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UMA IMPORTANTE REFLEXÃO SOBRE O MONSTRO RACISTA

2019-01-29

Colectivos afrodescendentes, pessoas negras e activistas anti-racistas divulgaram uma reflexão oportuna e pertinente sobre uma realidade crua e dura, a do racismo latente e activo na sociedade portuguesa. A propósito dos acontecimentos de vários tipos que têm vindo a ser noticiados nos últimos dias, O documento desmonta a mentalidade segregacionista enraizada e também o modo como é utilizada e explorada através de múltiplos canais, especialmente a comunicação mainstream, quantas vezes esmagando o princípio da presunção de inocência. Por ser uma peça fundamental para um debate e um esclarecimento que urgem, publicamos o documento na íntegra, um texto que os subscritores intitularam “STOP Criminalização do corpo negro e dos bairros periféricos”.

“Inúmeras peças jornalísticas criaram a ficção de que está em curso uma onda de vandalismo, precipitando-se a imputar implícita ou explicitamente às populações negras e pobres dos bairros periféricos a culpa pelo espancamento que agentes da polícia infligiram a moradores desarmados no Bairro de Vale de Chicharos, também conhecido como Bairro da Jamaica; a culpa pelas balas de borracha disparadas contra centenas de jovens, na maioria negros que, num puro acto de exercício da sua cidadania, se manifestaram na Avenida da Liberdade.
Estes não são casos isolados, foi assim com as falsas notícias sobre o pretenso “arrastão” na praia de Carcavelos (2005), o suposto meet de “marginais” no Vasco da Gama (2014) e a falsa “invasão” da esquadra de Alfragide (2015).
Os episódios de fogo posto e de vandalização, que ocorreram nas últimas noites, em vários concelhos da Área Metropolitana de Lisboa, visam descredibilizar e abafar as nossas reivindicações, silenciar as denúncias de violência policial e sobretudo desviar o foco deste debate premente da sociedade portuguesa, que é a violência policial exercida sistematicamente contra as comunidades racializadas. Aliás, no que diz respeito aos incidentes no Bairro da Bela Vista, Carlos Rabaçal, Vereador da Câmara Municipal de Setúbal, disse recentemente ter-se apurado que se trataram de reações de “miudismo de gente branca”.
As formas de luta dos coletivos e comunidades afrodescendentes têm-se caraterizado por estratégias positivas e construtivas, que vão desde o contributo enquanto trabalhadores, como formas de organização coletiva que enriquecem a nossa democracia e Portugal.
Os meios de comunicação social mainstream têm uma enorme responsabilidade na difusão de preconceitos e estereótipos concernentes aos negros e negras de Portugal. Ao invés de contextualizarem os acontecimentos e desconstruírem o imaginário racista da sociedade portuguesa, os nossos media insistem em lucrar com a nossa desumanização arrastando-nos vezes sem conta para a ficção estereotipada do “jovem negro criminoso”. Depois de notícias como as que saíram, nos últimos dias, para a praça pública impunemente, é pesado o manto de violência racista – da mais inorgânica à extrema-direita organizada - que se abateu sobre nós e sobre todos aqueles que tenham a coragem de apontar publicamente o racismo na sociedade portuguesa. Não há desmentido, retratamento ou contraditório posterior que verdadeiramente repare os danos causados, mas exigimo-lo ainda assim, aos meios de comunicação social responsáveis, à Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) e a outras autoridades competentes.
Nós, coletivos afrodescendentes, pessoas negras e activistas anti-racistas, repudiamos enérgica e veementemente que, mais uma vez, vários media portugueses tenham optado por construir conteúdos que, implícita ou explicitamente, criminalizam os corpos negros e os bairros periféricos, sem se preocupar com o princípio da presunção da inocência, o princípio do contraditório e a busca da verdade.”

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