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NETANYAHU PERDEU, MAS AINDA MEXE…

Netanyahu, Lieberman, Gantz: a chave do governo israelita está aqui, sempre nas mãos da extrema-direita

2019-09-21

Jonathan Cook, Nazaré; The National/O Lado Oculto

Para a maioria dos israelitas, as eleições gerais de terça-feira, 17 de Setembro, tiveram a ver com uma e só coisa. Não foi a economia, nem a ocupação, nem mesmo os escândalos de corrupção. As eleições foram sobre Benjamin Netanyahu. Ser-lhe-ia dada a possibilidade de chefiar um novo governo de extrema-direita ou, pelo contrário, o seu consulado de dez anos de divisionismo chegaria ao fim?

Ao que tudo indica, apurados os resultados, os israelitas deixaram um veredicto claro: o tempo de Netanyahu acabou. Mas será assim na prática?

Nas eleições inconclusivas realizadas em Abril deste ano, e que determinaram a realização desta nova consulta, o partido Likud de Netanyahu empatou com o seu principal rival, o Partido Azul e Branco, chefiado pelo general na reserva Benny Gantz. Desta feita Gantz ganhou, com 33 lugares contra 31 de Netanyahu num Parlamento de 120 membros. Qualquer dos partidos teve um desempenho pior do que o registado em Abril, acto eleitoral em que alcançaram 35 deputados cada.

Acossado pela Justiça

De modo ainda muito mais significativo, Netanyahu ficou aquém da maioria de 61 votos de que necessita para formar outro governo de extrema-direita com base numa coligação com os colonos e os partidos fundamentalistas religiosos.

O fracasso de Netanyahu é ainda mais evidente, uma vez que conduziu, de longe, a mais feia e imprudente campanha da história de Israel. De facto, as apostas eram muito altas.

Apenas um governo de extrema-direita – totalmente dependente de Netanyahu – poderá aprovar legislação que lhe garanta imunidade perante um processo judicial que deverá começar no próximo mês. Se tal não acontecer, o actual primeiro-ministro poderá ser indiciado no quadro de várias acusações de fraude e corrupção.

Netanyahu tem estado de tal maneira desesperado em evitar esse destino que, de acordo com relatos publicados na comunicação social israelita no próprio dia das eleições, esteve a um passo de iniciar uma guerra em Gaza na semana anterior, com o objectivo de adiar as eleições.

O procurador-geral israelita, Avichai Mendelbit, interveio para evitar o ataque quando descobriu que o gabinete de segurança do governo já o tinha aprovado depois de Netanyahu lhe ter ocultado as principais objecções do comando do exército.

O primeiro-ministro em exercício também tentou subornar os eleitores de direita prometendo, na semana anterior às eleições, que iria anexar grande parte da Cisjordânia logo a seguir à votação – um golpe que violou descaradamente as normas de campanha, segundo Mendelbit.

Durante a campanha, o Facebook foi forçado a encerrar a página de Netanyahu em duas ocasiões por utilização de discurso de ódio – num dos casos depois de escrever numa mensagem que os “árabes querem aniquilar-nos a todos, mulheres, crianças e homens”. A manobra pretendia atingir os 20% da população israelita que têm origem palestiniana.

Netanyahu atacou a minoria palestiniana do país de várias outras maneiras, sobretudo sugerindo repetidamente que os seus votos são uma fraude e acusando-a de “roubar a eleição”.

Tentou inclusivamente impor uma lei permitindo a activistas do seu partido Likud filmarem as assembleias de voto árabes – como fizeram secretamente nas eleições de Abril – numa tentativa de intimidação dos eleitores.

O tiro parece ter-lhe saído pela culatra: os cidadãos de origem palestiniana compareceram agora em maior número e a sua lista conjunta conquistou 13 lugares no Parlamento, tornando-se a terceira força política do país a seguir ao Likud e ao Azul e Branco.

Enquanto isso, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, interveio em socorro de Netanyahu anunciando a possibilidade de um pacto de defesa com Israel nos termos do artigo V da NATO, o que significaria a possibilidade de os Estados Unidos intervirem militarmente ao lado de Israel no caso de um confronto regional.

Nada disso ajudou Netanyahu.

Frenética barganha política

A única esperança de sobrevivência política de Netanyahu – e possível fuga à prisão – relaciona-se agora com as suas artes mágicas políticas que o celebrizaram.

