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O LADO OCULTO - Jornal Digital de Informação Internacional | Director: José Goulão

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A CONSPIRAÇÃO PARA MINAR O PAPADO DE FRANCISCO

O cardeal norte-americano Raymond Burke, eminência nada parda na conspiração que envolve, por exemplo, o Papa Ratzinger (Bento XVI) e o chefe de campanha de Trump, o fascista Steve Bannon

2019-10-26

Wayne Madsen, MintPress News/O Lado Oculto

No momento em que o cardeal argentino Jorge Bergoglio foi eleito como o primeiro pontífice católico romano jesuíta da história papal, longas facas políticas visando o Papa Francisco I emergiram das sombras do Vaticano. Desde o início do papado, Francisco viu-se obrigado a lidar com o seu antecessor direitista, o papa Bento XVI – uma situação rara nos anais pontifícios – que insistiu em continuar a morar num apartamento situado no território do Vaticano. Bento não se limita a gozar uma reforma tranquila: conspira contra Francisco envolvendo pessoas e entidades influentes no Vaticano, em Itália, nos Estados Unidos e em outros países.

O presidente norte-americano Donald Trump, que criticou publicamente o Papa Francisco, não age directamente mas tem quem o substitua, designadamente o seu ex-estratego de campanha, Steve Bannon; o cardeal Raymond Burke, ex-arcebispo de St. Louis; o arcebispo Carlo Maria Vigano, ex-núncio apostólico nos Estados Unidos. Outros conspiram juntamente com a poderosa seita Opus Dei, de orientação fascista, para minar a autoridade de Francisco. Os olhos e ouvidos de Trump dentro do Vaticano são os da embaixadora norte-americana na Santa Sé, Callista Bisek Gingrich, esposa de Newt Gingrich, ex-presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos pelo Partido Republicano, um convertido ao catolicismo e importante aliado político do actual presidente.

Francisco, um antigo segurança de um bar num bairro da classe trabalhadora de Buenos Aires, não se tem encolhido para lutar contra os seus inimigos de direita e fundamentalistas. Os pais de Francisco emigraram para a Argentina escapando ao regime fascista de Benito Mussolini. Para Francisco, defender a Igreja contra o Opus Dei fascista e seus aliados é uma batalha que vale a pena travar.

Os inimigos de Francisco recorrem à cartilha política de Trump. O actual Papa prometeu limpar a Igreja de padres e religiosos pedófilos, mas é atacado por Burke, Vigano, Bannon, o Opus Dei, o grupo dos Imaculados dentro dos Franciscanos e também – nos bastidores - por Ratzinger (Bento XVI) por tolerar pedófilos e homossexuais na Igreja. Este é o tipo de manobras a que os norte-americanos se habituaram com Trump.

A teia da Ordem de Malta

Com o objectivo de limitar o alcance da actividade internacional do cardeal Burke, Francisco suspendeu-o do cargo de patrono da Ordem Militar Soberana de Malta (OMSM), entidade internacional autónoma em Roma, com funções caritativas, que emite os seus próprios passaportes e mantém relações diplomáticas com 107 países, além de ter estatuto de observador nas Nações Unidas.

Em 2017, o Papa agiu em defesa do Grande Chanceler da Ordem de Malta, o aristocrata alemão Albrecht von Boeselager, depois de ter apurado que Burke e o Opus Dei conspiravam para o afastar do cargo. A razão invocada contra o Grande Chanceler foi o de este permitir projectos médicos que incluíam a distribuição de preservativos em Mianmar. Francisco suspendeu Burke e nomeou o arcebispo Angelo Becciu como seu enviado especial junto da ONSM. Tem agora a certeza de que com Boeselager e Becciu funcionando como os seus olhos e ouvidos dentro da Ordem de Malta, os direitistas e o Opus Dei atrever-se-ão menos a usar as delegações diplomáticas desta instituição para os seus próprios fins.

Francisco proibiu também os franciscanos fundamentalistas do grupo Imaculados de continuarem a rezar missas públicas em latim.

Numa outra medida através da qual tenta limitar o poder fundamentalista dentro do Estado do Vaticano, o Papa nomeou o cardeal hondurenho Óscar Rodrigues Maradiaga como uma espécie de seu representante nas actividades para reduzir a influência da facção pró-Ratzinger na hierarquia do Vaticano e para tentar extirpar as raízes da pedofilia, das fraudes financeiras e da lavagem de dinheiro através dos mecanismos do Estado pontifício.

Numa entrevista ao jornal italiano La Repubblica, Francisco afirmou que as autoridades católicas romanas sofrem de “narcisismo”, gostam “de ser lisonjeadas e aduladas pelos seus cortesãos. “A Curia vaticana”, disse, “é a lepra do papado”.

O decisivo 1º de Outubro

No passado dia 1 de Outubro, o Papa deu instruções às autoridades policiais do Vaticano para apreenderem documentos, computadores e outros dispositivos electrónicos, incluindo os portáteis, da Secretaria de Estado do Vaticano e da Autoridade de Informações Financeiras, o órgão fiscalizador das finanças no Estado pontifício. Além da investigação nestes dois órgãos, Francisco também colocou o Instituto das Obras Religiosas (IOR), vulgarmente conhecido como “Banco do Vaticano”, sob apertada supervisão e controlo mais rigoroso.

