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O BRASIL, AS NARRATIVAS “FAKE” E A ORDEM NEOLIBERAL

O assassínio de Marielle Franco, uma prova de como a disseminação de "fake news" é uma actividade criminosa

2018-10-12

Franklin Frederick, JornalGGN/O Lado Oculto

As “fake news” (notícias falsas)  são um fenómeno bastante importante e, com razão, tem sido amplamente discutidas e denunciadas. Igualmente importantes, porém, são as narrativas “fake” e estas não têm recebido a devida atenção crítica. O que distingue as “fake news” das narrativas “fake”  é a duração no tempo: enquanto as “fake news” são episódicas, as narrativas “fake” impõem-se como “verdades” durante longos períodos de tempo, muitas vezes incorporando-se na própria cultura.

As “fake news” podem, claro, ter efeitos destrutivos a longo prazo mas, em si mesmas, são passageiras. Já as narrativas “fake” funcionam como uma referência permanente quase inconsciente, aquilo que tomamos como “evidente” e que não precisa de ser questionado. A “inferioridade” da mulher, por exemplo, é uma narrativa “fake” que nos acompanha há alguns milhares de anos e sobre a qual assenta toda a estrutura patriarcal. Historicamente, apenas recentemente esta narrativa “fake”  vem sendo questionada e superada. A “superioridade”  da “raça branca”  é outra narrativa “fake”  que nos acompanha há algumas centenas de anos, tendo justificado, por um lado, a escravatura e a exploração económica de negros e indígenas, gerando, por outro lado, o racismo. O mais importante é compreender que a ordem capitalista neoliberal e as hierarquias socias dela decorrentes dependem fundamentalmente, para a sua manutenção, destas narrativas “fake”. O movimento profundo do nosso tempo porém é no sentido de questionar e superar estas narrativas “fake”, colocando em risco todo o “establishment” actual  e o próprio sistema capitalista. A reacção desesperada da ordem neoliberal a este desafio colocado pela sociedade é a de tentar reafirmar e  impôr, por todos os meios possíveis, as narrativas “fake”  como “verdades”  inquestionáveis.
Nos EUA, por exemplo,  a eleição de Donald Trump revela claramente o  desespero da narrativa “fake” da “supremacia branca” - e de tudo dela decorrente - para se manter no poder. No Brasil, as igrejas pentecostais e as forças em torno do candidato Jair Bolsonaro são os principais instrumentos de imposição de narrativas “fake”  que já deveriam ter sido abandonadas há muito tempo, como, por exemplo, nas questões de género e de sexualidade. A luta que se trava no Brasil, hoje, é entre estas diversas narrativas “fake”  que tentam travar e impedir o progresso social e as novas narrativas que estão a construir-se em todo o mundo. Neste contexto, o assassinato de Marille Franco talvez seja o símbolo maior desta luta, pois Marielle era a expressão pública mais completa deste movimento profundo de nosso tempo para desafiar e questionar as narrativas “fake” ainda enormemente difundidas no Brasil – narrativas “fake” sobre um “tradicional papel da mulher”, sobre género, sobre política. O assassinato de Marielle é também a tentativa de assassinar o novo, de impedir o movimento de libertação da sociedade e da cultura do peso das narrativas “fake” e das suas consequências. Marielle Franco é um desafio permanente ao sistema das narrativas “fake”, daí a hostilidade das forças reaccionárias à sua memória.

O significado da histeria antipetista

O antipetismo (de anti-PT) histérico que tomou conta de grande parte do país ultimamente foi construído em cima de uma prévia narrativa “fake”  sobre o comunismo – e a esquerda em geral – presente na nossa cultura há mais de cem anos. Como escreveu a activista norte-americana Angela Davis na sua autobiografia:
“O impacto psicológico do anticomunismo sobre as pessoas comuns neste país (EUA) é muito profundo. Há alguma coisa na palavra “comunismo” que, para as pessoas não esclarecidas, invoca não apenas o inimigo, mas também algo imoral, algo sujo.”
É exatamente assim que muita gente hoje no Brasil reage ao PT – como algo imoral e sujo.  Este antipetismo não poderia ter sido contruído tão facilmente no imaginário social brasileiro se esta narrativa “fake”  sobre o comunismo já não estivesse há décadas  presente na nossa cultura, com os mesmos efeitos descritos por Angela Davis.
Várias “fake news”  tem o objectivo de reforçar narrativas “fake” e, por outro lado, muitas “fake news”  dependem, para a sua credibilidade, de narrativas “fake” como referência ou como pano de fundo. Deste modo, o combate às “fake news”  passa necessariamente pelo combate às narrativas “fake”; porém, salvo algumas excepções, estas têm permanecido virtualmente intocadas.
Como afirmei anteriormente, as narrativas “fake” são fundamentais para a manutenção do sistema capitalista e da ordem neoliberal. Exactamente por isso, as “fake news”  são o instrumento utilizado pelas forças políticas comprometidas com a manutenção ou  com a expansão da ordem neoliberal para alcançar e se perpetuar no poder. A verdade sobre a ordem neoliberal – o seu profundo desprezo pela democracia, pelo meio ambiente e pela própria sociedade – não tem nenhum atractivo popular, muito pelo contrário. Sendo assim, partidos ou movimentos políticos comprometidos com o neoliberalismo não podem, por definição, dizer a verdade sobre si mesmos e os seus objectivos.O uso de “fake news”  - ou da violência – são as suas únicas alternativas. A ordem neoliberal só pode manter-se através da mentira – narrativas “fake” e “fake news” – ou da violência.

