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NOVOS DADOS IMPLICAM KIEV NA TRAGÉDIA DO MH-17

2019-04-01

Whitney Webb, MintPress/O Lado Oculto

Um ex-alto funcionário do Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU), que recentemente saiu do país, fez declarações explosivas sobre o envolvimento do governo de Kiev no derrube do avião que fazia o voo MH-17, em 2014. A responsabilidade pela tragédia, que provocou a morte de todos os 283 passageiros e 15 tripulantes a bordo, foi atribuída à Rússia pelo governo da Ucrânia, pelos Estados Unidos e pela esmagadora maioria dos media ocidentais.

Vasily Prozorov, o ex-alto funcionário do SBU, revelou também a um grupo de repórteres internacionais que o polémico Batalhão Azov, conhecido pela sua ideologia e simbologia nazi, administra e mantém prisões secretas em zonas do Leste da Ucrânia, onde existe uma situação de conflito entre tropas governamentais e forças representativas da maioria russófona dessa região. Prozorov, que pediu asilo na Rússia, acusou ainda os Estados Unidos e o Reino Unido de treinarem uma divisão do SBU que depois se dedicou a realizar ataques terroristas na região do Donbass, palco dos confrontos iniciados desde que, em 2014, o governo legítimo da Ucrânia foi derrubado por um golpe de Estado apoiado pelos Estados Unidos.
Prozorov trabalhou para o SBU entre 1999 e 2018 mas, conforme relatou, a seguir ao golpe de 2014 contactou os serviços secretos russos e passou a actuar como infiltrado no escritório central da espionagem ucraniana. Considera que não é um desertor, porque a sua lealdade é com o povo ucraniano e não com um governo que foi instituído pelos Estados Unidos.

Um cenário de terror

No âmbito da sua actividade, Vasily Prozorov observou, logo a seguir ao golpe e ao início da guerra civil entre Kiev e o Donbass, que o SBU começou a planear, por incumbência do novo governo, operações para provocar mortes em massa em comunidades de origem russófona, que passaram a ser rotuladas como “cúmplices de terroristas”.
O ex-oficial também pormenorizou como, a seguir ao golpe, o SBU criou prisões secretas onde pessoas destacadas que não se identificassem com os acontecimentos e o novo governo apoiado por Washington foram interrogadas, torturadas e mesmo assassinadas. Uma dessas prisões, localizada junto a uma pista de aterragem em Mariupol, ficou conhecida como a “Biblioteca” e Prozorov comparou-a a um “campo de concentração”, mostrando imagens de detidos severamente espancados e que alegou terem sofrido maus tratos nesse local. Acrescentou ainda que as decisões do SBU em relação às prisões secretas eram frequentemente determinadas por consultores estrangeiros, designadamente norte-americanos e do Reino Unido. O recurso à tortura pelo SBU tem sido solida e frequentemente documentado, embora Kiev tenha conseguido bloquear os esforços da ONU para investigar a sua extensão.
Segundo Prozorov, o batalhão neonazi Azov, milícia que foi agregada ao Ministério do Interior como componente da Guarda Nacional do país, também gere as suas próprias prisões nas zonas da Chamada Operação Anti-Terrorista (ATO) no Leste da Ucrânia. O Batalhão Azov recebe financiamento dos governos de Kiev e dos Estados Unidos e também recebeu armas do governo de Israel.

A realidade da tragédia do MH-17

As declarações mais chocantes de Vasily Prozorov relacionaram-se com a queda do avião que fazia o voo MH-17 da Malaysian Airlines, da qual o governo ucraniano pós-golpe, os Estados Unidos e grande parte do mundo ocidental culparam prontamente a Rússia. O ex-oficial do SBU afirmou, depois de explicar que a sua opinião se baseia nas experiências vividas no cargo, que o governo de Kiev foi um “cúmplice do desastre”.
E continuou:

“A reacção incrivelmente rápida da liderança ucraniana foi a primeira coisa que me levantou suspeitas. A minha inequívoca opinião é a de que o presidente Petro Porochenko e os seus serviços de imprensa tinham conhecimento prévio do caso. Em segundo lugar, as hostilidades no Leste já estavam em andamento há alguns meses, mas o espaço aéreo sobre a região ainda não fora fechado”.

Prozorov afirmou também que quando fez diligências dentro do SBU para obter mais dados sobre as circunstâncias do desastre um oficial sénior preveniu-o da seguinte maneira: “Não meta o nariz neste assunto se não quiser ter problemas”. Apesar disso, declarou, “algumas fugas de informação acabaram por acontecer”.
E então concluiu:

“Com base na minha própria análise, posso especular quem foi cúmplice do crime e quem esteve envolvido na ocultação de provas. Em minha opinião, houve dois principais envolvidos: o actual subchefe da equipa presidencial da Ucrânia, Valery Kondratchuk, e o chefe da direcção de inteligência do Ministério da Defesa ucraniano, Vasyl Burba”.

