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NATO CONTINUA A MATAR NOS BALCÃS

A aldeia fantasma de Plackovika, contaminada com o urânio deixado pela NATO

2019-08-05

Barbara Hug, Horizons et Débats/O Lado Oculto

A guerra contra a Jugoslávia terminou há 20 anos. Entretanto, a NATO instalou-se nas fronteiras da Sérvia, confiante na sua vitória, e o governo alemão proporcionou condições e um apoio financeiro para a construção de uma segunda versão do UCK, o grupo terrorista islâmico Exército de Libertação do Kosovo. Além disso, os rastos deixados pela Aliança Atlântica na sua “intervenção humanitária” continuam a matar.

Porquê este regresso ao passado? A razão é a seguinte: a taxa de crescimento de cancro na Sérvia e no Kosovo atinge proporções assustadoras e a agressividade dos Estados membros da NATO não diminuiu.

A NATO despejou o seu arsenal de armas sobre a Jugoslávia para mostrar ao mundo até que ponto a máquina de guerra funciona “bem”. Depois disso, o Iraque e o Afeganistão tiveram igualmente a oportunidade de experimentar a “bênção” das munições de urânio radioactivo e químico-tóxico.

A partir de 2001, um jornalista da revista alemã Spiegel, Siegesmund von Ilsemann, apurou que os investigadores norte-americanos conheciam perfeitamente os riscos do urânio empobrecido que emanam dos turbilhões de poeira oriundos do solo. O tenente-coronel Ziehmn, do centro de armas nucleares de Los Alamos, advertiu numa carta em 1991: “Os efeitos do urânio empobrecido sobre o ambiente suscitaram e continuam a suscitar preocupações. Existe, por consequência, um risco de que as munições de urânio empobrecido possam tornar-se politicamente inaceitáveis”.

Um tabu sem sentido

A aliança de guerra admitiu, muito a custo, os duradouros efeitos da agressão cometida em 1999. O assunto das munições de urânio continuou a ser tabu, as populações da Sérvia e do Kosovo mantiveram-se silenciosas durante muito tempo mas começaram a tomar consciência dos numerosos casos de tumores malignos e das leucemias que se desenvolveram em famílias destas regiões. Neste momento já não é possível esconder as evidências. Apesar de a NATO e os seus laboratórios continuarem a tentar manter o problema em silêncio, Srdjan Aleksic, um advogado originário de Nis, no Sul da Sérvia, lançou um movimento cujo objectivo é obter compensações financeiras para as vítimas. O jurista representa agora os doentes de Vranje e de Nis ou as suas famílias. A exemplo do que aconteceu em 2018, Aleksic organizou um colóquio internacional na Universidade de NIS entre 17 e 19 de Junho passado.

Os aspectos jurídicos, políticos, económicos, ecológicos, sanitários e securitários foram abordados por especialistas. A organização esteve a cargo do gabinete de advogados de Srdjan Aleksic, da Associação para a Protecção de Infraestruturas Críticas de Belgrado e da Academia Ortodoxa de Ciências, Arte, Artesanato e Inovação da Sérvia.

A situação nas regiões montanhosas em redor de Vranje, ao Sul de Nis, estiveram no centro das atenções. Numa colina perto da aldeia de Plackovica, a NATO bombardeou uma torre de transmissões. Os trabalhadores que foram encarregados de reconstruir as instalações morreram todos de cancro ao fim de alguns anos. Plackovica tornou-se uma aldeia fantasma. A dose de bequeréis* actual ultrapassa, em muito, os níveis de inocuidade. Para avaliar todos os aspectos desta situação insustentável formou-se em Vranje uma iniciativa cidadã liderada por Gradimir Jovanovic.

Os aspectos jurídicos, os direitos humanos e de ética jurídica apresentados pelos conferencistas gregos Janis Rahiotis e Nikolos Progulis demonstraram a necessidade urgente de uma reavaliação jurídica internacional da guerra de 1999. Não existe qualquer dúvida de que esta guerra de agressão foi contrária ao direito internacional e a sua escandalosa transformação em “intervenção humanitária” revelou-se insustentável mesmo 20 anos depois, devido às numerosas vítimas entre as populações civis. Será humanitário envenenar literalmente a população de um pequeno país?

Mais de 300 participantes – convidados e conferencistas estrangeiros – oriundos da Grécia, Noruega, Itália, Alemanha, Suíça, Rússia, Bulgária, Macedónia do Norte, da República Srpska da Bósnia e de Malta testemunharam o grande interesse por estas informações na sociedade civil dos seus países. A Sérvia tem uma importante diáspora no mundo inteiro e os seus membros são igualmente tocados pelas consequências descritas.

Veneno à solta

O objectivo desta importante reunião foi o de sensibilizar a opinião pública para a ligação que existe entre o aumento das taxas de cancro e as armas utilizadas pela NATO. A Organização Mundial de Saúde (OMS) adoptou há muito uma posição inequívoca: o urânio empobrecido é um emissor alfa, uma substância genotóxica. Uma vez no interior de um organismo, por exemplo devido à inalação de poeiras, torna-se cancerígeno. O urânio empobrecido está classificado no grupo 1 das substâncias cancerígenas pelo Centro Internacional de Investigação sobre o Cancro da Organização Mundial de Saúde. Os tipos de cancro que prevalecem na Sérvia e no Kosovo são extremamente agressivos e as pessoas que foram expostas ficaram doentes cerca de cinco anos mais tarde.

Para tratar estes tipos de cancros são necessárias rigorosas análises químicas, radiológicas e médicas, de modo a definir a terapia adequada. As populações pobres dos Balcãs não podem permitir-se usufruir desses exames médicos e tratamentos. Então quem assume os encargos? No caso de se pretender prestar ajuda é necessário exigir uma indemnização adequada.

Além disso, é necessária uma descontaminação profunda e completa das zonas bombardeadas, pelo menos de maneira a permitir aos agricultores libertarem de novo os seus animais nas pastagens. As águas devem ser analisadas em permanência, para detectar a presença de urânio e de outras substâncias nocivas.

Nos dias de hoje, ao que parece, a “comunidade de valores” ocidental não prevê minimamente ocupar-se dessas tarefas. Até ao momento, alguns círculos na Alemanha e em outros países da NATO olham os sérvios com grande desprezo – como se não tivessem direito à vida… Será que a história se repete?

*Unidade de medida de radioactividade no Sistema Internacional


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