As falsas verdades do capitalismo

Entre as diversas narrativas “fake”  impostas à sociedade  para impedir a sua evolução e submetê-la à ordem neoliberal,  três parecem-me ser as principais:
1- Que o capitalismo – via mercado - é o único modo “racional” de organização da economia e o único caminho para o desenvolvimento económico e social.
2- Que países como a Inglaterra e os Estados Unidos se desenvolveram justamente por serem uma economia de livre mercado.
3- Que os Estados Unidos defendem a democracia e os direitos humanos.
Destas narrativas “fake” decorrem várias outras, como, por exemplo, a de que capitalismo e  democracia são compatíveis.
Sobre o ponto 1 deve reconhecer-se que uma das grandes conquistas do capitalismo foi a de construir para si mesmo uma imagem de “racionalidade”, quando o que é mais óbvio, em qualquer análise sobre o funcionamento REAL do sistema capitalista, é justamente a sua profunda irracionalidade, o seu desperdício intrínseco de recursos naturais e humanos, a sua profunda hostilidade por qualquer forma de organização racional da economia que não coloque o lucro acima de qualquer consideração. É justamente a irracionalidade do sistema capitalista, levada ao seu extremo pela ordem neoliberal,  que actualmente põe em risco a própria sobrevivência do planeta. Poluição química de solos e água pelo uso de pesticidas; aquecimento global; extinção em massa  de diversas espécies de animas, plantas e insectos; erosão de direitos sociais duramente conquistados; risco de guerras com o uso de artefactos nucleares; aumento da pobreza e concentração de riqueza sem precedentes na história humana: estas são apenas algumas das consequências actuais da “racionalidade” do sistema capitalista.
Que haja outros modos de organizar a economia e de promover o desenvolvimento social e económico é um facto que, por definição, não pode ser aceite dentro desta narrativa “fake”  que tem o único propósito o de continuar a manter o poder – e os benefícios – dos defensores da ordem neoliberal, com os Estados Unidos à cabeça.
Sobre o ponto 2, qualquer história séria da economia mostra que, ao contrário de se entregarem ao livre mercado e à “sabedoria”  do sector privado, a Inglaterra e os Estados Unidos desenvolveram-se graças a um proteccionismo exarcebado da indústria nacional e de forte investimento do Estado em sectores fundamentais como a metalurgia e a rede ferroviária. Tanto a Inglaterra como os Estados Unidos só se entregaram ao “livre mercado” quando as suas economias estavam desenvolvidas a ponto de praticamente não haver competição para os seus produtos – mas voltaram a adoptar medidas proteccionistas assim que se viram ameaçados pelo desenvolvimento de outros países. É flagrante que NENHUM país se desenvolveu seguindo os preceitos do livre mercado, mas apenas dentro da visão imposta por esta narrativa “fake”. Como acontece com todas as narrativas “fake”, o objetivo é, mais uma vez, IMPEDIR o desenvolvimento e manter a dominação económica dos EUA e da sua ordem neoliberal. O eminente historiador norte-americano Gabriel Kolko descreveu assim esta narrativa “fake”  do livre mercado no livro “After Socialism” (Depois do Socialismo):
“Nenhuma teoria leva em consideração como e por quê os mecanismos de mercado que os ideólogos descrevem e, principalmente, prescrevem para outros, simplesmente não existem nos países desenvolvidos.(...) Ideologicamente, Washigton favorece o “livre mercado”  e é contra o facto de outras nações darem subsídios ou manterem a propriedade de sectores das suas economias. Os EUA farão esforços quixotescos para conseguir que outros países ou regiões adoptem o “livre mercado”  e privatizem sectores vitais como o do petróleo. Washington tem uma fé essencialmente religiosa nas alegadas virtudes da doutrina do “livre mercado” mas na prática (...) O Governo Federal vai subsidiar grandes sectores económicos politicamente bem colocados – desde produtores de equipamentos militares até grandes produtores agrícolas, juntamente com menos impostos para os ricos (...) Os Estados Unidos são os principais violadores dos princípios do livre mercado.”
