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O PARADOXO DE SALVINI E KAKCZYNSKI NA UE

Delegações da Itália e Polónia reunidas, com Salvini e Kaczynski ao centro

2019-01-22

Por conter uma reflexão que consideramos interessante e actual, embora meramente sectorial em termos de espectro político, publicamos este texto sobre o populismo/nacionalismo e o choque de tendências políticas na União Europeia.

Angelos Chryssogelos*, EUobserver; adaptação de O Lado Oculto

O facto de a recente reunião entre o vice-primeiro ministro italiano Matteo Salvini e aquele que é, de facto, o dirigente máximo da Polónia, Jaroslaw Kaczynski, ter sido um importante acontecimento político dentro da União Europeia é um indicador de como o centro de gravidade da política na Europa se alterou.

Se recuarmos alguns anos, um encontro entre o dirigente da Liga italiana e o presidente do Partido da Lei e da Justiça da Polónia seria pouco mais do que uma simples reunião de políticos nacionalistas, isolados nos seus países e sem influência no estrangeiro.
No presente, Salvini e Kaczynski são líderes, de facto, nos seus países e os chefes máximos daqueles que serão o terceiro e quinto Estados mais influentes da União Europeia, depois da saída do Reino Unido; pelo que uma reunião entre eles foi efectivamente uma cimeira diplomática com importantes repercussões.

“Eixo de poder”

A declaração feita por Salvini de que a Itália e a Polónia irão formar um “eixo” contra o domínio franco-germânico não é uma fanfarronice.
A coordenação entre populistas no poder em Itália, na Polónia e noutros Estados-membros pode ser crucial na definição das perspectivas da União Europeia para os próximos cinco anos.
Após as eleições europeias de Maio, esses governos, juntamente com os de outros países, poderão vir a decidir quem irá ocupar os cargos de presidente da Comissão Europeia e de chefe dos Serviços de Acção Externa da União, além de virem a ser codecisores do mandato da nova Comissão, com capacidade para influir nos seus poderes em termos de capitais nacionais, políticas de migração e de controlo de fronteiras.
Porém, a perspectiva de uma cooperação mais profunda entre os nacionalistas de Roma e Varsóvia põe em evidência uma outra ampla realidade na política europeia: o facto de a gestão da União ser cada vez mais determinada pela capacidade de os dirigentes promoverem agendas nacionais e de as reformular como projectos ideológicos europeus.
Numa Europa onde as arenas políticas nacionais estão cada vez mais interligadas, devido ao impacto de questões de âmbito continental – a economia, a imigração e o terrorismo – a capacidade dos políticos para corresponderem a tendências púbicas que estão para além dos seus eleitorados nacionais aumenta o peso de negociação dos seus países nas instituições da União.
Por isso, a paisagem política actual da União Europeia não é dominada pela visão federalista de uma esfera pública supranacional, nem pelo modelo clássico de gestão intergovernamental entre Estados soberanos.
Em vez disso, a União Europeia parece orientar-se pelo desenvolvimento num terreno de gestão ideológica onde as políticas externas nacionais e os elos partidários e ideológicos transnacionais se cruzam e reforçam mutuamente segundo teias complexas; um terreno onde os políticos nacionais obscurecem, de bom grado, os papéis dos gestores.
O impacto prática dessa fusão de política externa com a lógica de defesa ideológica e os jogos partidários tem duplo sentido.

Populistas procuram plataforma

Em primeiro lugar, esse impacto faz com que a agenda da evolução dos populistas e dos eurocépticos nacionalistas esteja em evolução, uma vez que têm cada vez mais a percepção de que o objectivo de desmantelar a União não apenas é irrealista, dispendioso e impopular, como também liquida valiosas oportunidades para acumular capital político e capacidade de influência.
Para políticos como Salvini, o terreno político em que actuam é transnacional, o que lhes permite perseguir em simultâneo o objectivo de dominar a política interna dos seus países e aumentarem a influência na definição dos procedimentos da União Europeia.
Em segundo lugar, o impacto da nova fusão política obriga os partidos tradicionais pró-União Europeia a reconsiderarem o seu posicionamento ideológico.
Construir coligações políticas transnacionais com impacto é uma tarefa que requer planeamento sério, perseverança e um pragmatismo intransigente, como demonstra a ambição frustrada de Emmanuel Macron de lançar um movimento liberal pan-europeu.
É irónico como, em comparação com Macron, dirigentes nacionalistas como Salvini e o húngaro Viktor Orban se tenham mostrado muito mais aptos a navegar nesta intersecção da política externa com a construção de uma coligação transnacional e o enquadramento ideológico.
O dinamismo da intervenção transfronteiriça dos nacionalistas deverá motivar os partidos até agora dominantes a repensarem a visibilidade e a capacidade de atracção das suas próprias estruturas de cooperação transnacional.

Partidos dominantes perderam terreno

Apesar dos esforços com o processo de escolha do presidente do Partido Popular Europeu – o chamado Spitzenkandidat – para aumentar a visibilidade da competição política transnacional entre as famílias partidárias tradicionais, as federações partidárias europeias ainda se limitam ao papel de facilitadoras da comunicação e da criação de redes de políticos nacionais nas instituições da União; mais do que a expressão de diferentes visões ideológicas para a Europa.
Embora os políticos dos chamados centro-direita e centro-esquerda se considerem pró-europeus, na prática as suas ambições políticas raramente vão além do interesse em administrar os seus cenários políticos domésticos.
No entanto, à medida que Salvini e companhia levam o seu desafio anti-EU do palco nacional para o europeu, os políticos tradicionais também terão de pensar, agir e comunicar de maneiras que lhes permitam marcar presença e conseguir influência para lá das fronteiras nacionais.
Para os políticos europeus de hoje, a promoção dos seus interesses e dos seus Estados na União Europeia já não pode ser divorciada da capacidade para os articular em termos ideológicos que transcendam as fronteiras nacionais.
É um paradoxo da actual União Europeia que o aumento do papel dos interesses nacionais na política de integração europeia também signifique que a estratégia política e a questão ideológica se estejam a tornar, mais do que nunca, europeias em forma, conteúdo e ambição.

*Bolseiro do grupo de investigação Populismo Global/Desafios à Democracia no Centro Weatherhead para Assuntos Internacionais da Universidade norte-americana de Harvard



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