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ESTADOS UNIDOS NÃO DÃO TRÉGUAS À NICARÁGUA

Foi a confederação patronal COSEP quem incitou os trabalhadores e os desprotegidos a desafiarem nas ruas o governo de Ortega, o que gerou a recente onda de violência na Nicarágua

2018-10-19

Roger D. Harris*, Investig’Action/O Lado Oculto

Depois de meses de violência, a paz poderá instalar-se na Nicarágua, o que inquieta os partidários dos Estados Unidos que se opõem ao presidente Ortega. Mas ainda lhes resta uma derradeira esperança.
No último de uma série de artigos anti-Ortega publicados pela revista norte-americana The Nation, intitulado “Uma eterna noite de perseguição e morte”, pode ler-se: “Apesar dos massacres e das novas leis autoritárias, uma oposição diversificada afirma que o movimento para derrubar Ortega está longe de terminado”.
Ainda que alguns analistas considerem que a calma relativa em que vive a Nicarágua se deve principalmente ao fracasso da oposição em encontrar apoio popular, este artigo baseia-se, principalmente, numa entrevista com uma fonte anónima “cujo nome foi alterado para sua segurança”. Quando chegamos ao fim do artigo descobrimos que esta fonte anónima está “num café em Nova York”. Sempre vigilante, senta-se de costas para a parede, “de frente para o resto do café”.
A oposição está adormecida, mas The Nation continua ainda à espera de uma mudança de regime. A fonte anónima “lamenta” que “a única maneira de obrigar Ortega a ceder será com a pressão norte-americana e internacional”. O artigo conclui que “se os Estados Unidos não forem o parceiro perfeito, as opções serão limitadas”.

O Tio Sam virá acudir?

O universitário latino-americano William I. Robinson, um opositor de Ortega, interroga-se quanto à possibilidade de os Estados Unidos serem obrigados a intervir. Afirma que “o principal interesse de Washington na Nicarágua não é o de desembaraçar-se de Ortega, mas de preservar os interesses do capital transnacional”.
Grande parte da análise de Robinson é coerente com as daqueles que rejeitam a implicação norte-americana no surto de violência recente na Nicarágua. Robinson reconhece que o disfarce da CIA conhecido como National Endowment for Democracy (NED), organização para financiamento da instauração de regimes considerados democráticos pelos Estados Unidos, “iniciou as suas dotações financeiras em meados dos anos oitenta e nunca mais parou. Não se trata de uma coisa nova no período Ortega-Murillo”. Contudo, a afirmação de Robinson segundo a qual o financiamento norte-americano “não se destina a derrubar Ortega” é falsa. Os dólares ditos para “promoção da democracia” provenientes dos Estados Unidos destinam-se à oposição que pretende derrubar Ortega.
Robinson afirma que não existe uma alternativa de esquerda viável dentro da oposição a Ortega: “as camadas populares de base não têm projecto próprio a propor como alternativa viável para substituir o regime. Isto abre a resistência popular à manipulação ou à cooptação pela terceira força”. Esta terceira força, explica Robinson, “é a burguesia organizada no Conselho Superior de Empresas Privadas (COSEP na sigla anglo-saxónica), elite oligárquica, o capital transnacional e os Estados Unidos”.
Robinson está de acordo: “Ao fim e ao cabo, as forças de direita terão tirado proveito da insurreição popular para tentar assumir o controlo? Absolutamente. Estas forças desenvolveram a sua própria violência? Sim. Será que manipularam uma oposição de base desorganizada e politicamente incoerente frente a Ortega-Murillo? Sim. À pergunta retórica de saber se “o cenário pós-Ortega que a direita procura será “mais neoliberal, repressivo e autoritário que o regime”, Robinson responde: “provavelmente”.
Posto isto, qual é o problema de Robinson com o que caracteriza como “a visão maniqueísta infantil de uma parte importante da esquerda norte-americana”?
Robinson é um ardente defensor da tese segundo a qual a ideia de imperialismo norte-americano foi eclipsada por “uma classe capitalista transnacional”. Admite que à escala mundial a Nicarágua pese como uma força mais progressista: “o regime de Ortega, com o seu assistencialismo (sic), terá sido ‘pior’ que outros regimes neoliberais? Certamente que não. Mas ser menos mau não chega. O ponto crucial da sua diferença em relação à esquerda anti-imperialista é que a ‘classe capitalista transnacional’ considera que a Nicarágua merece ser defendida, se bem que no mundo imperialista pós-americano nenhum país passou este teste decisivo”.

A ameaça de uma alternativa ao Império

Depois da queda da União Soviética e dos seus aliados, todos os países se viram forçados a integrar-se no mercado capitalista mundial, incluindo a Nicarágua. Robinson descreve bem este processo nos seus trabalhos universitários.
Porém, Robinson é menos perspicaz no que diz respeito aos aspectos coercivos das relações norte-americanas com os países progressistas como a Nicarágua e os seus aliados na ALBA (Aliança Bolivariana para as Américas), tais como Cuba, Venezuela e Bolívia. Estes países e os seus dirigentes estão sob a mira dos esforços dos Estados Unidos para conseguirem obter mudanças de regime, precisamente porque representam um certo grau de desafio ao neoliberalismo e porque não se submetem a todas as ordens do Império.
Robinson qualifica talvez este ponto de vista como “maniqueísta” (isto é, um mundo binário partilhado entre o bem e o mal), mas essa é a realidade imposta pelos Estados Unidos e George W. Bush que, no seu modo eloquente, resumiu o essencial da estratégia norte-americana: “Ou estão connosco ou contra nós”.
Um dos factores que contribuiu para fazer pender os Estados Unidos da cooperação para a coerção foi a adopção de um projecto de canal interoceânico financiado pelos chineses e que punha fundamentalmente em causa os interesses geopolíticos norte-americanos.
Os Estados Unidos impuseram sanções contra altos responsáveis nicaraguenses. A USAID recebeu 1,5 milhões de dólares suplementares para promover “a liberdade e a democracia” na Nicarágua. A Lei NICA foi adoptada por unanimidade pela Câmara dos Representantes e também pelo Senado. A Lei NICA tem como objectivo restringir o financiamento internacional e provocar, de facto, a miséria do povo nicaraguense, de modo a fazer pressão sobre o governo de Ortega.
Por outro lado, o essencial do corpo diplomático norte-americano foi retirado da Nicarágua. O Departamento de Estado, nos seus conselhos aos viajantes, advertiu que “ao pessoal governamental norte-americano é proibida (…) a entrada (…) nos clubes masculinos de todo o país, devido à criminalidade”. “As pessoas que não integram o pessoal de intervenção” foram evacuadas para a sua terra, onde provavelmente os clubes masculinos ainda serão seguros.
A Nicarágua e os seus aliados representam uma lufada de ar fresco num mundo dominado pelo Império norte-americano. O governo dos Estados Unidos reconhece que a alternativa representada pela Nicarágua é um perigo e ameaça o governo Ortega, ainda que alguns universitários sejam menos perspicazes.


*Membro da direcção do Grupo de Trabalho sobre as Américas, organização anti-imperialista defensora dos direitos humanos, fundada há 32 anos

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