Por fim, a narrativa “fake” de que os Estados Unidos defendem e promovem a democracia e os direitos humanos encontra-se de tal maneira arraigada na nossa cultura e é tão fundamental para a manutenção da ordem neoliberal internacional que questioná-la equivale a cometer o maior de todos os pecados, a maior de todas as blasfémias! Mas, neste caso, o contraste entre a narrativa “fake” e a realidade histórica é tão flagrante que se torna mesmo surpreendente que, apesar de todas as evidências em contrário, a narrativa “fake” ainda prevaleça, sendo  por isso mesmo a maior prova da eficácia das narrativas “fake”  em distorcerem a percepção da realidade. O facto é que em inúmeros casos os EUA intervieram para derrubar governos democraticamente eleitos e se aliaram com alguns dos piores regimes autoritários e genocidas com o objectivo de defender os interesses de suas corporações e a “estabilidade” da ordem capitalista.
 Uma pequena lista, longe de ser exaustiva, destas intervenções, será suficiente para  mostrar a realidade por detrás desta narrativa “fake”. Comecemos, devido ao seu simbolismo na América Latina, pelo golpe que derrubou o Presidente eleito da Guatemala, Jacobo Arbenz, em 1954. Passo a citar aqui passagens do livro “Killing Hope” ( Matando a Esperança – um título bem apropriado!) de William Blum, que renunciou ao seu cargo no Departamento de Estado dos EUA em 1967 devido à sua oposição à guerra do Vietnam.
“A quem pode recorrer uma pobre república de bananas quando um exército da CIA  invade o seu território e aviões da CIA  bombardeiam o país?” – pergunta William Blum.
“Os líderes da Guatemala tentaram tudo – as Nações Unidas, a OEA, outros países, a imprensa internacional e até mesmo os próprios EUA, na desesperada esperança de que tudo não fosse mais do que um mal entendido e que, no final, a razão prevaleceria. Nada ajudou. Dwight Eisenhower, John Foster Dulles e Allen Dulles haviam decidido que o Governo legalmente eleito de Jacobo Arbenz era “comunista” e portanto tinha que ser deposto. (...) Durante os preparativos (dos EUA) para derrubar o governo, o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Guatemala, Guillermo Toriello, lamentou que os Estados Unidos considerassem como “comunista” toda manifestação de nacionalismo ou independência económica, qualquer desejo de progresso social, qualquer curiosidade intelectual e qualquer interesse em reformas liberais progressistas.”
Desde então este quadro não mudou e as sucessivas intervenções dos EUA seguiram o mesmo padrão: impedir o desenvolvimento nacional e a independência económica dos países sob a sua esfera de influência, até ao golpe no Brasil e a prisão do Presidente Lula, condenado por ter ousado levar por diante uma política de desenvolvimento nacional e independência económica.
Ao golpe na Guatemala seguiram-se, entre outros, o  golpe e o assassinato de Patrice Lumumba no Congo em 1964, o golpe no Brasil também em 1964, Ghana em 1966 – derrubando o governo de Kwame Nkrumah – o golpe no Chile contra o governo eleito de Salvador Allende em 1973, sem mencionar o apoio à sangrenta ditadura militar na Argentina, o apoio à ditadura do general Pinochet ainda no Chile, à ditadura de Ferdinando Marcos nas Filipinas... a lista é longa. O objectivo é sempre o mesmo: proteger os interesses das corporações norte americanas e evitar o desenvolvimento nacional através de  violações de direitos humanos , torturas e assassinatos em larga escala.
A submissão ou a independência
Não nos podemos enganar. Nas próximas eleições no Brasil a escolha será entre a submissão a estas narrativas “fake” e a consequente consolidação do Brasil como uma nova colónia ou um projeto de nação soberana e independente. Como o candidato Jair Bolsonaro e as forças que o apoiam não podem reconhecer publicamente que o seu projecto é entregar as riquezas naturais e os bem públicos do país à rapina do capital internacional e transformar o Brasil definitivamente numa nova colónia, aí está uma enxurrada de “fake news” de proporções bíblicas para continuar convencer os seus eleitores, distanciando-se de qualquer discurso racional e apoiando-se cada vez mais na mentira, no ódio e na violência intrínsecas ao seu projecto político de submissão completa à ordem neoliberal.
Neste outro artigo  tentei mostrar as relações entre os EUA e o fascismo na América Latina. Só será possível derrotar o fascismo que alastra no Brasil e combater eficazmente suas “fake news”  desafiando as narrativas “fake”  que o alimentam e legitimam.
O projecto de um Brasil como uma nação livre, independente e soberana, com desenvolvimento económico e social, só é possível libertando o país das amarras das narrativas “fake”  que o tem subjugado até agora. Cabe-nos construir com alegria, solidariedade e justiça a nossa própria narrativa, tomar o controlo do nosso destino e escrever a nossa própria história.

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