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DRAGHI INCENDIOU O TEMPLO DO EURO

2019-06-24

Wolf Richter, Wolf Street/O Lado Oculto

E foi então que o presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, proferindo em Portugal um discurso de tema histórico e sob o inócuo título “20 anos de política monetária do BCE”, lançou aos ventos uma série de medidas… Não foi numa conferência de imprensa, numa reunião sobre a política do BCE ou qualquer outra coisa. E, contudo, ele termina o mandato em Outubro.

Uma série de medidas, diga-se, bem relevantes. Por exemplo, “na ausência de melhorias no domínio da inflação” “serão necessários estímulos adicionais” sob forma de “cortes adicionais nas taxas de juros” e compras adicionais de obrigações; e “nas próximas semanas o Conselho do BCE irá decidir de que modo os nossos instrumentos podem ser adaptados à gravidade dos riscos para a estabilidade dos preços”, pelo que “todas as opções foram levantadas e discutidas na nossa última reunião”.

Ups! Esperem um momento! Os participantes nessa última reunião, em Junho, disseram à agência Reuters que essas opções não foram discutidas.

Ou seja, Draghi lançou-se por conta própria – aparentemente tentando encurralar os colegas num canto como seu último recurso.

A sua abordagem da situação exposta no discurso em Portugal representou uma grande mudança em relação ao que disse após a reunião de 6 de Junho, em que nada mencionou sobre a necessidade de discutir cortes de taxas. Na altura, afirmou que o BCE espera que as suas taxas “permaneçam nos níveis actuais pelo menos até ao primeiro semestre de 2020”, antes de começarem a ser aumentadas - e não a ser cortadas. Isto aconteceu há duas semanas – e não houve, entretanto, mais nenhuma outra reunião sobre a política do BCE.

Um consenso… De discordâncias

Recorrendo a seis “fontes no BCE” com “conhecimento directo da situação”, a Reuters apurou que esses participantes nas decisões políticas da instituição “não estavam à espera de uma mensagem tão forte” e entendem que “não há um consenso sobre o caminho a seguir”.

Na reunião política de 6 de Junho, de acordo com as mesmas fontes, as possibilidades de cortar as taxas ou comprar activos foram mencionadas “apenas de passagem” e sem qualquer discussão substantiva. A discussão centrou-se no novo pacote de empréstimos aos bancos, acrescentaram.

Os responsáveis citados pela Reuters disseram ainda que os definidores da política do BCE estão preocupados com o facto de “Draghi ter sinalizado tão fortemente as suas medidas aos mercados, como ‘um facto consumado’, que inviabiliza a possibilidade de discordar delas na próxima reunião política de 25 de Julho”.

As fontes acrescentaram, no entanto, que “com a escalada da guerra comercial global e as elevadas preocupações financeiras em torno de Itália havia pouco apetite para uma grande controvérsia em Julho”.

E algumas salientaram mesmo que pelo facto de se esperar pouca informação económica da Zona Euro antes da reunião de 25 de Julho, “seria difícil que as decisões políticas fossem diferentes das tomadas em Junho”. Nesta reunião, a conclusão foi adiar o aumento das taxas e não houve sequer menção a cortes de taxas.

O debate continua aberto

Na opinião dos inquiridos pela Reuters, o debate sobre as medidas políticas a adopar, quando e por que ordem ainda está em aberto, uma vez que existem opiniões muito diferentes entre os decisores.

Para uns, o primeiro passo deveria ser uma mudança na mensagem política do BCE; outros favorecem o fortalecimento do compromisso de não aumentar as taxas por mais tempo.

Outros ainda defendem o reinício do programa de compra de dívida para reduzir os custos dos empréstimos aos governos, na perspectiva de uma recessão; essa opção poderia ser prejudicada pelo “limite do emissor”, que impede o BCE de deter mais de 30% dos títulos soberanos de um país. O BCE, porém, poderia ignorar ou contornar esse limite, sublinharam algumas fontes.

Alguns decisores inclinam-se para cortes nas taxas; outros acham que o BCE não deve fazer qualquer alteração, a não ser que os dados económicos se deteriorem bastante e as expectativas da inflação desçam ainda mais em relação à meta do BCE.

Portanto, não há consenso e não houve discussões substanciais sobre esses tópicos na última reunião, que se concentrou nas modalidades do novo pacote dos empréstimos aos bancos.

Não deixa de ser hilariante que, precisamente no dia em que proferiu o discurso sobre o-estímulo-adicional-que-será-exigido, Draghi tenha chegado a ser definido como um inovador e um planificador por pessoas que ficaram depois surpreendidas com o teor da comunicação, algumas das quais chegaram a sentir-se “impotentes” – segundo a Reuters – quando perceberam que estavam a ser encurraladas num canto através de um movimento desonesto. Não há dúvida de que cheira revolta palaciana no BCE contra o chefe e a sua última proeza. 


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