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CRÓNICA DE UM GOLPE EM CURSO NA BÓSNIA

Bakir Izetbegovic, da Presidência do protectorado da Bósnia-Herzegovina, reunido com a embaixadora dos Estados Unidos, Maureen Cormack, e o representante da União Europeia, Lars-Gunnar Wigemark

2018-10-05

Louise Nyman, Sarajevo

Os acontecimentos em curso nas vésperas das eleições gerais na República Sérvia da Bósnia-Herzegovina, marcadas para o próximo domingo, não mobilizam a comunicação social mainstream, o que se lamenta pois são exemplos excelentes dos métodos usados pelas chamadas democracias ocidentais para fabricarem os resultados que lhes sejam convenientes, mesmo que não correspondam à vontade expressa dos eleitores. Chantagens, infiltração de dezenas de espiões, canalização clandestina de milhões de dólares, pressões sobre dirigentes políticos são armas de ponta nesta guerra pela “democracia” conduzida pelas diplomacias das principais potências da Aliança Atlântica.

A República Sérvia da Bósnia-Herzegovina (República Sprska, com sede em Banja Luka), é uma das partes integrantes deste protectorado da NATO formatado pelas potências ocupantes e que ocupa 49% do território; a outra entidade é a Federação formada pela parte muçulmana e pela parte croata. O Alto Representante para “aplicação dos acordos de paz”, por coincidência também em representação da União Europeia, é o diplomata eslovaco Miroslav Lajcak. A sua maior preocupação do momento diz ser “o nacionalismo”, o que, no contexto regional, traduz uma sintonia com a conspiração para provocar uma mudança de regime em Banja Luka.
A República Sérvia da Bósnia é presidida por Miroslav Dodik, um político veterano que está sob sanções norte-americanas mas já foi considerado, pelas principais potências ocidentais, desde “moderado” a “nacionalista”. O seu governo resulta de uma coligação entre a aliança dos sociais-democratas independentes e organizações socialistas.
Há muitos meses que o ambiente político da Bósnia Herzegovina fervilha na perspectiva das próximas eleições no sector sérvio, notando-se cada vez maiores actividades externas para conseguir uma mudança de governo em Banja Luka. A presidência e o executivo de Dodik são considerados demasiado próximos da Rússia, embora as posições de Moscovo estejam alinhadas com os Acordos de Dayton que estruturaram a Bósnia Herzegovina tal como hoje existe.

O secretário geral da ONU sabe

Em Maio deste ano, por exemplo o governo sérvio da Bósnia apresentou provas ao secretário geral da ONU de que o Departamento de Estado norte-americano, através da habitual agência USAID, disponibilizou 12 milhões de dólares para financiar a comunicação social do território em favor dos candidatos da oposição a Dodik.
Na mesma altura, o secretário da Defesa britânico, Gavin Williamson, conhecido pela sua intervenção nas recentes encenações contra a Rússia, enviou cerca de 40 espiões para a região para interferirem no processo eleitoral em curso na República Sérvia da Bósnia.
Em Agosto, Washington enviou uma nova remessa de milhões de dólares, alegadamente destinados a objectivos “anticorrupção” e canalizados para “organizações não-governamentais” fomentadas pela oposição política ao governo. Ao mesmo tempo, a embaixadora dos Estados Unidos em Sarajevo, Maureen Cormack, intensificou as pressões junto do Departamento de Estado para que fossem impostas sanções contra Nicola Spiric, vice-presidente do Partido dos Sociais Democratas Independentes de Dodik, por suposta corrupção durante a campanha eleitoral de 2014. “Um movimento desesperado a 28 dias das eleições gerais para apoiar os fantoches de Sarajevo – a Aliança para a Mudança”, denunciou Spiric.
O que aconteceu, na realidade, foi uma tentativa para punir e desacreditar o vice-presidente do partido governamental por se ter recusado, segundo o próprio, a colaborar “com a agenda anti-sérvia dos serviços centrais de espionagem da Bósnia”, designadamente “integrando a comissão que pretende legalizar as escutas clandestinas que são realizadas à primeira ministra da República Sprska, Zelika Cvijanovic, ao próprio presidente da Sérvia, Alecsandar Vucic, e a outros membros do governo e funcionários” de Banja Luka e Belgrado. A primeira ministra da República Sprska já antes tinha acusado os serviços centrais de espionagem de manterem vigilância ilegal sobre pelo menos 70 funcionários do governo.

Presidente Sérvio adverte

Longe de ser um político do mesmo quadrante do governo de Banja Luka, o presidente da Sérvia, Alecsandar Vucic, tem contribuído para denunciar a envolvente anti-democrática do processo eleitoral na República Sprska.
Vucic promete que, uma vez realizadas as eleições, apresentará “evidências espantosas da mais brutal interferência de certas potências ocidentais nas eleições da República Sprska”.
Embora tentando manter incólumes as relações naturais com a Rússia, e também com a China, Vucic tem-se destacado pelo alinhamento com as posições que possam contribuir para facilitar a integração de Belgrado na União Europeia.
Porém, o presidente Vucic revelou, desde já, que alguns diplomatas de países da NATO têm chamado políticos da oposição ao governo de Banja Luka para os advertir de que se não mantiveram as suas posições até ao fim e colaborarem, de alguma forma, com as forças governamentais “poderão ser acusados de crimes reais ou imaginários”.
O processo de intervenção estrangeira está de tal modo enraizado que já se dá como certa, em Banja Luka, a continuação das acções de sabotagem do processo democrático, mesmo depois de 7 de Outubro. Por um lado, há que esperar tentativas para que as eleições sejam consideradas irregulares no caso de proporcionarem resultados de continuidade – o que significaria o falhanço da estratégia montada a partir de Sarajevo. Não é de excluir ainda a hipótese de virem a ocorrer processos de mobilização e violência nas ruas de Banja Luka, a exemplo do que aconteceu na Praça Maidan durante o golpe na Ucrânia, ou mesmo na vizinha Macedónia, por orquestração do então embaixador norte-americano em Skopje. Movimentos desse tipo têm vindo a ser ensaiados pontualmente. Sendo a Bósnia-Herzegovina um protectorado da NATO tornar-se-á ainda mais fácil tirar proveito dessas acções, para as quais não faltará financiamento.
O domínio da Bósnia-Herzegovina por interesses estrangeiros faz parte da história recente do país desde a desagregação da Jugoslávia, imposta igualmente através de uma guerra de agressão conduzida sob a tutela efectiva da NATO.
Mesmo as tímidas tentativas para encontrar soluções diferentes para a Bósnia do que aquelas que acabaram por vingar foram sumariamente abortadas. É o caso do acordo que esteve prestes a ser assinado em 1992 entre os sérvios e os muçulmanos do fundamentalista islâmico Alija Izetbegovic, sabotado por pressão junto deste efectuada directamente pelo embaixador norte-americano na Jugoslávia, Warren Zimmerman.
Ter-se-ia talvez evitado uma guerra que provocou mais de cem mil mortos, milhares de desalojados e traumas profundos nas comunidades da região. Evitar a perda de vidas, respeitar os direitos humanos não eram, porém, preocupações prioritárias dos Estados Unidos e respectivos aliados, e os resultados ainda hoje estão à vista.
A Bósnia-Herzegovina não passa de um protectorado, comandado por um Alto Representante estrangeiro, fiscalizado militarmente por tropas de outros países, regulado por um “tribunal constitucional” onde três juízes são estrangeiros e onde um povo vive o quotidiano submetido a uma teia burocrática inextricável.


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