão presentes na sociedade. Por outro lado, vai tentar dar liberdade total ao capital num um programa neoliberal. Porém, essa fórmula é inviável, não dá coesão social e não resolve os problemas fundamentais da população. 

O Brasil vive uma grave crise económica que é a raiz de todo este processo, desde 2012 o país não cresce. Portanto, ao não crescer, ao não produzir novas riquezas, os problemas sociais, económicos e ambientais só vão aumentando.

Com o seu programa ultraliberal, de apenas defender os interesses do capital, pode até ajudar os bancos, fazer com os bancos continuem a ter lucros, pode ajudar as empresas transnacionais a tomarem de assalto o resto do que nós temos; porém, ao não resolver os problemas concretos da população como o emprego, os rendimentos, os direitos laborais, as questões da segurança social, da terra, da habitação, isso só irá aumentar as contradições.

As circunstâncias irão gerar um caos social que permitirá aos movimentos populares retomar a ofensiva, as mobilizações de massa. E, no fundo, além do que está na Constituição, coisa que ele não vai respeitar muito, o que nos vai proteger não será corrermos para debaixo da tenda. O que vai nos proteger é a capacidade de aglutinar o povo, continuar a promover lutas de massas na defesa dos direitos, na melhoria das condições de vida; e essas mobilizações populares é que serão a protecção dos militantes, dos dirigentes. Não nos assustemos. As contradições que eles vão enfrentar serão muito maiores do que as possibilidades de reprimirem impunemente. 

Lula a Prémio Nobel da Paz

Há uma outra luta que tem relação com as eleições e que, desde que começou a campanha eleitoral, ficou em segundo plano: a prisão ilegal e injusta do ex-presidente Lula. Qual é a perspectiva dos movimentos populares para essa outra frente de batalha?

Como todos nós temos acompanhado ao longo deste período, o presidente Lula foi sequestrado pelo capital por meio de um Poder Judiciário completamente servil a esses interesses. Ele foi preso ilegalmente. Há muitos outros, não só políticos como cidadãos, que estão a responder em liberdade, até para que se cumpra a Constituição, que só permite a prisão depois que o processo passar por todas as instâncias.

No caso de Lula, ainda falta ser julgado no Supremo Tribunal de Justiça (STJ) e depois no Supremo tribunal Federal (STF). Depois, não o deixaram concorrer quando o registo da candidatura foi feito. Outros 1400 candidatos concorreram na mesmas condições de Lula, mas a ele foi proibido; e, finalmente,  proibiram-no de falar, quando qualquer bandido de quinta categoria pode dar entrevista na Globo. Ficou famoso aquele caso do ex-guarda-redes do Flamengo que todos os dias dava entrevistas à Globo. E a Lula foi proibido comunicar com o povo. Na verdade, eles sabiam que Lula é a principal liderança popular, e que seria capaz de aglutinar amplas forças do povo brasileiro, que levaria a debate a discussão do seu projecto. É evidente que parte dos eleitores de Lula, que acreditam em Lula, são trabalhadores enganados por uma campanha de mentiras e que acabaram por votar em Bolsonaro.

Para a esquerda e movimentos populares, temos um desafio enorme daqui em diante, que é o de organizar comités populares em todo Brasil, organizar um verdadeiro movimento de massas, e organizar uma verdadeira campanha internacional pela sua libertação e pela designação do Prémio Nobel da Paz no ano que vem; uma campanha encabeçada pelo já vencedor do Prémio Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquível. 

Vamos ter uma tarefa enorme de organizar esses comités e transformar a luta pela campanha numa bandeira popular. Evidentemente que haverá outros desafios sobre os quais a esquerda e os movimentos populares terão de se debruçar de agora em diante. Para nos unirmos, já existe a sugestão de transformar a Frente Brasil Popular, a Frente Povo Sem Medo, quem sabe para nos juntarmos todos numa Frente Popular pela Democracia e Antifascista.