O que pode, no entanto, ser uma tarefa difícil. Para atingir a necessária maioria de 61 assentos parlamentares Netanyahu precisará de convencer Avigdor Lieberman e o seu partido ultranacionalista Yisrael Beiteinu a apoiá-lo com os seus oito deputados.

Netanyahu e Lieberman, que é um colono de cariz fascista mas opondo-se a associações com partidos religiosos, são normalmente aliados ideológicos. Mas estes não são tempos normais. Netanyahu teve de submeter-se novamente em eleições porque Lieberman, sentindo a crescente fraqueza do primeiro-ministro, se recusou em Abril a concretizar uma coligação de governo em que entrariam os partidos religiosos.

Netanyahu pode tentar agora atrair o inconstante Lieberman com uma espécie de proposta irresistível, como a de alternarem no cargo de chefe do governo.

Lieberman, porém, corre o risco de se ver envolvido em grande polémica pública se aceitar agora o que recusou há cinco meses, obrigando então o país a submeter-se a uma repetição de eleições profundamente impopular.

Avigdor Lieberman, por outro lado, saiu reforçado nesta consulta, subindo de cinco para oito deputados em circunstâncias que lhe permitem afirmar ser o campeão dos israelitas seculares.

O mais importante para Lieberman é que se encontra, mais uma vez, no papel de fazedor de reis. É quase certo que contribuirá para moldar o carácter do próximo governo. E quem ele ungir como primeiro-ministro ficar-lhe-á grato.

O impasse que bloqueou a formação de um governo em Abril ainda permanece. Israel enfrenta agora a possibilidade de várias semanas de uma frenética barganha política e até a hipótese de convocação de novas eleições, as terceiras consecutivas.

Os palestinianos estão em cena

No entanto, do ponto de vista dos palestinianos – tanto os que estão sob ocupação como os que vivem em Israel como cidadãos de terceira classe – o próximo governo israelita poderá reflectir uma nova situação.

Olhando para os resultados eleitorais, Gantz está em melhor posição para formar governo, que alguns rotulam absurdamente como de “centro-esquerda”. Partindo do princípio que a sua espinha dorsal incluiria o Azul e Branco, partido liderado por um grupo de generais falcões, e o Yisrael Beiteinu de Lieberman, seria, na prática, quase tão à direita como o de Netanyahu.

Gantz chegou a acusar Netanyahu de lhe roubar a ideia quando anunciou a intenção de anexar grandes partes da Cisjordânia.

A dificuldade de uma coligação liderada por Gantz é a de que, mesmo fazendo o pleno dos potenciais aliados disponíveis, o máximo de deputados que alcança é 59, a dois da maioria necessária. Isto é, seria uma coligação que dependeria do apoio tácito dos 13 deputados da Lista Árabe Conjunta, que representam a grande minoria palestiniana de Israel. Uma situação que Lieberman rejeitou de imediato logo que começaram a chegar os primeiros resultados das eleições, qualificando a ideia como “absurda”. Gantz parece apenas um pouco mais flexível nesse domínio.

Outra solução possível seria o chamado governo de unidade nacional. O partido Azul e Branco unir-se-ia ao Likud e a Lieberman. Tanto este como Gantz afirmaram que essa é a sua opção favorita.

A questão em aberto será a possibilidade de Netanyahu entrar nesse governo ou se Gantz exigirá a sua expulsão como contrapartida à inclusão do Likud.

Em tais circunstâncias a mão de Netanyahu não parece muito forte, sobretudo se estiver mergulhado numa batalha judicial prolongada por acusações de corrupção. Correm rumores de que existe uma revolta no Likud para o depor.

Um resultado muito interessante de um governo de unidade é o facto de poder provocar uma crise constitucional ao fazer da Lista Árabe Conjunta a oposição oficial, como terceiro maior partido. Trata-se da mesma lista que Netanyahu qualificou como “um perigoso partido anti-sionista”.

Ayman Odeh, primeiro deputado da lista árabe, tornar-se-ia o primeiro dirigente da minoria palestiniana a participar em reuniões regulares com o primeiro-ministro e os chefes de segurança.

Netanyahu, porém, continuará como primeiro-ministro interino durante várias semanas – até à formação de um novo governo. Se estiver em forma e igual a si próprio, será um meio tempo em que poderá fazer e instigar muitas malfeitorias.




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