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NOVO GOVERNO EM ROMA: UM RASTO DE BATOTA POLÍTICA

Luigi Di Maio, ministro dos Negócios Estrangeiros de Itália, diz que é contra o nuclear. Mas isso só em campanha

2019-09-13

Em Itália mais do mesmo, ainda que sem a chancela mussoliniana do partido de Salvini neste segundo governo Conte. À cabeça avultam, no entanto, a falsidade política e a demagogia populista: tanto o Partido Democrático como, sobretudo, o Movimento Cinco Estrelas subscreveram posições contra as armas nucleares e colocam-se agora à mercê, uma vez no governo, da estratégia nuclear agressiva dos Estados Unidos e da NATO.

Manlio Dinucci, Il Manifesto/O Lado Oculto

Como todos os partidos ecologistas europeus, sem excepção, o Movimento Cinco Estrelas, partido italiano dirigido por Luigi Di Maio, é profundamente anti-nuclear. Por isso, tem conduzido as suas campanhas com muita veemência sobre este tema. E como todos os partidos ecologistas europeus, quando chega ao poder defende a NATO, as suas guerras e a sua política nuclear. 

O novo ministro italiano Luigi Di Maio assinou em 2017 a petição parlamentar da Campanha Internacional para a Abolição das Armas Nucleares (ICAN, na sigla anglo-saxónica), uma coligação internacional à qual foi atribuído o Prémio Nobel da Paz. Ao fazê-lo, o chefe político do Movimento Cinco Estrelas – actual ministro italiano dos Negócios Estrangeiros – empenhou-se em “promover a subscrição e a ratificação deste Tratado de importância histórica” para a Itália.

O compromisso com a ICAN foi assinado também por outros actuais ministros do Cinco Estrelas – Alfonso Bonafede (Justiça), Federico D’Incà (Relações com o Parlamento), Fabiana Dadone (Função Pública) – e por outros deputados do grupo, como Roberto Fico e Manlio Di Stefano.

Mas há um problema. O Artigo 4º do Tratado para a Abolição das Armas Nucleares estipula: “Cada Estado membro que tenha armas nucleares no seu território, próprias ou controladas por um outro Estado, deve assegurar a retirada rápida dessas armas". Para aderir a este Tratado da ONU, a Itália deverá, portanto, solicitar aos Estados Unidos que retirem do seu território as bombas nucleares B61 (que começam por violar o Tratado de Não-Proliferação) e que não instalem as novas B61-12 nem quaisquer outras armas nucleares.

Por outro lado, uma vez que a Itália faz parte dos países que (como declara a própria NATO) “fornecem à aliança aviões equipados para transportar armas nucleares, sobre os quais os Estados Unidos mantêm controlo absoluto e pessoal treinado com este fim”, para aderir ao Tratado da ONU Roma deveria requerer ficar isenta dessa função.

Pedidos impensáveis por parte do segundo governo Conte que, como o primeiro, considera os Estados Unidos como “aliado privilegiado”.

Depressa se apanham mentirosos

É assim que se descobrem as falsidades. O compromisso com a ICAN foi assinado em Itália por mais de 200 deputados, maioritariamente do Partido Democrático e do Movimento Cinco Estrelas (cerca de 90 cada um), que formam o actual governo. Com que resultado?

Em 19 de Setembro de 2017, na véspera do dia em que o Tratado para a Abolição das Armas Nucleares foi aberto às assinaturas, a Câmara dos Deputados de Roma aprovou uma moção do Partido Democrático (votada igualmente por Forza Italia e Fratelli d’Italia) que comprometia o governo Gentiloni a “avaliar a possibilidade” de aderir ao Tratado da ONU. Por seu lado, o Movimento Cinco Estrelas não pediu a adesão ao Tratado da ONU mas sim a “declaração de indisponibilidade da Itália em usar armas nucleares e comprar componentes necessárias para tornar os aviões F-35 aptos para o transporte de armas nucleares”. Ou seja: que os aviões F-35, concebidos para ataques nucleares sobretudo com bombas B61-12, sejam utilizados pela Itália com uma espécie de segurança que impeça o uso de armas nucleares.

No dia seguinte, o Conselho do Atlântico Norte, com total apoio italiano, rejeitou e atacou o Tratado da ONU. Até ao momento, este foi assinado por 70 países mas, por causa das pressões dos Estados Unidos e da NATO, foi ratificado apenas por 26, pelo que faltam 50 para que entre em vigor.

A mesma coisa aconteceu com o Tratado sobre os mísseis de médio alcance enterrado pelos Estados Unidos. Quer fosse em sede de NATO, da ONU ou da União Europeia, o primeiro governo Conte enfileirou com a posição dos Estados Unidos dando luz verde à instalação de novos mísseis nucleares norte-americanos na Europa, incluindo em Itália.

O compromisso solene assinado pelos parlamentares do Partido Democrático, do Movimento Cinco Estrelas e outros revela, com provas factuais, ser um expediente demagógico para recolher votos. Se para qualquer um deles assim não for, que o demonstre com factos.

Devido à “incontornável ligação com os Estados Unidos”, reafirmada por Giuseppe Conte no seu discurso à Câmara dos Deputados à cabeça do seu segundo governo, a Itália está privada da sua soberania e transformada numa primeira linha da estratégia nuclear norte-americana. Com o consenso e o silêncio cúmplice multipartidário.


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