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O LADO OCULTO - Jornal Digital de Informação Internacional | Director: José Goulão

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UMA PRESIDENTE DO BCE COM CADASTRO MANCHADO

Christine Lagarde, a então directora do FMI no banco dos réus em Paris. Desfecho peculiar: culpada mas não condenada

2019-11-02

Michel Chossudovsky, Global Research; Adaptação de O Lado Oculto

Christine Lagarde, directora administrativa cessante do Fundo Monetário Internacional (FMI), é a nova presidente do Banco Central Europeu (BCE). O presidente francês, Emmanuel Macron, agindo em nome de poderosos interesses bancários, foi fundamental para a sua indicação. Muito elogiada pela comunicação social dominante, Lagarde é igualmente a favorita de Wall Street e da Reserva Federal (banco central) dos Estados Unidos. A imprensa omite, porém, que Lagarde é uma funcionária corrupta envolvida em fraude financeira. A presidente do BCE tem antecedentes criminais.

Estará por isso a Zona Euro em perigo? Tendo em conta o seu funcionamento tradicional, as tendências mais negativas deverão agravar-se. A fraude financeira está incorporada no mais elevado nível de tomada de decisões políticas e económicas. Um funcionário em posição elevada com antecedentes criminais é facilmente manipulado. Esta circunstância afectará, indubitavelmente, a maneira como Lagarde administrará o BCE, com impacto possível na própria política monetária.

A designação de Lagarde para chefiar o BCE não tem sido motivo para debate ou preocupações. Os cidadãos da União Europeia simplesmente não foram substancialmente informados da sua essência como burocrata servidora de grandes interesses. Christine Lagarde é um instrumento obediente do establishment financeiro e bancário que controla o FMI e o BCE. E o Parlamento Europeu não tem nada contra.

“Negligência” é eufemismo

Em 20 de Dezembro de 2016, um tribunal francês condenou a então directora administrativa do FMI por “negligência” em relação a uma fraude milionária cometida quando era ministra das Finanças de França, em 2008. Lagarde foi considerada culpada de ter aprovado “um prémio de 404 milhões de euros transferido para o empresário Bernard Tapie (um amigo do então presidente Sarkozy) pela disputada venda de uma empresa” – a Adidas. Após uma semana de julgamento em Paris, os juízes consideraram Lagarde culpada “por negligência” ao não contestar a arbitragem que determinou o pagamento pelo Estado francês da citada verba a Tapie, o amigo do presidente francês.

A directora administrativa do FMI, porém, não recebeu sentença e não foi punida. O Tribunal de Justiça da República, instituição especial para titulares de órgãos de poder, poderia ter condenado Lagarde a um ano de prisão e a uma multa de 13 mil euros.

Portanto, Lagarde foi considerada “culpada” mas não recebeu a potencial sentença de um ano de prisão. Como em França - e outros países - os criminosos ocupando cargos elevados recebem tratamento especial, Lagarde fora habilmente acusada de “negligência” e não de “cumplicidade” numa fraude multimilionária que lesou o Estado francês, do qual era ministra, e os contribuintes franceses.

Pelo contrário, numa significativa ironia, Lagarde foi muito mais recompensada do que penalizada. Apesar destes antecedentes, a então ministra passou para directora do FMI e agora para presidente do BCE.

E após o julgamento, em 2016, apesar da gestão de Lagarde à cabeça do FMI ser um absoluto desastre, o Conselho Executivo do Fundo manifestou “total confiança” na sua liderança. O registo desta reunião não foi tornado público.

Sem comentários. O Conselho Europeu confirmou a sua designação para o BCE em Julho passado.

Equador, o modelo Lagarde

Depois desta designação, em plena transição de Christine Lagarde do FMI para o BCE, explodiram os protestos sociais no Equador, provocados por imposições do Fundo.

Em Janeiro deste ano, Lagarde encontrara-se com o presidente equatoriano, Lenin Moreno, no Fórum Económico Mundial em Davos, Suíça. Dois meses depois foi concluído o “pacote” de reformas económicas letais a aplicar ao povo equatoriano.

