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NEOLIBERALISMO, FUNDAMENTALISMOS E PREGADORES

In God We Trust - confessionalismo e dinheiro, a combinação que deu no que os Estados Unidos são e pretendem que os outros sejam

2019-01-10

Antonio Spadaro*, La Civiltà Cattolica/O Lado Oculto

In God We Trust: a frase impressa nas notas de dinheiro dos Estados Unidos da América é também o seu actual lema nacional. Apareceu pela primeira vez numa moeda do ano de 1864, mas não se tornou oficial até passar por uma resolução conjunta do Congresso, em 1956. Significa “Em Deus confiamos” e é um lema importante para uma nação que, nas raízes da sua fundação, tem também motivações de carácter religioso. Para muitos, trata-se de uma simples declaração de fé, enquanto para outros é a síntese de uma fusão entre religião e Estado, entre fé e política, entre valores religiosos e economia.

Religião, maniqueísmo político e culto do apocalipse

Especialmente em alguns governos dos Estados Unidos das últimas décadas notou-se o crescente papel da religião nos processos eleitorais e nas decisões adoptadas: um papel também de ordem moral na identificação do que parece bem e do que parece mal.
Nesse contexto, o entrelaçamento entre política, moral e religião assumiu uma linguagem maniqueísta que divide a realidade entre o bem absoluto e o mal absoluto. De facto, depois de George W. Bush ter falado de um “eixo do mal” que precisa ser enfrentado e dos acontecimentos do 11 de setembro de 2001, referindo-se à responsabilidade de “libertar o mundo do mal”, hoje o presidente Trump direcciona a sua batalha contra uma entidade colectiva ampla e genérica, a dos “maus” (bad) ou também dos “muito maus” (very bad). Às vezes os tons utilizados por aqueles que o apoiam em algumas campanhas assumem conotações que poderíamos definir como “épicas”.
Estas atitudes estão baseadas em princípios fundamentalistas protestantes evangélicos do início do século passado, que se foram radicalizando pouco a pouco. Na verdade, passou de uma rejeição de tudo aquilo que é “mundano”, como era o caso da política, à busca de uma influência forte e determinada dessa moral religiosa nos processos democráticos e nos seus resultados.
O termo “fundamentalismo evangélico” que hoje pode ser comparado à “direita protestante evangélica” ou “conservadorismo teológico” tem suas origens entre os anos 1910 e 1915. Nessa época, Lyman Stewart, um milionário do sul da Califórnia, publicou 12 volumes intitulados “Os Fundamentos” (The Fundamentals). O autor procurava responder à “ameaça” das ideias modernistas da época resumindo o pensamento dos autores cujo apoio doutrinal apreciava. Deste modo, exemplificava a fé evangélica enquanto aspectos morais, sociais, colectivos e individuais. Entre os apreciadores da obra de Stewart estão vários expoentes políticos e também presidentes recentes como Ronald Reagan e George W. Bush.
O pensamento das comunidades sociais religiosas inspiradas por autores como Stewart considera que os Estados Unidos são uma nação abençoada por Deus e não vacila em associar o crescimento económico do país à adesão literal à Bíblia. Nos últimos anos, isto foi alimentado também pela estigmatização de inimigos, que são “demonizados”, por assim dizer.
No mundo em que se baseia a sua rejeição do American way of life estavam os espíritos modernistas, os direitos dos negros, os movimentos hippies, o comunismo, os movimentos feministas, e assim continua a ser, até chegar aos imigrantes e muçulmanos de hoje.
Para manter o nível do conflito, as suas exegeses bíblicas foram impulsionadas, cada vez mais, por leituras descontextualizadas dos textos do Antigo Testamento sobre a conquista e a defesa da “terra prometida”, mais do que guiadas pela visão incisiva e cheia de amor de Jesus nos Evangelhos.

