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O LADO OCULTO - Jornal Digital de Informação Internacional | Director: José Goulão

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EUROPA FORÇADA A CONSUMIR “GÁS DA LIBERDADE”

Campo da fracking para petróleo de gás de xisto: método sujo, extensivo, nocivo para o ambiente, caro e contaminador das águas subterrâneas

2019-06-10

Tony Cartalucci, New Eastern Outlook/O Lado Oculto

O Departamento da Energia dos Estados Unidos (DoE) resolveu recentemente baptizar o seu gás natural liquefeito (GNL)* para exportação como “gás da liberdade” ou “moléculas de liberdade”. Liberdade para quem? Para a Europa, que já tem uma fonte fiável e barata de gás natural mas está a ser forçada a mudar para um gás mais caro, originário dos Estados Unidos, sob ameaça de sanções? Certamente que não.

Ou liberdade para a Rússia, que fornece à Europa grande parte do seu gás natural, competindo assim, de maneira justa e aberta, com os Estados Unidos? Decididamente também não.

Ou é liberdade para os Estados Unidos imporem condições de concorrência desleal? É isso, de facto.

“Liberdade” é realmente um termo, uma “marca”, que o marketing agressivo norte-americano utiliza frequentemente para encobrir as suas injustiças tanto em casa (por exemplo, a draconiana Lei Patriótica) como no exterior: a invasão e ocupação ilegais do território iraquiano processaram-se sob a designação, no mínimo duvidosa, de “Operação Liberdade para o Iraque”.

Não é uma piada

As campanhas norte-americanas em nome da “liberdade” estão tão desacreditadas que poucos levaram a sério o baptismo das exportações de “gás da liberdade”, surgindo até notas na comunicação glosando a distribuição de “moléculas de liberdade”. Não é, contudo, uma manchete arrancada das páginas de uma qualquer publicação satírica, mas sim uma iniciativa do próprio Departamento da Energia dos Estados Unidos.

Um artigo publicado no website oficial do DoE sob o título “Departamento da Energia autoriza exportações adicionais de gás natural liquefeito livre” pode ler-se:

“’Aumentar a capacidade de exportação do projecto GNL Liberdade é fundamental para distribuir o gás da liberdade em todo o mundo, permitindo aos aliados dos Estados Unidos disporem de uma fonte diversificada e acessível de energia limpa. Além disso, mais exportação de GNL livre através do mundo significa mais empregos nos Estados Unidos, mais crescimento económico doméstico e ar mais limpo em casa e em todo o mundo’, afirmou o secretário adjunto da Energia dos Estados Unidos, Mark W. Menezes, que destacou a aprovação do projecto Energia Limpa numa reunião ministerial em Vancouver, no Canadá. ‘Não há dúvida de que o anúncio de hoje estabelece o compromisso do governo em promover a segurança energética e a diversidade em todo o mundo’, acrescentou Menezes”.

Sanções para minar a concorrência

Além da alusão quase anedótica ao “gás da liberdade”, existem aspectos mais reveladores por detrás das afirmações do DoE sobre “dar aos aliados dos Estados Unidos uma fonte diversificada e acessível de energia limpa”.

O artigo refere-se de maneira directa à Europa e às suas actuais importações de gás natural russo. Este produto, transportado por gasodutos para a Europa, será sempre mais barato que o gás natural liquefeito transportado por mar dos Estados Unidos. A não ser que Washington, através de ameaça de sanções não apenas contra a Rússia mas também contra os próprios aliados, consigam elevar esses custos acima dos preços das exportações norte-americanas.

Artigos como o intitulado “O Senado dos Estados Unidos ameaça sanções contra gasoduto russo”, publicado pela revista Foreign Policy, deixam claro até que ponto a administração norte-americana está exactamente a fazer isso.

No artigo pode ler-se:

“O mais recente aumento das tensões transatlânticas pode estar relacionado com o facto de os navios europeus envolvidos na construção de um polémico gasoduto da Rússia à Alemanha poderem vir a ser alvo de sanções norte-americanas previstas num novo projecto de lei bipartidário que deu entrada no Senado de Washington”.