O Instituto das Obras Religiosas tem uma longa e polémica história de actividades nada piedosas como a falência fraudulenta do Banco Ambrosiano e operações secretas, incluindo o financiamento de grupos terroristas manipulados pela CIA tanto na chamada “estratégia de tensão” – nos anos setenta e oitenta em Itália – como no apoio a esquadrões da morte na América Latina, por exemplo a Aliança Anticomunista Argentina ou “Triple A”.

Acção contra “Universidade” fascista

A acção do Papa Francisco também tem sido fundamental para dificultar a utilização do Mosteiro de Certosa di Trisulti, do século XIII, como academia para treino de agentes fascistas oriundos de todo o mundo. 

A organização transnacional neofascista “O Movimento”, criada pelo norte-americano Steve Bannon e com sede em Bruxelas, estabeleceu um acordo com um grupo ligado ao cardeal Burke, o Institute of Human Dignity ou Dignitatis Humana Institute, para alugar o mosteiro de 800 salas como centro de formação política. O cardeal Burke é o presidente do Conselho Consultivo do Instituto, facto que que estabelece um vínculo directo entre Bannon e este dignitário religioso norte-americano. Onze cardeais integram o Conselho Consultivo, todos eles opositores do Papa Francisco. Na lista figuram, nomeadamente, Walter Brandmuller; Edwin O’Brien, ex-arcebispo das forças militares dos Estados Unidos e defensor da “guerra justa”; Robert Sarah, ex-arcebispo da Guiné-Conacri e um opositor dos movimentos migratórios; Peter Turkson, do Gana; arcebispo Malcom Ranjith, de Colombo, Sri Lanka, um defensor da intervenção militar dos Estados Unidos na Síria; e Joseph Zen Ze-kiun, ex-bispo de Hong Kong e um dos principais adversários da administração chinesa no território. Benjamin Harnwell, um destacado católico conservador britânico, é o presidente do Conselho de Administração do instituto; Steve Bannon é membro do Conselho de Administração e patrono da mesma instituição. 

Bannon baptizou o centro de formação fascista como Academia para o Ocidente Judaico-Cristão. O Institute of Human Dignity e as suas ligações britânicas fazem crer que esteja politicamente associado à cada vez mais poderosa ala católica do Partido Conservador britânico. O primeiro-ministro Boris Johnson foi baptizado católico e o actual presidente da Câmara dos Comuns, Jacob Rees-Mogg, está filiado nos círculos católicos de direita. Não é normal que dois cargos tão fundamentais nas instituições políticas britânicas sejam exercidos por personalidades exteriores à Igreja Anglicana. 

O Papa Francisco considera, desde as movimentações iniciais, que o centro de formação de Bannon tem como alvos as forças progressistas em todo o mundo, por um lado, e também o seu papado, por outro. Entretanto, o presidente da região italiana do Lazio – onde se situa o mosteiro – Nicola Zingaretti, contestou o contrato de arrendamento pelo grupo de Bannon. Zingaretti é membro da ala esquerda do Partido Democrático italiano.

Aquele que poderá vir a ser o golpe de misericórdia contra a academia fascista aconteceu no passado mês de Maio, quando foi descoberto que o fiador do arrendamento por 19 anos, alguém que se dizia funcionário do Jyske Bank de Gibraltar, forjou a carta de garantia do contrato, pelo que o respectivo ministério italiano anulou o arrendamento no dia 31 de Maio.

A carta forjada e as preocupações com fraudes financeiras, que levaram o Papa Francisco a determinar as investigações na Secretaria de Estado e no Banco do Vaticano, revelam que o fundamentalismo católico, incluindo o Opus Dei, está longe de admitir a derrota e mobiliza os meios necessários, mesmo que sejam ilegais.

Xeque a Salvini

Existem poucas dúvidas em Roma de que o Papa Francisco e os seus aliados se movimentaram intensamente para que o dirigente da “Liga”, Matteo Salvini, não conseguisse formar governo depois da queda da coligação entre o seu partido e o Movimento Cinco Estrelas. O facto é que o Partido Democrático e o Movimento Cinco Estrelas formaram um novo executivo e relegaram Salvini para a oposição.

Em Roma circula igualmente a informação de que Francisco nomeou o cardeal Pietro Parolin como encarregado especial do combate às influências neofascistas em Itália e em toda a União Europeia. Para o efeito, o Papa encontrou um importante aliado improvável no partido Forza Italia do ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi, agora um deputado do Parlamento Europeu.

Bannon, Burke e respectivos aliados nos círculos do fundamentalismo católico e do neofascismo apostaram em transformar um antigo mosteiro numa academia da extrema-direita e em controlar a Ordem de Malta e o próprio governo italiano. O Papa Francisco observou o jogo e reagiu. A sua acção enérgica remeteu as forças fascistas do Opus Dei, Bannon e Salvini para uma oposição agora mais enfraquecida. Moral da história: os fascistas não deverão subestimar um segurança, mesmo desempenhando outras funções. Francisco tem-se revelado tão eficaz em combater a extrema-direita e os seus polos de poder em Roma como quando expulsava bêbados arruaceiros de bares em Buenos Aires.



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