A arma do maniqueísmo

Dentro desta narrativa, não se condena aquele que impulsiona o conflito. Não se considera o vínculo existente entre capital e lucro e a venda de armas. Pelo contrário, com frequência a mesma guerra é assimilada às heroicas empresas de conquista do “Deus dos exércitos” de Gedeão e David. Segundo esta visão maniqueísta, as armas podem assumir uma justificação de carácter teológico e hoje não faltam pastores que buscam para isso um fundamento bíblico, utilizando fragmentos das Escrituras como desculpas fora de contexto.
Outro aspecto interessante é a relação que esta colectividade religiosa tem com a criação. Há uma espécie de “anestesia” em relação aos desastres ecológicos e os problemas gerados pela mudança climática. A “teologia do domínio” que professam - que considera os ecologistas como pessoas contrárias à fé cristã - arruína suas próprias raízes através de uma compreensão literal dos relatos da criação do livro do Génesis, uma compreensão que coloca o homem numa situação de “domínio” sobre a criação, submetendo esta ao arbítrio do homem, numa bíblica “submissão”.
Nesta visão teológica, os desastres naturais, as dramáticas mudanças climáticas e a crise ecológica global não são percebidas somente como um alarme que deveria conduzir à revisão dos dogmas, mas, pelo contrário, como sinais que confirmam uma compreensão não alegórica das figuras finais do livro do Apocalipse e a esperança em “céus novos e uma terra nova”.
Trata-se de uma fórmula profética: combater as ameaças que pairam sobre os valores cristãos norte-americanos e esperar a iminente justiça de um Armagedão, um ajuste de contas final entre o bem e o mal, entre Deus e Satanás. Neste sentido, todo “processo” (de paz, diálogo, etc.) colapsa diante da urgência do fim, da batalha final contra o inimigo. E a comunidade dos que crêem, da fé, converte-se na comunidade dos combatentes, da batalha. Uma leitura unidireccional dos textos bíblicos como esta pode apoiar activamente as situações mais atrozes e dramáticas que o mundo vive fora das fronteiras da própria “terra prometida”.

O fundamentalismo de Steve Bannon

O pastor Rousas John Rushdoony (1916-2001) é o pai do denominado “reconstrucionismo cristão” ou (“teologia do domínio”), que teve um grande impacto na visão teopolítica do fundamentalismo cristão. É a doutrina que alimenta organizações e redes políticas como o Council for National Policy e o pensamento de seus expoentes, como Steve Bannon, ex-estratego da Casa Branca e partidário de uma geopolítica apocalíptica.
“A primeira coisa que temos de fazer é dar voz às nossas Igrejas”, dizem alguns. O significado real deste tipo de expressão é a possibilidade de influenciar na esfera política, parlamentar, judicial e educativa para submeter as normas públicas à moral religiosa.
Na verdade, a doutrina de Rushdoony sustenta a necessidade teocrática de submeter o Estado à Bíblia, com uma lógica que não difere da que inspira o fundamentalismo islâmico. No fundo, a narrativa de terror que alimenta o imaginário dos jihadistas e os dos neocruzados bebe nas mesmas fontes. Não pode esquecer-se que a teopolítica que inspira a propaganda do Estado Islâmico está fundada no mesmo culto de um apocalipse que deve ser adiantado o mais rapidamente possível. Portanto, não é casual que George W. Bush tenha sido reconhecido como um “grande cruzado” pelo próprio Osama bin Laden.