Foreign Policy afirma ainda:

“O governo Trump repreendeu a Alemanha por avançar com o projecto, uma das mais recentes questões polémicas ao nível transatlântico, juntamente com o Irão, as alterações climáticas e o comércio. Em Julho do ano passado, o presidente Donald Trump acusou o governo de Berlim de estar ‘cativo’ da Rússia devido à dependência energética em relação a Moscovo, uma acusação que as autoridades alemãs rejeitaram”.

Deste modo, a Alemanha está não apenas a ser “repreendida” por tomar as suas próprias decisões em política económica e política externa mas também a ser ameaçada de sanções por não respeitar os ditames de Washington. Forçar nações como a Alemanha a comprar, contra sua vontade, o “gás da liberdade” norte-americano é um insulto intencional a juntar aos prejuízos económicos que Washington pretende infligir.

“Gás da liberdade encobre ditadura”

No final do ano passado, a Câmara dos Representantes dos Estados Unidos aprovou a resolução 1035 – “Manifestando a oposição à conclusão do Nord Stream 2”.

Ao aprovar esta resolução os Estados Unidos assumiram o direito de ditar a toda a Europa com quem pode ou não negociar. Embora a decisão não seja, naturalmente, vinculativa, faz alusão a sanções já em movimento.

Ficou claro que a linguagem da resolução em relação à “segurança energética através da diversificação de abastecimentos” significa que Washington tentará forçar a Europa a comprar gás norte-americano em vez de russo. A própria ideia norte-americana de aprovar resoluções focadas na “segurança energética europeia” é um ataque frontal à soberania e à liberdade europeias. Agora que as intenções da resolução estão a transformar-se em políticas – incluindo sanções contra empresas europeias – tornou-se praticamente também um ataque económico a toda a Europa.

Mais grave ainda é o facto dos Estados Unidos recorreram a mais do que sanções para tornarem as suas exportações de gás competitivas. É o caso dos múltiplos conflitos que comprometem a entrega de gás russo – como na Ucrânia, onde há cinco anos se travam confrontos armados que ameaçam os gasodutos transportando gás natural entre a Rússia e a Europa.

Os Estados Unidos retratam a Rússia como uma ameaça à estabilidade e à segurança europeias – apesar do facto de a própria Europa ter desenvolvido voluntária e conjuntamente as infraestruturas para transporte e recepção de gás russo, de modo a ambas as partes beneficiarem dessas importações. O que os Estados Unidos estão a fazer é recorrer a artifícios infantis do tipo “gás da liberdade” ou distribuição de "moléculas de liberdade" como cortina de fumo para o facto de Washington – e não Moscovo – representar a maior ameaça à segurança, à estabilidade, até à prosperidade da Europa.

Os métodos de Washington para perturbar o fluxo dos hidrocarbonetos russos ou a tecnologia de comunicações chinesa revelam que os Estados Unidos são um aliado no qual não se pode confiar, um parceiro de negócios cínico sem interesse e sem meios para competir num mercado global livre e justo. As suas tácticas de pressão sobre a concorrência, se bem sucedidas, deixarão o mundo submetido a alternativas forçadas, de inferior qualidade e a preços exorbitantes. O mundo enfrenta uma escolha entre o “gás da liberdade” e a liberdade real de decidir o que compra e a quem compra, afinal uma das liberdades mais básicas e que Washington pretende negar ao mundo.

*O gás natural liquefeito exportado pelos Estados Unidos é gás de xisto que resulta da actividade de fracking, um método que destrói e inutiliza não apenas as vastíssimas áreas de solos e subsolos nas quais incide como contamina, de modo irreversível, os preciosos lençóis de águas subterrâneas. Fracking é um método sujo, dispendioso e ambientalmente nocivo através do qual os Estados Unidos se transformaram no principal produtor mundial de hidrocarbonetos e que atingirá o auge até 2024 – começando então a perder impacto.



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