Enquanto o presidente anterior do Equador, Rafael Correa, denunciara o FMI e o Banco Mundial como “vampiros neocolonialistas que querem sugar a soberania dos pequenos países”, Moreno abraçou completamente a agenda neoliberal do FMI.

Em Março de 2019 começou a ser aplicado um acordo de falso empréstimo de 4200 milhões de dólares do FMI ao Equador, agravando a pobreza em massa através de reduções salariais, impondo despedimentos de professores e profissionais de saúde, uma onda de privatizações de serviços sociais e criando um processo de inflação deliberado que conduziu a um colapso generalizado do poder de compra.

O FMI tem um longo histórico de criação de pobreza e destruição de estruturas económicas de Estados através dos chamados “Programas de Ajustamentos Estruturais”, que consistem na imposição de reformas macroeconómicas drásticas como condição para um suposto alívio da dívida. O método afecta mais de cem países em vias de desenvolvimento.

Numa União Europeia que não hesita na aplicação de receitas neoliberais e dentro da qual o próprio FMI é um dos patronos das estratégias oficiais de austeridade, a chegada de Lagarde ao BCE pode aprofundar as metodologias ortodoxas do FMI em todos os Estados membros. 

Um cenário de reforço do empobrecimento nos países menos desenvolvidos da União e a generalização de reformas económicas brutais estão na bagagem de Lagarde na viagem de Washington para Frankfurt. 

Além disso, sob o comando de Lagarde o BCE irá incrementar a dolarização do euro, sem mencionar a manipulação fraudulenta dos mercados monetários, outra via para fazer empobrecer as pessoas.

Uma chegada pouco limpa ao FMI

O currículo de Lagarde revela que a nova presidente do BCE não é uma simples tecnocrata programada para aplicar a seco as medidas do fundamentalismo neoliberal.

Já foi abordado o seu papel – comprovado mas impune - na espoliação de centenas de milhões de dólares dos contribuintes franceses em favor de um empresário privado; a sua chegada à direcção do FMI também não está isenta de circunstâncias polémicas.

Para que isso acontecesse foi fundamental o escândalo sexual que afectou o então presidente administrativo do Fundo, o francês Dominique Strauss Khan, também potencial candidato à presidência francesa – em vez de François Hollande.

A comunicação social centrou-se na história da empregada de um hotel de Nova York e suposta vítima de abusos por parte do presidente do FMI; no entanto, pouco investigou sobre o enquadramento político de bastidores.

Não existiam provas concretas contra Strauss Khan, o que era conhecido pelos procuradores desde o início das investigações. No entanto, Christine Lagarde foi nomeada para o substituir e, três dias depois de confirmada no cargo, foram retiradas as acusações ao presidente afastado. O relatório do procurador público, Cyrus Vance Jr., ilibando Strauss Khan das acusações que deram origem ao escândalo, foi divulgado, de facto, três dias depois de Lagarde ser empossada.

Se as decisões tivessem sido anunciadas antes, a nomeação de Christine Lagarde teria sido posta em causa.

Cyrus Vance Jr., filho do antigo secretário de Estado norte-americano Cyrus Robert Vance, é conhecido por ser muito amigo do ex-presidente francês Nicolas Sarkozy, que terá desempenhado um papel nos bastidores contra Strauss Khan, tirando igualmente proveito das suas afinidades, desde a juventude, com o sistema de poder norte-americano.

O escândalo montado contra Strauss Khan teve, objectivamente, duas consequências práticas: facilitou uma mudança de regime dentro do FMI, pretendido pelos interesses que o dirigem; e um forte e bem colocado candidato às eleições presidenciais francesas ficou fora da corrida.

Ora o Banco Central Europeu, como suposto instrumento de desenvolvimento económico e social, foi sequestrado. A política monetária foi, de facto, privatizada; o presidente da instituição é manipulado por grandes interesses financeiros, os quais, sem qualquer dúvida, estiveram por trás da decisão do Conselho Europeu de nomear Christine Lagarde.

Mais uma vez, como é norma na União Europeia, os cidadãos europeus foram ignorados, inclusivamente pelo próprio Parlamento Europeu. Dificilmente se encontraria uma figura tão pouco recomendável para a cabeça do Banco Central Europeu do que Christine Lagarde.

 

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