Poderia ser um instrumento mais amplo ainda do que a própria Frente Brasil Popular. Temos muita luta pela frente. A luta de classes é assim. É muito parecida com um jogo de futebol num longo campeonato. Há domingos em  que se perde um jogo; há outros em que se ganha. Mas o fundamental é ir acumulando forças e organizando nosso povo. É isso que muda correlação de forças. 

Retomar os interesses dos trabalhadores

Como é que a esquerda sai desta batalha? Os partidos, movimentos, o próprio Fernando Haddad?

Eu envolvi-me pessoalmente, o nosso movimento e a Frente Brasil Popular também, e notou-se claramente, nas últimas duas semanas, um novo alento, uma nova interpretação do que está a acontecer no Brasil. Muita gente já se mobilizou independentemente de partidos e movimentos, ou seja, há energias na sociedade e conseguiremos resistir ao fascismo. 

Agora, não podemos cair no reducionismo da vida partidária e ficar nas especulações do que acontecerá com fulano ou beltrano. As pessoas pouco importam neste processo. A luta de classes, é de classes, e portanto, é a dinâmica da luta de classes que altera a correlação de forças, que vai resolver os problemas do povo. No meio dessas lutas de classe vão surgindo novos líderes e novas referências. Não podemos apegar-nos a essas leituras.

Ouve dizer-se: "O Haddad já se perfila para 2022", "O Ciro também se perfila". O Ciro Gomes saiu muito bem da primeira volta, com moral, e depois jogou essa moral no caixote do lixo ao abster-se da disputa política na segunda volta. A vida útil do Ciro durou três semanas. É assim a lógica da luta de classes.

Acho que a esquerda e os movimentos populares, que têm causas bem específicas como a das mulheres, da habitação, terra e movimento sindical, exigem que nos debrucemos com serenidade, que façamos as avaliações críticas e autocríticas e que retomemos a nossa agenda histórica da classe trabalhadora, para enfrentar os desafios da vida e da história.

Ficou claro durante esta campanha: temos de retomar o trabalho de base; até o  Mano Brown nos puxou as orelhas e tinha razão. Se tivéssemos tido a paciência de, ao longo destes seis meses, ter ido de casa em casa, nos bairros da periferia, onde vive o povo pobre, acredito que teríamos outro resultado eleitoral. O povo entende, mas ninguém vai lá falar com ele.

Temos de ter claro que o que altera a correlação de forças: não são discursos, não são mensagens no Whatsapp. O que altera a correlação de forças e resolve os problemas concretos da população é organizar a classe trabalhadora e a população para travar lutas de massas e resolver os seus problemas. 

Se falta trabalho, temos de lutar contra o desemprego. Se o gás está muito caro, temos de lutar para baixar o preço do gás. Isso exige lutas de massas. Da mesma forma, a esquerda abandonou a formação política. As pessoas foram iludidas pelas mentiras da campanha do Bolsonaro no Whatsapp por que? Porque não têm discernimento político para saber o que é mentira e o que fazia parte do jogo. Isso só se resolve com formação política e ideológica, quando a pessoa tem discernimento, conhecimento para julgar por si própria e não esperar orientação de ninguém.

Assim como temos de potencializar  os nossos meios de comunicação populares. De facto, a televisão deixou de pesar na formação da opinião das pessoas. Então, temos de construir os nossos meios de comunicação. Agora é o tempo ideal.

Finalmente, temos de fazer um novo debate no país, sobre um novo projecto soberano para uma sociedade igualitária e justa. Como esta campanha foi baseada na mentira e na luta contra mentira, não discutimos programas, não discutimos um projecto estrutural pro país. Agora temos de recuperar esse debate e, nos próximos meses e anos, reconstruir uma unidade popular em torno de um projecto. Um programa de soluções para o povo, porque do outro lado, do governo, não virá.

 



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