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A MEMÓRIA APAGADA DO NASCIMENTO DA CHINA POPULAR

Neste parque de Huangpu, em Xangai, o imperialismo europeu e norte-americano proibiu "a entrada a cães e a chineses" durante os tempos coloniais

2019-10-06

Manlio Dinucci, Il Manifesto/O Lado Oculto

A China Popular não representa qualquer ameaça militar para o resto do mundo: não se considera a si mesma como uma potência conquistadora, mas perseverante. É neste sentido que devem ser entendidas as cerimónias do seu 70º aniversário. A China levantou-se politicamente e economicamente da agressão de que foi vítima no século XIX, mas a sua cultura não manifesta qualquer vontade de ajuste de contas com os outros.

Há 70 anos, no 1º de Outubro de 1949, Mao Tse-tung proclamou, na porta de Tien An Men, o nascimento da República Popular da China. O aniversário foi agora celebrado com uma parada militar em frente da histórica porta de Pequim. Da Europa ao Japão e aos Estados Unidos, os meios de comunicação social dominantes apresentam as comemorações como uma ostentação de força de uma potência ameaçadora. E praticamente não recordam os dramáticos episódios históricos que conduziram ao nascimento da Nova China.

Com a proclamação da China Popular desapareceu a China reduzida a um estado colonial e semicolonial, submetida, explorada e desmembrada desde meados do século XIX pelas potências europeias (Grã-Bretanha, Alemanha, França, Bélgica, Áustria e Itália), pela Rússia czarista, pelo Japão e os Estados Unidos. Com a China Popular apagaram-se os efeitos do sangrento golpe de Estado dado em 1927 por Chiang Kai-shek – apoiado posteriormente por Grã-Bretanha e Estados Unidos – que exterminou grande parte do Partido Comunista (formado em 1921) e massacrou centenas de milhares de operários e camponeses.

Ninguém recorda a “Grande Marcha” do Exército Vermelho que, iniciada em 1934 como uma retirada desastrosa, foi depois transformada num dos grandes feitos político-militares da história.

As evocações feitas pelos grandes meios de comunicação esquecem-se também da guerra de agressão contra a China desencadeada pelo Japão em 1937: as tropas nipónicas ocuparam Pequim, Xangai e Nanquim, massacrando mais de 300 mil civis nesta cidade enquanto mais de dez outras cidades foram atacadas com armas biológicas. Ignoram a história da Frente Unida Anti-japonesa, que o Partido Comunista formou com o Kuomitang: as tropas do Kuomitang, armadas pelos Estados Unidos, combatendo por um lado os invasores japoneses e, por outro, sujeitando a embargos as zonas libertadas pelo Exército Vermelho de modo a que a ofensiva japonesa se concentrasse sobre elas; o Partido Comunista, que passou de 40 mil a 1,2 milhões de membros, guiou as forças populares de 1937 a 1945 numa guerra que foi desgastando cada vez mais o exército nipónico.

“Entrada proibida a cães e a chineses”

Os media dominantes não reconhecem o facto de a Resistência chinesa, que sofreu mais de 35 milhões de mortos, ter contribuído de maneira determinante para a derrota do Japão que, batido pelos Estados Unidos no Pacífico e pela União Soviética na Manchúria, se rendeu (aos Estados Unidos) em 1945 depois dos bombardeamentos atómicos de Hiroxima e Nagasaki. Esconde-se o que aconteceu imediatamente com a derrota do Japão: segundo um plano elaborado em Washington, Chiang Kai-shek tentou repetir o que tinha feito em 1927, mas suas forças, armadas e sustentadas pelos Estados Unidos, encontraram pela frente um Exército Popular de Libertação com cerca de um milhão de homens e uma milícia de 2,5 milhões escudados por um forte apoio popular. Cerca de oito milhões de soldados do Kuomitang foram mortos ou capturados e Chiang Kai-shek fugiu para Taiwan sob protecção norte-americana.

Eis um resumo muito sintético do percurso que conduziu ao nascimento da República Popular da China há 70 anos. Uma história raramente abordada, ou mesmo nunca tratada nos manuais escolares dos países da União Europeia, marcados por uma visão eurocêntrica e restrita do mundo cada vez mais anacrónica. Uma história deliberadamente apagada por políticos e fazedores de opinião porque deixa claros os crimes do imperialismo, sentando no banco dos réus as potências europeias, o Japão e os Estados Unidos: as “grandes democracias” que se autoproclamam juízes supremos com o direito de definir, com base na força dos canhões, que países são democráticos ou não.

Já não vivemos, porém, na época das “concessões” (zonas urbanas sob administração estrangeira) que as potências impunham à China, nos tempos em que no parque de Huangpu, em Xangai, era “proibida a entrada a cães e a chineses”.


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