Teologia da prosperidade e retórica da liberdade religiosa

Outro fenómeno importante relacionado com o maniqueísmo político é a passagem do puritanismo original, baseado em “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, de Max Weber, à "teologia da prosperidade", defendida principalmente pelos milionários e pastores dos media e organizações missionárias com uma forte influência religiosa, social e política. Eles anunciam um "evangelho da prosperidade", segundo o qual Deus deseja que os crentes desfrutem de saúde física, riqueza material e felicidade pessoal.
É fácil perceber como algumas mensagens das campanhas eleitorais e a sua semiótica são abundantes em referências ao fundamentalismo evangélico. Por exemplo, são comuns as imagens em que líderes políticos aparecem triunfalmente com uma Bíblia nas mãos.
Uma figura relevante que inspirou presidentes como Richard Nixon, Ronald Reagan e Donald Trump é o pastor Norman Vincent Peale (1898-1993), que oficiou o primeiro casamento do actual presidente e o funeral dos seus pais. Peale foi um pregador de sucesso: vendeu milhões de cópias do seu livro “O Poder do Pensamento Positivo” (1952), cheio de frases como "quem acreditar que pode conseguir algo, certamente conseguirá", "quem repetir ‘Deus está comigo, quem será contra mim?’, nada te vai deter”, ”crie uma imagem de sucesso na sua mente, e o sucesso chegará”, etc. Muitos telepregadores da prosperidade misturam marketing, direcção estratégica e pregação, concentrando-se mais no sucesso pessoal do que na salvação ou na vida eterna.
Um terceiro elemento relacionado com o maniqueísmo e o “evangelho da prosperidade” é um modo particular de proclamar a defesa da "liberdade religiosa". A liberdade religiosa, nesta perspectiva, enfrenta uma ameaça séria dentro de um secularismo crescente. Por isso, é necessário evitar que a sua defesa esteja de acordo com o ritmo dos fundamentalismos da "religião em liberdade", percebida como um desafio virtual directo à laicidade do Estado.
O ecumenismo fundamentalista
Com base nos valores do fundamentalismo desenvolve-se uma estranha e surpreendente forma de ecumenismo entre fundamentalistas evangélicos e integristas católicos, unidos pela mesma vontade de criar uma influência directa da religião na dimensão política.
Alguns que se consideram católicos às vezes expressam-se através de formas que, até há pouco tempo, eram desconhecidas na sua tradição e que estão muito mais próximas dos tons evangélicos. O universo da convergência ecuménica entre sectores que, paradoxalmente, são concorrentes em termos de pertença confessional, está bem definido. Este encontro em torno de objetivos comuns dá-se no terreno das questões como o aborto, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a educação religiosa nas escolas e outros assuntos geralmente considerados morais ou ligados a valores. Tanto os evangélicos como os integristas católicos condenam o ecumenismo católico tradicional; então, unem-se e promovem um ecumenismo do conflito em torno de um sonho nostálgico de um Estado com características teocráticas.
A perspectiva mais perigosa deste ecumenismo estranho pode ser atribuída à sua visão xenofóbica e islamofóbica, que invoca muros e deportações purificadoras. A palavra "ecumenismo" traduz-se, assim, num paradoxo, um "ecumenismo do ódio". A intolerância é a marca celestial de purismo, o reducionismo é a metodologia exegética e o ultraliteralismo é a chave hermenêutica.
É evidente a enorme diferença entre estes conceitos e o ecumenismo incentivado pelo Papa Francisco e diversos líderes cristãos e de outras confissões religiosas, que se move na linha da inclusão, da paz, do encontro e das pontes. Este fenómeno de ecumenismos opostos, com percepções opostas sobre a fé e visões de mundo nas quais as religiões desenvolvem papéis irreconciliáveis, é, talvez, o aspecto mais desconhecido e, ao mesmo tempo, mais dramático da difusão do fundamentalismo integrista. Neste nível, pode-se compreender o significado histórico do compromisso do Papa contra os “muros” e contra qualquer forma de "guerra de religião".

A tentação da “guerra espiritual”

Pelo contrário, o elemento religioso nunca deve ser confundido com o político. Confundir poder espiritual e poder temporal significa colocar um ao serviço do outro. Uma característica evidente da geopolítica do Papa Francisco não é dar apoio teológico ao poder para se impor ou encontrar um inimigo interno ou externo para combater. Devemos fugir da tentação transversal e "ecuménica" de projectar a divindade no poder político, que é confiado com objectivos específicos. Francisco mina a máquina narrativa dos milenarismos sectários e do "dominionismo", que se prepara para o apocalipse e para o "choque final". O ênfase colocado na misericórdia como atributo fundamental de Deus expressa essa exigência radicalmente cristã.
Francisco quer romper a ligação orgânica entre cultura, política, instituições e a Igreja. A espiritualidade não pode estar ligada a governos ou pactos militares, porque está ao serviço de todos os seres humanos. As religiões não podem considerar alguns como inimigos jurados nem outros como inimigos externos. A religião não deve tornar-se a garantia dos grupos dominantes. E, no entanto, é precisamente esta dinâmica de espúrio sabor teológico que tenta impor sua própria lei e sua própria lógica no campo político.

