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COREIA DO SUL E JAPÃO: AJUSTE DE CONTAS COM EFEITOS GLOBAIS

Mulher coreana sobrevivente da escravatura japonesa, que se prolongou por meio século

2019-08-11

COREIA DO SUL E JAPÃO: AJUSTE DE CONTAS COM EFEITOS GLOBAIS

Jorge Fonseca de Almeida*, especial para O Lado Oculto

O Japão e a Coreia do Sul são ambos países ocupados por fortes guarnições militares norte-americanas. Os Estados Unidos dispõem de dezenas de bases em cada um dos países. No Japão, onde têm permanentemente estacionados mais de 50 mil soldados e largos milhares de civis da estrutura militar espalhados por mais de 20 bases, os EUA transformaram mesmo a ilha de Okinawa numa gigantesca plataforma de guerra. Na Coreia do Sul o número de bases é superior e o número de soldados ocupantes da ordem dos 30.000.

A liberdade de ação dos dois governos acaba, pois, por ser muito limitada, pelo que o essencial da sua política é ditada de Washington. Mesmo a política económica dos dois países está completamente dependente da Casa Branca.

É neste contexto que se torna preciso entender as recentes quezílias entre estes dois países, com repercussões económicas mundiais muito sérias. 

                                                                                                  Ilha de Okinawa

                   

                                                    A vermelho os territórios ocupados pela máquina de guerra americana

 Para já, ambos os países, em escalada extremamente rápida, retiraram mutuamente o estatuto de nação mais favorecida, o que significa retirar o nível mais baixo de tarifas aduaneiras. Estamos em plena guerra comercial.

Sendo certo que é sempre difícil decidir quem surgiu primeiro, se o ovo se a galinha, alguns analistas apontam a decisão do Supremo Tribunal Sul- Coreano, em 2018, de impor o pagamento de indemnizações às empresas japonesas que utilizaram mão-de-obra coreana escravizada durante a Segunda Guerra Mundial como um primeiro sinal de tensão entre os dois países. 

              

        Descendentes dos coreanos escravizados pelos Japoneses durante a Segunda Grande Guerra. Ao centro Lee Choon-shik             um dos raros sobreviventes.

O tema é sensível. O Governo do Japão, invocando o tratado de 1965 de normalização das relações entre os dois Estados, não aceita fazer tais pagamentos, apesar de muitos juristas japoneses reconhecerem a legalidade da decisão coreana e a justiça das indemnizações às vítimas e seus descendentes. 

Colonização japonesa e trabalho forçado

 

                                                                            

                                                                              Kim Il-sung – guerrilheiro patriótico

A verdade, porém, é que milhões de coreanos foram utilizados como trabalhadores forçados pelas empresas japonesas durante a ocupação e colonização da Coreia. No final do século XIX, o Império japonês atacou e derrotou as forças do rei coreano Gojong, da Dinastia Joseon que governava a Coreia desde o século XIV, como Estado independente e aliado da China. O rei foi obrigado a abdicar e pouco depois, em 1910, os japoneses declararam a anexação da Coreia.

A colonização japonesa foi brutal, o uso da língua coreana proibido, a literatura coreana banida e o trabalho forçado implementado a partir de 1938. Os coreanos foram mesmo obrigados a alterar o seu nome para um nome japonês. 

Face a esta agressão o povo coreano organizou-se para resistir de armas na mão. Kin Il-sung, que viria a ser o primeiro presidente da Coreia do Norte, e outros companheiros fundaram o Exército Guerrilheiro Popular Anti-japonês, lançando ações militares e de sabotagem contra a ocupação.

Em 1945 os soviéticos entraram na Coreia, derrotaram os japoneses e detiveram-se no paralelo 38, onde esperaram pelos norte-americanos, conforme fora planeado conjuntamente. Na conferência de Potsdam, na Alemanha, ficou oficializadas a divisão da Península da Coreia.

                                                                       Militantes anti-ocupação fuzilados pelos japoneses

O trabalho forçado, um dos traços mais característicos da ocupação japonesa, organizado em larga escala e levado a cabo quer no território coreano quer levando coreanos escravizados para outros lugares, envolveu milhões de pessoas. Mais de um milhão de coreanos foram transportados da Coreia para trabalhar como escravos no Japão e em locais de ocupação japonesa por toda a Ásia. A maioria nunca regressou.

