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O ESTRANHO MUNDO DA FUNDAÇÃO INTERPOL

2018-09-14

Lourdes Hubermann, Berlim
Nome: Fundação Interpol; missão: “Aproximar as polícias de todo o mundo para um mundo mais seguro”. Oficialmente é uma entidade independente da Interpol - “não tem nada a ver com a Interpol”. Mas… existe um “gabinete de ligação”; e a fundação nasceu em 2013 “para fazer entrar dinheiro na Interpol”. Entre os doadores e membros do Conselho da Fundação Interpol cruzam-se grandes patrões internacionais, Estados patrocinadores de terrorismo e corrupção, altos frequentadores de paraísos fiscais, ex-polícias que encobrem contrabandistas de diamantes de sangue. Estranhas coisas existem neste mundo com a missão de “torná-lo mais seguro”.

Ronald K. Noble, cidadão norte-americano, teve um sonho em 2013, altura em que era o chefe da Interpol, a Organização Internacional de Polícia Criminal: conseguir um orçamento de mil milhões de euros anuais para a entidade, de modo a alcançar “um mundo mais seguro”.
Um sonho de monta, diga-se. Em números redondos, o orçamento da Interpol não chega a 150 milhões de dólares.
Se a tarefa parecia impossível através dos canais institucionais determinados pelo estatuto da organização, talvez se tornasse viável recorrendo a outras formas de financiamento. E assim nasceu a Fundação Interpol.
“A polícia não pode por si só tornar o mundo mais seguro”, lê-se hoje na brochura de apresentação da fundação. Esse objectivo terá que ser “uma responsabilidade colectiva, que necessita de uma aliança à escala mundial entre governos, empresas e a sociedade civil”.
O próprio Ronald K. Noble já antecipara trabalho, sempre movido pelo “sonho”. Conseguira desenvolver parcerias com entidades acima de quaisquer suspeitas, conhecidas por terem folhas policiais merecidamente limpas como multinacionais do tabaco e da indústria química e farmacêutica, a exemplar FIFA – federação gestora do futebol mundial – e o não menos recomendável Qatar, com os seus reconhecidos apoios ao terrorismo Islâmico.
Como existe sempre alguém pronto a levantar desconfianças quando se estabelecem estas associações bem-intencionadas - “parcerias público-privadas”, como são também conhecidas no Conselho da Fundação Interpol - tornou-se necessário clarificar a situação.
A Fundação Interpol “não tem nada a ver com a Interpol”, garantiu um porta-voz, Kris D’hoore, ao canal ARTE. Porém, acrescentou, existe “um gabinete de ligação”: a Fundação Interpol “nasceu para fazer entrar dinheiro na Interpol”, ainda que sendo “uma entidade completamente independente”.
Gente de bem
A Fundação Interpol nasceu para tornar “o mundo mais seguro” principalmente em sete áreas de acção, entre elas o comércio de estupefacientes e outras mercadorias ilícitas, a cibercriminalidade, o tráfico de peças do património mundial e, como não podia deixar de ser, o terrorismo e o chamado “crime de colarinho branco”.
Investigando as listas de doadores e de membros do Conselho, rapidamente se conclui que a Fundação Interpol se relacionou com as pessoas e as entidades certas e ajustadas à sua missão.
À cabeça dos seus doadores estão os Emirados Árabes Unidos, através de uma generosa comparticipação de 50 milhões de dólares, mais de um terço do orçamento global da Interpol. Como, em nome da transparência, os estatutos da fundação impedem contribuições acima de 15% do orçamento da polícia, houve necessidade de contornar a dificuldade: fatiou-se a verba em cinco tranches anuais de 10 milhões.
Ficou assim resolvida a única incompatibilidade que poderia existir entre o donativo da petroditadura do Golfo e os objectivos da Fundação da polícia criminal mundial. Outras situações controversas foram certamente consideradas irrelevantes. Como o facto de os Emirados Árabes Unidos serem financiadores dos grupos terroristas que levaram a destruição através das guerras contra a Líbia e a Síria; e terem pendentes algumas acusações de prática de crimes contra a humanidade pela participação na agressão ao Iémen.
O presidente do Conselho da Fundação Interpol é um cidadão libanês: Elias Murr, ex-vice-primeiro ministro do polémico regime de Rafic Hariri, ele próprio citado no chamado escândalo “SwissLeaks”, que revelou as pistas de grandes verbas escondidas em bancos suíços com origem em crimes de “colarinho branco” e de tráficos de sangue, como o de diamantes. Em relação a estes assuntos, Elias Murr explicou que os milhares de dólares cuja propriedade lhe é atribuída não resultam de actividades públicas. Ficou a Fundação Interpol satisfeita com o esclarecimento.
Entre os membros do Conselho estão o príncipe Alberto II do Mónaco e Stuart Gulliver, presidente do banco HSBC, entidade central do mesmo escândalo “SwissLeaks”. Segundo um consórcio de jornalistas de investigação, através do seu ramo Private Bank o HSBC concentra contas relativas a muitas e variadas actividades lucrativas: tráfico de diamantes de sangue conduzido por indivíduos procurados pela Interpol, terrorismo internacional envolvendo inclusivamente figuras da al-Qaida, depósitos de dinheiro sujo pertencente a ditadores de vários países e continentes.
O próprio Gulliver possui uma conta escondida na filial de Genebra do HSBC, por incumbência de uma sociedade offshore do Panamá. Por essa razão, foi aconselhado a suspender o seu mandato no Conselho da Fundação Interpol. E foi substituído por Douglas Flint, presidente-executivo do mesmo HSBC.
Outras figuras distintas e notáveis integram o Conselho da Fundação Interpol. Por exemplo Wong Kan Seng, antigo vice-primeiro ministro do regime ditatorial de Singapura; o presidente da Renault, Carlos Ghosn; Keith Bristow, antigo director da agência policial britânica equivalente ao FBI e que foi encarregado de fazer uma auditoria à própria Fundação Interpol, mesmo sendo conselheiro da Arcanun Global, uma agência privada de espionagem económica que tem entre os seus clientes, por exemplo, a ditadura do Casaquistão; o paquistanês Arif Naqvi, fundador do fundo de investimento Abraaj, com sede no Dubai, envolvido em falências fraudulentas; e o magnata francês Olivier Dassault.
Filho do fundador do império Dassault Aviation, Olivier Dassault abandonou temporariamente o cargo de presidente do Conselho Fiscal do grupo da família para abraçar o ideal macronista, na posição de deputado.
Quando em funções empresariais, foi protagonista de um escândalo de fuga ao IVA francês através da comercialização de jactos privados Falcon, tendo como clientes empresas offshore com sede na Ilha de Man.
Em comunicado, Olivier Dassault, membro do Conselho da Fundação Interpol que combate o crime “de colarinho branco”, explicou que sempre cumpriu “com as obrigações fiscais” e, por outro lado, nada tem a ver com os lugares onde os clientes têm as sedes das suas empresas.
Portanto, apurados os factos e os exemplos da Fundação Interpol, redobre a atenção quando lhe prometerem “um mundo mais seguro”.



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