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VENEZUELA: FORÇAS ARMADAS REJEITARAM GOLPE

Multidão junto ao Palácio Miraflores, em Caracas

2019-04-30

Luís O. Nunes*, Caracas; com Resumen Latino Americano

A partir do início da tarde de terça-feira, milhares de pessoas concentraram-se junto ao Palácio de Miraflores, em Caracas, testemunhando o seu apoio ao governo legítimo da Venezuela, dirigido pelo presidente Nicolás Maduro, e repudiando uma nova tentativa de golpe de Estado que envolveu dirigentes da oposição fascista e um grupo de militares desarticulados de qualquer unidade específica, com apoio específico dos Estados Unidos, Colômbia, Argentina e do secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luís Almagro.

"Nervos de aço! Conversei com os comandantes de todas as unidades militares do país, que me manifestaram a sua total lealdade ao Povo, à Constituição e à Pátria", escreveu o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, numa mensagem no Twitter depois de ter avaliado a evolução dos acontecimentos iniciados ma madrugada de terça-feira. "Apelo à máxima mobilização popular para assegurar a vitória da Paz", acrescentou. "Venceremos!"

As autoridades de Caracas identificam o coronel Ilich Sanchés, comandante do destacamento da Guarda Nacional Bolivariana (GNB) do Palácio Federal Legislativo, como o principal responsável militar pela intentona ao lado do “presidente interino” Juan Guaidó, nomeado pelo governo dos Estados Unidos, e do chefe fascista Leopoldo López, que entretanto escapou ao regime de detenção domiciliária – ao que parece com apoio de membros dos serviços secretos Sebin. Leopoldo López está a cumprir uma pena de detenção de 14 anos. Ao fim do dia chegou a notícia de que o foragido López deu entrada na Embaixada do Chile em Caracas, colocando-se assim sob a protecção do regime do presidente chileno, Sebastián Piñera, um admirador e seguidor do ditador fascista Augusto Pinochet.

O golpe teve apoio declarado do vice-presidente dos Estados Unidos, Michael Pence. Numa declaração emitida através do Twitter escreveu: "A Juan Guaidó, à Assembleia Nacional, a todo o povo da Venezuela amante da liberdade que hoje estão a tomar as ruas na Operação Liberdade - estamos con ustedes! Estamos convosco! A América estará convosco até que a liberdade e a democracia sejam restauradas. Deus esteja convosco!"

Os dirigentes do sector fascista da oposição e um número reduzido de militares concentraram-se de madrugada junto ao centro de distribuição de Altamira, no município de Chacao, que é um feudo da oposição de extrema-direita, fazendo crer que se tratava de um levantamento militar na base militar de La Carlota, que se situa nas imediações. Segundo testemunho de alguns militares envolvidos, e que entretanto abandonaram a zona declarando que foram enganados por superiores, muitos dos efectivos presentes cumpriam funções de segurança em vários destacamentos durante a madrugada e foram transportados para o local sem saber ao que iam e cumprindo ordens de superiores hierárquicos.

Com a chegada do grupo de militares às imediações da base militar, cerca das quatro da madrugada, Juan Guaidó proclamou no Twitter o início da “Operação Liberdade”, afirmando que finalmente as forças armadas se tinham envolvido no processo de destituição das autoridades legítimas do país. Trata-se “do fim da usurpação”, sentenciou o “presidente” nomeado por Washington; é "a fase final de Maduro".

“Não percas a oportunidade”

A declaração foi secundada imediatamente pelo presidente da Colômbia, pelo chanceler da Argentina, pelo senador norte-americano de origem cubana Marco Rubio e pelo secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luís Almagro.

“Não deixes que te tirem esta oportunidade (…) Não permitas que este momento se escape. Pode acontecer que não haja outro”, escreveu Marco Rubio no Twitter, dirigindo-se a Guaidó.

Juan Guaidó viria a abandonar o local da concentração, nas imediações da base militar, a meio da tarde de terça-feira. Até esse momento não conseguira nenhum dos objectivos que se propôs atingir, de acordo com as mensagens da madrugada: nem adesão popular, nem apoio das Forças Armadas.

O chanceler venezuelano, Jorge Arreaza, e a vice-presidenta, Delcy Rodriguez, denunciaram, entretanto, que também o secretário de Estado norte-americano, Michael Pompeo, expressou formalmente o apoio à “Operação Liberdade” e insistiu que "todas as opções estão em cima da mesa", isto é, uma agressão militar continua no arsenal de Washington contra a Venezuela democrática.

Também o conselheiro de segurança nacional de Trump, John Bolton, se pronunciou favoravelmente ao golpe garantindo que "o actual caminho para a democracia é irreversível". Dirigindo-se aos militares venezuelanos, sublinhou que "têm uma escolha: abraçar a democracia, proteger os civis e os membros da Assembleia Nacional democraticamente eleita ou enfrentar mais sofrimento e isolamento".