Confirmação por relatórios independentes

Embora possa ser fácil e rápido rejeitar o testemunho de Prozarov qualificando-o de “propaganda russa”, muitas das suas afirmações encaixam nos conteúdos de reportagens independentes sobre o conflito existente na Ucrânia.
Por exemplo, em relação às denúncias da existência de prisões clandestinas o SBU negou, em 2016, o acesso da ONU a centros de detenção localizados em Mariupol – onde o ex-oficial localizou a “Biblioteca” – e Kramatorsk. Os serviços de espionagem alegaram que recusaram o acesso dos inspectores da ONU para “proteger segredos do governo”. As Nações Unidas tentaram o acesso a essas áreas depois de vários grupos de defesa dos direitos humanos terem recolhido provas fiáveis do recurso à tortura nas instalações da região.
As alegações de Prozorov segundo as quais a seguir ao golpe o SBU fez planos de assassínios em massa em comunidades de maioria russófona também são apoiadas por provas disponíveis publicamente. Por exemplo, quando a guerra civil começou, o governo de Kiev tornou pública a sua intenção de atacar especificamente civis para “limpar as cidades” - uma afirmação do então primeiro-ministro, Arseniy Yatsenyuk, conhecido como “o homem de Washington”.
Jornalistas alinhados com o governo de Kiev entrevistados pelo canal de notícias governamental Hromadske TV, financiado pelos Estados Unidos, afirmaram que os habitantes da região em convulsão – cerca de milhão e meio de pessoas – “são supérfluos” e “podem ser exterminados”.
Com expressões deste tipo proferidas por políticos e jornalistas sintonizados com o actual governo de Kiev, as afirmações de Prozorov parecem credíveis.
Quanto ao alegado papel do governo da Ucrânia na queda do MH-17 podemos compará-lo com excertos da investigação independente conduzida pelo jornalista de investigação norte-americano Robert Parry. Escreve o jornalista:

“O controlo do SBU, conjugado com a sua obstrução à investigação da tortura pretendida pela ONU, sugere que o SBU também afastaria o Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) de qualquer prova que pudesse implicar uma unidade das forças armadas ucranianas no derrube, uma situação que seria considerada um segredo de Estado que poderia minar seriamente o apoio internacional ao regime sustentado pelos Estados Unidos em Kiev. Entre as obrigações do SBU está a protecção dos segredos do governo ucraniano”.

Além disso, uma das fontes de Parry afirmou que a CIA, tal como Prozorov, encontrou provas de que o governo da Ucrânia foi realmente “cúmplice” do acidente do MH-17:

“Uma fonte que foi informada por analistas de inteligência dos Estados Unidos disse-me que a conclusão da CIA apontava para uma operação ucraniana que envolvia um oligarca da linha dura e que tinha como objectivo possível derrubar o avião oficial do presidente russo, Vladimir Putin, que regressava da América do Sul naquele dia e tinha coordenadas de voo semelhantes às do MH-17. A fonte disse que um avião de guerra ucraniano averiguou que o avião não era o de Putin, mas o ataque foi consumado na mesma com a suposição de que a tragédia seria directamente atribuída aos rebeldes pró-russos ou à Rússia”.

Outra razão pela qual o testemunho de Prozorov não deve ser descartado por se tratar de propaganda é a desautorização que o próprio ex-oficial fez de reportagens da comunicação social russa sobre o tipo de infiltração da CIA no SBU. Interrogado por um repórter se poderia confirmar que oficiais estrangeiros, incluindo norte-americanos, ocupavam o seu próprio andar na sede do SBU, Prozorov negou veementemente, afirmando que desde 2005 houve oficiais da CIA presentes no edifício mas que essa prática foi interrompida. Especificou que oficiais de inteligência dos Estados Unidos visitavam regularmente a sede do SBU depois do golpe de 2014, mas que não estavam instalados no prédio.
Deste modo, embora o testemunho de Prozarov seja provavelmente rejeitado pelos principais media ocidentais e pelos governos que apoiam Kiev, há bastantes evidências sugerindo que muitas das suas alegações – incluindo as mais chocantes – merecem consideração cuidadosa e não rejeição definitiva. De facto, se Prozarov fosse um desertor de um país actualmente em desacordo com os Estados Unidos – Rússia, Venezuela ou Irão – seria altamente provável que os media mais sonantes repetissem e promovesse as suas declarações, independentemente da respectiva autenticidade. No entanto, porque o ex-oficial do SBU pediu asilo na Rússia, provavelmente as suas declarações não terão relevo internacional apenas por causa do país de onde foram emitidas e não pelo valor real das provas que sustentam muitas das suas afirmações.

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