O Lado Oculto é uma publicação livre e independente. As opiniões manifestadas pelos colaboradores não vinculam os membros do Colectivo Redactorial, entidade que define a linha informativa.

É OFICIAL: ESTADOS UNIDOS NA GUERRA CONTRA O IÉMEN

Guerrilheiros Houthi examinam os restos do drone norte-americano abatido (Foto Al-Masriah)

2019-06-25

Ahmed Abdulkareem*, Hodeida, Iémen; MintPress News/O Lado Oculto  

A notícia de que um drone militar norte-americano foi abatido sobre a cidade portuária de Hodeida, na costa oeste do Iémen, provocou grande revolta entre os habitantes porque confirma o envolvimento directo dos Estados Unidos na guerra de agressão contra o país que, segundo a ONU, provocou a pior crise humanitária do mundo e deixa quase 25 milhões de pessoas a necessitar de ajuda urgente.

No domingo, 23 de Junho, o tenente-coronel Earl Brown, porta-voz do Comando Central dos Estados Unidos (CentCom), reconheceu em comunicado que no dia 6 de Junho as milícias iemenitas Houthi abateram um drone MQ-9 Reaper usando um míssil terra-ar SA-6, acrescentando que a altitude a que a nave foi abatida revelou “uma melhoria em relação às anteriores capacidades dos Houthi”.

O texto do comunicado foi elaborado de maneira a tentar ligar o ocorrido ao derrube de um outro avião não-tripulado norte-americano MQ-9, em 13 de Junho, quando alegadamente sobrevoava um dos dois petroleiros danificados no Golfo de Omã. Obviamente, o comunicado tinha como objectivo acusar o Irão pela acção contra os dois drones norte-americanos, o tipo de argumentação comum aos Estados Unidos e à Arábia Saudita quando se trata de insinuar a dependência das forças armadas iemenitas em relação a Teerão. Oficiais de elevado escalão do Iémen rejeitaram veementemente esta ligação e afirmaram que não hesitarão em aceitar qualquer ajuda desde que se trate de defender o seu país.

Um claro envolvimento de Washington

Este não foi o primeiro drone militar norte-americano a ser destruído pelas forças Houthi. Em 4 de Junho foi abatido outro e já em Maio fora derrubada uma nave General Atomics MQ-1 Predator. Forças iemenitas abateram em Março um Predator MQ-1 sobre Sanaa, capital do país, o mesmo acontecendo semanas depois com um aparelho MQ-1C.

O movimento Houthi chamou a atenção para o facto de o comunicado do tenente-coronel Brown representar uma declaração pública de que os Estados Unidos participam na guerra contra o Iémen. Mohammed Abdulsalam, porta-voz dos Houthi declarou: “Os militares dos Estados Unidos, admitindo a queda do avião de reconhecimento na costa oeste do Iémen, provam que a agressão faz parte da agenda sionista norte-americana”. Acrescentou que os Estados Unidos estão envolvidos “em vários crimes” e comprometidos “na guerra que há cinco anos é dirigida contra o povo iemenita”.

O episódio do drone não foi o único que provocou a revolta dos iemenitas nas últimas semanas. Familiares das vítimas de um ataque aéreo saudita contra um autocarro escolar em 2018 – incluindo Zaid al-Tayeb, que perdeu dois filhos na ocasião – acusaram o governo Trump de fornecer bombas de alta tecnologia à Arábia Saudita para matar os iemenitas.

No início deste mês, a administração Trump garantiu a Riade novos fornecimentos de armas, apesar do terrível histórico do reino saudita em matéria de direitos humanos. A Arábia Saudita recebe assim novas armas para reforçar um stock num valor de centenas de milhões dólares, alegadamente para usar contra o Irão mas que tem sido lançado sobre os iemenitas.

Zaid al-Tayeb perdeu os dois filhos – Ahmed e Ali – num ataque realizado em 10 de Agosto de 2018 contra um autocarro escolar na cidade de Dhahean, em Sadaa, no norte do Iémen. Na altura, aviões de guerra sauditas usaram bombas Rayethon Mark-82 fabricadas nos Estados Unidos, que mataram 40 crianças. Engenhos Mark-82 já tinham sido utilizadas em 2016 num ataque contra um funeral em Sanaa, matando 140 pessoas e ferindo 25.

