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OS GOLPES NA MACEDÓNIA E A GRANDE ALBÂNIA

Um mapa esboçado mas que ganha contornos reais

2019-03-22

José Goulão

O presidente da Antiga República Jugoslava da Macedónia (FYROM), Gjorge Ivanov, não promulgou a primeira lei do Parlamento de Skopje que lhe foi apresentada com o timbre de “República da Macedónia do Norte”. Apesar disso, a lei foi publicada no Boletim Oficial, com a assinatura do Presidente da Câmara dos Deputados, o que viola a Constituição. Consumou-se assim, de modo “plenamente democrático”, mais uma etapa do golpe patrocinado pela NATO e a União Europeia neste território balcânico.

A “exportação da democracia” para os Balcãs continua passo-a-passo, agora sob a direcção de políticos e diplomatas dos Estados Unidos, da NATO e da União Europeia. As etapas sucedem-se em forma de golpes político-eleitorais – um pouco à imagem do processo na América Latina – depois de a guerra que destruiu a Jugoslávia ter deixado um “caos criador”, como no Iraque ou na Líbia. A selvajaria colonial redundou em soluções “negociadas” que só podem funcionar sob tutela dos ocupantes militares da aliança expansionista e das entidades “soft power” norte-americanas, que manipulam os processos político-eleitorais conforme as conveniências de Washington. A Bósnia-Herzegovina e o Kosovo são os casos mais conhecidos e mediatizados – segundo as normas da censura atlantista – mas não passam de partes de um todo que é o controlo do conjunto da região balcânica pela NATO e a União Europeia; um processo que pretende extirpar quaisquer suspeitas de “influência russa”, ainda que sejam de índoles culturais, linguísticas e religiosas e estejam enraizadas há séculos em vastas comunidades da região. É uma forma de limpeza étnica, menos dolorosa fisicamente mas que não deixa de ser criminosa.
A Macedónia é a mais exemplar transformação em curso, sobretudo porque os episódios revelam como esta forma de “democracia” não olha a meios para atingir os fins.

Do Tratado de Prespa ao golpe parlamentar

A recusa do presidente macedónio em promulgar as leis da “República da Macedónia do Norte” não é um capricho ou uma teimosia. É um legítimo acto constitucional para recordar que há muitos meses o funcionamento do Estado se tornou incompatível não apenas com a Lei Fundamental em vigor, mas também com os mais elementares princípios da decência e da transparência.
A fase em curso começou com o Tratado de Prespa, em 12 de Junho de 2018, arquitectado pelo diplomata norte-americano Geoffrey R. Pyatt, considerado um dos principais operacionais do golpe na Praça Maidan, em Kiev, que colocou a Ucrânia sob o domínio de um aparelho político-militar nazi. Pyatt contou com a conivência submissa do primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, e do chefe do governo macedónio, o “socialista” neoliberal Zoran Zaev.
Zaev protagonizara o golpe fracassado de 2015 em Skopje, organizado pela CIA segundo o modelo dos acontecimentos de dois anos antes em Kiev. Acabou por ascender ao cargo de chefe do governo através de eleições muito bem financiadas.
O Tratado de Prespa, patrocinado pela NATO e pela União Europeia, formalmente sob a égide da ONU, é suposto encerrar o contencioso entre a Grécia a Macedónia ex-jugoslava, passando este território a designar-se “República da Macedónia do Norte”, permanecendo a província grega adjacente com a mesma designação – Macedónia.
A sua ratificação pela parte da FYROM exigia a aprovação em referendo, que decorreu em 30 de Setembro do ano passado, na presença sombria do então secretário de Estado norte-americano, James Mattis.
A oposição, onde o ramo mais poderoso é o movimento nacionalista VMRO, do presidente Gjorge Ivanov, apelou ao boicote da consulta e, de facto, dois terços dos eleitores alhearam-se do acto, invalidando-o. A afluência às urnas foi de 37%, portanto muito aquém dos exigidos 50%.

Um Parlamento kafkiano

A NATO e a União Europeia não aceitaram a derrota e, sob o comando directo do embaixador norte-americano em Skopje, Jess Baily, a decisão de ratificação transitou para o Parlamento, onde a oposição tem uma maioria de nove deputados, o que permitiria bloquear o tratado.
Iniciou-se então uma operação de compra de deputados, com intervenção directa de colaboradores próximos do embaixador norte-americano. Movimentaram-se verbas da ordem dos 250 mil dólares por cada parlamentar do VMRO que desobedecesse à disciplina partidária, acrescidos da possibilidade de emigrarem para os Estados Unidos se precisassem de cuidar da própria segurança.
As votações decisivas fizeram-se na presença do primeiro-ministro Zaev e do próprio embaixador norte-americano, instalados no gabinete do presidente do Parlamento, Talat Xhaferi, o mesmo que agora decidiu “promulgar” leis vetadas pelo chefe de Estado.
Fez-se a ratificação por maioria simples de um voto – e não por dois terços, como determina a Constituição – e assim ficou o golpe quase completo.
A posição do presidente Gjorge Ivanov, cujo mandato está prestes a expirar, era o derradeiro obstáculo, se bem que o seu VMRO pouco tenha feito por bloquear efectivamente a decisão, por exemplo substituindo previamente os deputados que tinham recebido os incentivos “democráticos” da Embaixada dos Estados Unidos.
A assinatura, embora inconstitucional, do presidente do Parlamento pode ter contornado a resistência presidencial, já se si pouco perturbadora do processo, de facto meramente simbólica.
Finalmente os juízes da verdadeira democracia instalados em Bruxelas e Washington podem dar a missão como cumprida: nasceu a “Macedónia do Norte”.

