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AS MIGRAÇÕES COMO TRÁFICO DE MÃO-DE-OBRA BARATA

Sem palavras

2019-03-16

Marco A. Gandásegui Filho*, America Latina en Movimiento/O Lado Oculto

Há poucos dias, cerca de 700 migrantes apareceram na fronteira entre o Panamá e a Colômbia. Cubanos, haitianos e africanos. Chegaram em grupos muito bem organizados por traficantes humanos, pagos para que os seus clientes cheguem aos Estados Unidos. Ao longo dos anos mais recentes, o fenómeno repete-se cada vez com maior frequência. Como política, o governo do Panamá apenas pensa em metê-los em autocarros e encaminhá-los para a fronteira seguinte, com a Costa Rica. Não quer saber de onde vêm nem quais são as suas características.

A conferência convocada pela ONU para que os seus membros chegassem a acordo sobre as migrações internacionais provocou muita agitação. Alguns países rejeitaram – entre eles os Estados Unidos – a proposta dos especialistas políticos, por considerá-la lesiva dos seus interesses nacionais. Durante a conferência nem sequer foram analisadas as causas dos movimentos das populações. Tão pouco se considerou necessário que os países de onde partem os fluxos migrantes criem mecanismos para compreender o fenómeno. A informação sobre a matéria é utilizada exclusivamente pelos países industrializados e são estes a estabelecer as políticas em seu benefício. Enquanto a Europa, os Estados Unidos e o Japão têm políticas estritas para receber migrações, os demais países são obrigados a submeter-se às necessidades de mão-de-obra daqueles. A conferência das Nações Unidas foi um espelho desta realidade, da qual tiram proveito os países que procuram mão-de-obra (barata).

Capitalismo comanda as migrações

As migrações são tão antigas como a humanidade. Quando a natalidade supera a mortalidade e o emprego não cresce produzem-se migrações. Há pouco mais de meio século que a população que habita a Terra entrou no que se chama uma “transição demográfica”. Nos países mais industrializados, a tecnologia contribuiu para a baixa da taxa de mortalidade e, simultaneamente, a natalidade começou a regredir. A taxa de crescimento da população também começou a diminuir (na Europa estagnou e coisa semelhante aconteceu nos Estados Unidos). A população envelheceu com a diminuição da mortalidade e também da natalidade.
Nos países menos industrializados, a mortalidade diminuiu rapidamente (entre 1945 e 1965), mas a taxa de natalidade começou a baixar até à década de setenta. Os especialistas fizeram soar as campainhas de alarme alertando que a Terra estava a viver uma “explosão demográfica”: o desenvolvimento do capitalismo, que diminuiu a taxa de crescimento da população nos países mais industrializados, teria o mesmo efeito no resto do mundo. No século XXI, os Estados Unidos, a Europa e o Japão – que iniciaram mais cedo a transição demográfica – têm um problema de escassez de mão-de-obra para todos os trabalhos que as suas economias requerem para gerar riqueza.

Causas de migrações não faltam

Onde podem esses países industrializados encontrar a mão-de-obra de que necessitam? Obviamente nos países que apenas estão a iniciar a transição demográfica e que, no modelo de crescimento capitalista, têm população de sobra. Os Estados Unidos encontram essa população ao sul das suas fronteiras: nas Caraíbas, no México e na América Central. A Europa procura trabalhadores no Médio Oriente e em África. Contudo, o processo não é automático nem simples. Há que provocá-lo pela força. Por exemplo, a Alemanha necessitava de um milhão de trabalhadores para a sua pujante economia capitalista, sufocada por falta de mão-de-obra. Em 2017 conseguiu incorporar essa massa laboral, chegada principalmente da Síria e de outros países do Médio Oriente, que resolveu, em parte, a escassez. Berlim manipulou a sua crise para transformá-la num problema europeu, obrigando os outros países a receber migrações em massa. A operação política foi um fracasso, mas as grandes corporações alemãs alcançaram o seu objectivo.
Os Estados Unidos e a Europa têm políticas de população que incluem as migrações. Sabem o que querem e têm objectivos a curto, médio e longo  prazos, até 2025, até ao fim do século ou mais. O Panamá, por exemplo, não tem políticas de população. O governo ignora que estamos numa “transição demográfica” e desconhece os efeitos que as migrações terão no país. Assina acordos internacionais porque isso é “politicamente correcto”. Ora primeiro há que estudar o problema para depois assinar os acordos.

*Professor de Sociologia da Universidade do Panamá e investigador associado do Centro de Estudos Latino-Americanos (CELA)




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