Despojos de alta tecnologia

Grandes drones como o MQ-9 Reaper são abatidos geralmente com mísseis ar-ar modificados como o R-27T, ainda de fabrico soviético. No entanto, o MQ-9 abatido sobre Hodeita foi atingido por um sistema de defesa aérea chamado coloquialmente “raio” ou “barg” – um míssil terra-ar modificado SA-6 – segundo uma fonte militar iemenita que solicitou anonimato devido à natureza sensível do assunto. 

As forças Houthi no Iémen têm registado significativos avanços no sector de defesa aérea e tornaram-se uma ameaça real à coligação agressora liderada pela Arábia Saudita e às operações norte-americanas sobre o país. A evolução foi conseguida a partir trabalhos de engenharia sobre armas de elevada tecnologia norte-americana abandonadas pelas tropas sauditas em fuga.

Segundo uma fonte militar iemenita, o exército do país já conseguiu elaborar peças de elevada tecnologia, de origem norte-americana, a partir dos destroços dos drones abatidos. O MQ-9 pode percorrer grandes distâncias e ser pilotado a milhares de quilómetros, pairar durante horas e libertar um fogo letal de mísseis Hellfire.

O arsenal de drones fabricados por forças do exército iemenita que combatem em aliança com os Houthi já proporcionou algumas vitórias nos campos de batalha, incluindo uma série de ataques contra o aeroporto de Abha na Arábia Saudita. O quinto ataque contra Abha aconteceu na segunda-feira, 17 de Junho, através de um drone Qasef K2; sucedeu a dois ataques ao mesmo aeroporto e outro na província vizinha de Jizan, na sexta-feira 14, usando o mesmo tipo de drone. O ataque de dia 17 foi uma resposta aos bombardeamentos aéreos efectuados na véspera por aviões sauditas contra Sanaa e a província de Hajjah, no noroeste do Iémen.

O aeroporto de Abha já fora anteriormente atingido por um míssil de cruzeiro, interrompendo o tráfego aéreo na área, o que representou um grande salto na capacidade militar nacional do Iémen, que até então se limitava a ataques de retaliação executados com drones não interceptados pelas baterias antimísseis Patriot, fabricadas nos Estados Unidos.

Retaliar para negociar

Fonte militar revelou que os ataques contra o centro de controlo do aeroporto de Jizan e o posto de combustível do aeroporto de Abha colocaram ambas as infraestruturas fora de serviço. Os principais alvos do exército iemenita foram instalações em Jizan, Najran, Abha e Khamis Mushait; um porta-voz das Forças Armadas iemenitas afirmou que “tais ataques atingirão outros aeroportos se os bombardeamentos sauditas e o bloqueio do Iémen continuarem”. 

Os ataques iemenitas de retaliação contra posições vitais nos territórios do sul da Arábia Saudita têm como objectivo chamar a atenção para o facto de este país não respeitar as iniciativas de paz intermediadas pela ONU. Os Houthi advertiram igualmente que os aeroportos da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos serão considerados alvos enquanto o embargo ao aeroporto internacional de Sanaa, o principal do Iémen, continuar em vigor.

Fontes diplomáticas revelaram, entretanto, que existem esforços de mediação dirigidos pelo Reino Unido para tentar impedir o isolamento de aeroportos e instalações vitais na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos. Mohammed al-Houthi, presidente do Conselho Político Supremo do Iémen disse que o seu país está pronto para conversações sérias com países influentes no sentido de encontrar uma paz justa.

Os Houthi retiraram completamente as suas forças dos três portos principais em Hodeida, em conformidade com o Acordo de Estocolmo, mediado pela ONU, afirmou o tenente-general Michael Lollesgaard, chefe da missão de monitorização das Nações Unidas.

A retirada unilateral Houthi dos portos, no início de Maio, foi o avanço mais significativo para a paz no Iémen. Porém, a coligação liderada pela Arábia Saudita não tomou qualquer medida que signifique um sério desejo de paz. Os iemenitas consideram que a continuação dos ataques de retaliação contra alvos da coligação são a maneira mais eficaz de levar os países agressores à mesa de negociações.

*Jornalista iemenita, correspondente de MintPress News no Iémen






Mais notícias...

Iniciar sessão

Recuperar password

goto top