Uma vida efémera

Uma entidade que, porém, pode não representar o fim da linha para os colonizadores dos Balcãs uma vez que, segundo movimentações que vêm ganhando expressão na região, possivelmente a “Macedónia do Norte” terá vida efémera.
Para nos inteirarmos disso basta enunciar acontecimentos que decorrem simultaneamente ao processo golpista macedónio e nos quais este se integra, no âmbito da recomposição de toda a região à medida dos interesses coloniais atlantistas.
Contra o direito internacional, mas sempre com o aval dos fiscais da democracia, os terroristas islâmicos que formam o governo do Kosovo dotaram-se de um exército regular e aboliram as fronteiras com a Albânia.
O Kosovo, recorda-se, é uma província da Sérvia que está, de facto, sob tutela internacional exercida pela NATO e a União Europeia. Na prática, transformou-se numa imensa base militar atlantista. As movimentações em curso podem representar, na realidade, uma secessão do Kosovo em relação à Sérvia e a integração do território na Albânia, passo determinante para a consumação da Grande Albânia, um velho sonho de Tirana e, ao que parece, uma recomposição regional que corresponde às efectivas pretensões de Washington. É um facto que o islamismo político, mais ou menos radical, tem funcionado como um instrumento preferencial do expansionismo norte-americano e o caso dos Balcãs não é excepção, como se observa na Bósnia e no Kosovo.
Poder-se-á pensar, aqui chegados, que tudo isto parece bem encaminhado nas perspectivas de Washington e Bruxelas; mas a Sérvia é uma potência regional com uma palavra a dizer, tanto em relação ao Kosovo com ao expansionismo albanês. É conhecido – como ficou demonstrado na guerra de destruição da Jugoslávia – o antagonismo entre os polos muçulmano, a Albânia, e cristão ortodoxo, a Sérvia. Com a agravante regional de esta polarização trazer no bojo o sempre terrível problema da “ameaça russa”, olhada, em mais este caso, como um estorvo para o total domínio norte-americano.

A “pró-democracia” na Sérvia

A esta luz não é difícil perceber o verdadeiro significado dos protestos “pró-democracia” que continuam a decorrer na Sérvia contra os poderes instalados, que não escondem a sua simpatia pela União Europeia mas parecem ser também – pelo menos é o que reza a propaganda da oposição – uns temíveis pró-russos.
Nada disso, na verdade. O que está em causa é fazer na Sérvia as mudanças para que o país se alinhe placidamente pelo eixo Washington-Bruxelas. Assim sendo, deixará de haver um poder real contra a transferência de soberania do Kosovo de Belgrado para Tirana e a construção da Grande Albânia.
O expansionismo albanês é, por seu turno, a maior ameaça contra a “República da Macedónia do Norte”.
Os albaneses da Macedónia estão incluídos no cardápio das comunidades vocacionadas para integrar a Grande Albânia. Para Washington, as excepções regionais serão os albaneses do Montenegro – não vale a pena desfazer um país que já funciona como mais uma base da NATO – e, obviamente, a comunidade albanesa da província grega da Macedónia.
Amputada da significativa minoria albanesa, poucas hipóteses terá a “Macedónia do Norte” de sobreviver como Estado. Isolados, os cristãos ortodoxos macedónios ficarão a depender do lado mais forte em toda a região balcânica, a bem dizer o lado senhor e único. E para que não haja quaisquer laivos de resistência, decorrem também em Skopje manobras para que a Igreja Ortodoxa da Macedónia se separe do Patriarcado de Moscovo para se alinhar por Constantinopla. A exemplo do que já aconteceu na Ucrânia, por obra e graça do presidente Porochenko e da sua guarda pretoriana nazi.
Uma Grande Albânia membro da NATO e da União Europeia que seja o paraíso da mafia transnacional albanesa e a verdadeira filial do poder de Washington no Sudoeste Balcânico, convivendo com uma Sérvia depurada de quaisquer “correias de transmissão” a Moscovo é, como se percebe, o objectivo final da sucessão de golpes em desenvolvimento para estender a verdadeira e única “democracia” a toda a região.
Para atingir esse objectivo, o expansionismo colonial atlantista não olha a meios. Aliás, seria estranho que o fizesse depois de deixar marcas tão indeléveis como “democráticas” nos seus rastos no Afeganistão, no Iraque, na Síria, na Líbia, no Iémen - ou como está a deixar na América Latina.



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