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QUANDO A NATO CONJUGA A GUERRA COM OS NEGÓCIOS

Cibersegurança, novo negócio subsidiário da indústria da morte que tem igualmente a particularidade de ser mais um pretexto para invadir a privacidade dos cidadãos

2018-09-21

José Goulão; publicação conjunta com AbrilAbril

Que a NATO é uma aliança guerreira global não é novidade para ninguém; nem mesmo – e sobretudo – para aqueles que continuam a jurar que não passa de uma inocente organização defensiva. Mas a NATO dá fortes sinais de estar a transformar-se também numa motivadora frente de grandes negócios onde os interesses público e privado esbatem lucrativamente as suas fronteiras. Um exemplo? Chama-se Cooperative Cyber Defence Centre of Excellence (CCDCOE), com a tradução oficial portuguesa de Centro de Excelência para a Ciberdefesa Cooperativa e funciona a partir de Tallin, capital da Estónia.

O CCDCOE é “uma base avançada de negócios”, garante-se à boca cheia nos meios do business onde se aliam os interesses militares e civis que têm a morte dos outros como recompensador modo de vida. Também é usual qualificar este Centro de Excelência como “uma antena” que conecta a mais paranóica das obsessões actuais dos que gerem “o nosso modo de vida” – a cibersegurança – com as potencialidades inesgotáveis de negócio que tal actividade representa a todos os níveis e em todos os azimutes.
A chefia desta estrutura foi entregue a um homem da casa, o coronel Jaak Tarien, ex-comandante da Força Aérea da Estónia. Ao seu lado tem um poderoso e galáctico Conselho Consultivo, no qual se destaca o general na reserva e ex-director da CIA, David Petraeus, que os seus admiradores não hesitam em qualificar como o “militar do século” na sequência das mortíferas operações que comandou no Iraque, no Afeganistão, e a que deve acrescentar-se o papel que desempenhou na destruição da Líbia enquanto chefe da agência da espionagem.
Outro membro do Conselho Consultivo é Koen Gisjbers, antigo ministro da Defesa da Holanda.
Duas estrelas brilhantes
Qualquer deles tem o perfil mais que recomendável para esta missão público-privada. De altos cargos associados à guerra e aos interesses militares transitaram para bem sucedidas empresas privadas – e nesta qualidade desempenham agora funções no Centro de Excelência da NATO.
Depois da sua polémica demissão, baseada, de facto, na confissão segundo a qual, como director da CIA, sabia do envolvimento da al-Qaida no atentado de Benghazi em 11 de Setembro de 2012 que vitimou o embaixador norte-americano e outros compatriotas, David Petraeus surge em Tallin no papel de presidente do poderoso fundo de investimento privado KKR (Kolberg Kravis Roberts).
Mudou de organismo, mas tal não aconteceu em relação a alguns dos parceiros de negócio. Se, no caso da Líbia, silenciou o envolvimento da al-Qaida no atentado porque o grupo terrorista era aliado da NATO na operação para destruir o país, na Síria mantiveram-se os laços com a mesma organização criminosa. O KKR, sob a direcção de Petraeus, foi um facilitador fundamental na chamada Operação Madeira de Sicómoro autorizada por Barack Obama e que consistiu numa das maiores canalizações de financiamento e armamento da história destinada a grupos terroristas - al-Qaida e Estado Islâmico incluídos. Ora a título público, como na Líbia, ora a título privado, como na Síria, o general David Petraeus manteve-se fiel ao objectivo de destruir nações através da guerra e de agressões externas conduzidas por mercenários ditos “fundamentalistas islâmicos” – e sempre do lado dos interesses defendidos pela NATO. Não pode, portanto, ser mais recomendável o seu know-how para o Centro de Excelência de Tallin. Onde Petraeus pode agora expandir o seu negócio de cibersegurança através da Europa, via NATO, recorrendo às empresas Optiv e Darktrace, subsidiárias do KKR.
Os feitos do ex-ministro da Defesa holandês não serão tão sonantes, mas afirmam-se prometedores
 Koen Gisjbers acumula o lugar no Conselho Consultivo no Centro de Excelência da NATO com o de consultor privado do Ministério holandês da Defesa, que já dirigiu, e ainda com as posições de “ciberconsultor” das empresas Cyber4Board e a britânica CyNation.
Já este ano, o ex-ministro holandês da Defesa juntou-se ainda ao Conselho Consultivo da CybExer Technologies, sociedade com sede na Estónia que vende acções de formação em cibersegurança a empresas privadas e governos de países membros da NATO.
Para que o funcionamento seja mais sinergético, a CybExer e o Centro de Excelência da NATO em Tallin partilham alguns altos quadros, transformando-se assim em mais um exemplo das soluções público-privadas.
Portugal não perde o comboio
Uma vez que o CCDCOE e a sua estrutura prestam serviços aos governos de países da NATO, é importante saber que o executivo de Portugal não foi apanhado desprevenido.
Sob palavras entusiásticas e lúcidas advertências do ministro da Defesa, Dr. Azeredo Lopes, Portugal tornou-se membro do Centro de Excelência de Tallin no dia 24 de Abril deste ano. “Lidamos com ciberameaças diariamente”, alertou o ministro. “Ameaças e ataques que são cada vez mais sofisticados e potencialmente mais perigosos, adensando um ambiente de ameaça complexo que encontra na guerra híbrida a sua dimensão mais espectacular”, insistiu o Dr. Azeredo Lopes.
O ministro português demonstrou, deste modo, estar à altura das exigências, a todos os níveis, não se esquecendo de enfatizar como a guerra “é espectacular” e o seu carácter “híbrido”, tal como é híbrida a função do Centro de Excelência da NATO em Tallin.
O acto de adesão de Portugal, aliás, tem o cuidado de lembrar que já em 2016, na Cimeira de Varsóvia, a NATO declarara o ciberespaço “como um novo domínio operacional, tão relevante como o ar, a terra e o mar”.
Faltou enunciar um quinto domínio operacional: o dos negócios. Omissão assisada, pois sabe-se como o segredo é a alma dos ditos: em Tallin como em qualquer outro lugar, sobretudo se for com ambição “de excelência”.

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