O governo de Espanha, entretanto, declarou que o país “não apoia nenhum golpe militar”.

O ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Serguei Lavrov, lamentou que "mais uma vez a oposição radical venezuelana se tenha voltado para a confrontação, com o uso da força em vez da solução pacífica das divergências políticas". Lavrov confirmou o princípio de Moscovo segundo o qual "devem ser os venezuelanos a resolver os seus próprios problemas" e apelou à comunidade internacional, em especial aos países vizinhos da Venezuela, para que "respeitem a Carta das Nações Unidas", as "normas e princípios da Lei Internacional".

Bolívia, NIcarágua e Cuba, por seu lado, não demoraram a solidarizar-se com as autoridades eleitas da Venezuela, denunciando a tentativa de golpe de Estado como mais uma num percurso de desestabilização permanente conduzido de Washington.

Perante as proclamações do “presidente interino”, o presidente da Assembleia Nacional Constituinte, Diosdado Cabello, revelou que alguns dos militares presentes no local de concentração e também membros dos serviços secretos Sebin se desligaram imediatamente dos acontecimentos logo que souberam do que se tratava.

Da mesma maneira o chefe do Estado Maior das Forças Armadas Nacionais Bolivarianas (FANB), segundo comandante José Ornelas Ferreira, desmentiu qualquer participação nos acontecimentos proclamando a lealdade às autoridades legítimas. Para tal, usou a sua conta no Twitter com uma foto tendo em fundo a fotografia de Hugo Chávez. “Hoje, mais do que nunca, com as FANB venceremos os que pretendem perturbar a paz da República. Triunfar”, escreveu o militar proclamando “lealdade absoluta” ao presidente Nicolás Maduro.

Na informação que divulgou, o comandante José Ornelas Ferreira revelou que se encontrava ao lado do almirante Remigio Ceballos coordenando as acções militares contra o golpe de Estado.

Entretanto, o procurador geral da república, Tarek William Saab, assegurou que "o MInistério Público está a acumular, com total liberdade, as actuações de quem é reincidente nestes delitos, pessoas que novamente, e com total despropósito, pretenderam criar um ambiente de perturbação no país, sem conseguir".

Normalidade nos quartéis

Enquanto os golpistas pretendiam conseguir um levantamento popular através das suas mensagens, dando a ilusão de que tinham a organização militar do seu lado, o ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, afirmou oficialmente que as FANB “se mantêm firmes na defesa da Constituição Nacional e das suas autoridades legítimas”. O ministro garantiu que “todas as autoridades militares colocadas nas oito regiões de Defesa Integral reportam situações de normalidade nos seus quartéis e bases militares, sob o comando das suas autoridades naturais”. As forças armadas, acrescentou, “rejeitam este movimento golpista que pretende levar a violência a todo o país”. Os “pseudo líderes políticos que se colocaram à frente deste movimento subversivo recorreram a tropas e polícias com armas de guerra numa via pública da cidade para provocar confusão e terror”, escreveu o ministro da Defesa.

Padrino López denunciou entretanto que cerca de 80% dos efectivos militares envolvidos na mobilização fascista junto à base militar de Carlota "foram enganados". Isso "Faz parte de um formato ardiloso, para confundir, para conduzir ao desastre, ao caos, à morte um grupo de homens e mulheres, soldados da pátria que foram levados ao engano", acrescentou o ministro, "o que não impede que se tenha tratado de um acto terrorista". Padrino López fez estas declarações anunciando o triunfo sobre a intentona e acompanhado pelos membros do Alto Comando Militar.

No local da sublevação, junto a uma autoestrada cortada pelos golpistas, ocorreram incidentes em ambiente confuso. Forças ao serviço das autoridades legítimas terão feito uso de gases lacrimogéneos, por sua vez devolvidos pelos sediciosos. Segundo dados ainda parcialmente apurados foram registados 35 feridos. As forças de segurança cercaram, entretanto, a base militar de La Carlota, isolando a concentração de golpistas - que foram dispersando gradualmente.

Perante o fracasso total de mais uma tentativa de golpe de Estado e enquanto a multidão ia crescendo em dimensão e satisfação nas imediações do Palácio de Miraflores, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, revelou a ira com que recebeu as notícias de Caracas. Prometeu "total e completo embargo e sanções" contra Cuba se as tropas deste país não cessarem as actividades na Venezuela. Nenhum dos acontecimentos do dia, porém, esteve relacionado com a suposta presença de tropas cubanas em território venezuelano. Nem mesmo Guaidó, Leopoldo López e outras figuras da oposição fascista se refiram a esse facto. A declaração pressupõe, portanto, uma idealização de pretextos para uma intervenção militar.

No entanto, no final do dia de terça-feira, junto ao palácio presidencial, a multidão celebrava a derrota de mais uma provocação de Donald Trump e de toda a sua corte fascista, que não escondeu o envolvimento na intentona.

*Em actualização


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