Só para a ilha de Hokkaido, no Japão, foram levados mais de 140 mil coreanos escravizados. Ainda recentemente se descobriram valas onde foram enterrados alguns destes coreanos e as ossadas repatriadas para a Coreia, onde foram entregues às famílias no meio de grande comoção pública. 

Os coreanos não esquecem. As marcas ficaram gravada a ferro quente nas vítimas e nos seus descendentes.

                                                                               

                                                                  Trabalhadores coreanos escravizados pelos japoneses

Na Coreia foram localizados mais de oito mil lugares onde os coreanos escravizados trabalhavam. A estes há que acrescentar os múltiplos que existiram no exterior – só no Japão foram mais de quatro mil. Uma extensa rede de exploração e extermínio.

Alguns desses lugares eram campos das Forças Armadas japoneses, mas outros eram fábricas e plantações de empresas privadas japonesas. A maioria dessas empresas ainda existe. Muitas são hoje grandes impérios industriais e comerciais, empresas cotadas nas bolsas mundiais como: 

Kajima Corporation

Mitsubishi Corporation

Mitsubishi Heavy Industries, Ltd.

Mitsubishi Materials Corporation

Nachi-Fujikoshi Corp.

Nippon Steel & Sumitomo Metal Corp.

Showa Denko K.K. 

Sumitomo Heavy Industries Ltd.  

Que possam prosperar com base nos crimes perpetrado e sem reparar o mal praticado constitui para os coreanos, compreensivelmente, uma afronta moral que urge reparar.

                                                            

                                                              Trabalhadores coreanos escravizados pelos japoneses

Guerra comercial

A decisão do Supremo Tribunal da Coreia do Sul de confirmar as sentenças relativas às indemnizações sobre o trabalho escravo, aliada à recusa das empresas em pagarem as indemnizações, abre caminho à penhora judicial dos bens das firmas japonesas para posterior venda em hasta pública e entrega dos resultados obtidos às vítimas. 

Entre as empresas que utilizaram trabalho forçado coreano estão, como vimos, grandes empresas como a Mitsubishi, mas também sociedades de alta tecnologia como a Nachi-Fujikoshi (hoje fabricante de robots e, na época, fabricante de armas). 

Os valores envolvidos são elevados, uma vez que as indemnizações se situam na ordem dos 100 mil euros por pessoa e a situação envolve milhões de pessoas.

Perante esta perspectiva, o Japão avançou para uma retaliação ao nível comercial. O governo japonês começou por excluir a Coreia do Sul da lista de países para os quais as empresas japonesas podem exportar tecnologias sensíveis. 

Mais grave ainda, limitou administrativamente o abastecimento coreano de componentes essenciais para a produção de chips, televisões e telemóveis. Uma decisão sem precedentes, tomada em Julho último, obriga estes produtos a obter uma licença prévia do governo antes de poderem ser exportados para a Coreia do Sul. 

As consequências podem ser dramáticas para a Coreia do Sul, já que atingem ramos industriais de grande importância – só os chips de memória representam 20% das exportações coreanas.

Mas, obviamente, numa economia globalizada as repercussões têm um alcance ainda maior, podendo paralisar ou abrandar indústrias inteiras como a dos telefones móveis (smartphones) que dependem dos componentes coreanos agora ameaçados.

Na verdade, a Coreia do Sul não tem alternativa de abastecimento de fluoreto de hidrogénio e de poliamidas de fluoreto, uma vez que o Japão controla mais de 90% da produção mundial. 

Por sua vez, a Samsung e a SK Hynix controlam conjuntamente 70% da produção mundial de chips de memória do tipo DRAM e 90% da produção mundial de OLED (díodos emissores de luz). Estes, por seu turno, são essenciais num leque largo de indústrias como as dos telefones, das televisões, dos computadores, etc., etc..

Como se vê, a reação em cadeia pode ser desastrosa para a economia mundial, desencadeando uma nova crise de grandes proporções.

Os próximos dias vão ser decisivos no desenrolar desta crise.

*Economista, NBA


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