Abordagem belicista

Nessa linha, é impressionante uma certa retórica usada, por exemplo, pelos arautos da “Church Militant”, uma plataforma digital americana de sucesso alinhada abertamente em favor de um ultraconservadorismo político que usa símbolos cristãos para se impor. Esta instrumentalização é definida como "cristianismo autêntico". Para expressar as suas próprias preferências, criou uma analogia precisa entre Donald Trump e Constantino, por um lado, e entre Hillary Clinton e Diocleciano, por outro. Nesta perspectiva, as eleições norte-americanas foram entendidas como uma "guerra espiritual".
Esta abordagem guerreira e "militante" parece decididamente fascinante e evocadora para um certo público, especialmente porque a vitória de Constantino contra Magêncio - tida como impossível porque o seu opositor tinha o apoio de todo o establishment romano - deve ser atribuída a uma intervenção divina: in hoc signo vinces -“com este sinal vencerás”.
Então, o movimento Church Militant interroga-se se a vitória de Trump poderia ser atribuída à oração dos norte-americanos. A resposta sugerida é positiva. O slogan indirecto do presidente Trump, novo Constantino, é claro: ele deve agir de acordo com isso. Uma mensagem muito directa, portanto, que pretende condicionar a presidência a conotá-la com as características de uma escolha "divina". In hoc signo vinces, precisamente.
Hoje, mais do que nunca, é necessário despir o poder da pomposa roupagem confessional, da sua couraça, da sua armadura enferrujada. O esquema teopolítico fundamentalista quer estabelecer o reino de uma divindade aqui e agora. E, obviamente, a divindade é a projecção ideal do poder constituído. Essa visão gera a ideologia da conquista.
Por outro lado, o esquema teopolítico verdadeiramente cristão é escatológico, isto é, olha para o futuro e pretende orientar a história actual em direcção ao reino de Deus, um reino de justiça e paz. Esta visão gera o processo de integração que se desdobra numa diplomacia que não coroa ninguém como "um homem da Providência".
E é também por isso que a diplomacia da Santa Sé quer estabelecer relações directas e fluidas com as superpotências, mas sem entrar em redes de alianças e influências pré-definidas. Neste contexto, o Papa não quer negar nem concordar com ninguém, porque sabe que na raiz dos conflitos está sempre uma disputa de poder. Portanto, não devemos imaginar um "alinhamento" por razões morais ou, pior ainda, espirituais.

A linha papal

Francisco rejeita radicalmente a ideia da realização do reino de Deus na Terra, que estava na base do Sacro Império Romano e de todas as formas políticas e institucionais similares. Se isso fosse entendido desta maneira, o "povo escolhido" entraria num complicado entrelaçamento de dimensões religiosas e políticas.
Por isso, as raízes cristãs dos povos nunca devem ser entendidas de maneira etnicista. As noções de "raízes" e "identidade" não têm o mesmo conteúdo para o católico e na perspectiva neopagã. Além disso, o etnicismo triunfalista, arrogante e vingativo é o oposto do cristianismo. Em 9 de Maio, o Papa disse numa entrevista ao jornal francês La Croix:

"Sim, a Europa tem raízes cristãs. O cristianismo tem o dever de regá-las, mas num espírito de serviço, como na lavagem dos pés. O dever do cristianismo para com a Europa é o serviço. A contribuição do cristianismo para uma cultura é a de Cristo com a lavagem dos pés, isto é, o serviço e a doação da vida. Não poderá ser uma contribuição colonialista”.

Contra o medo

Em que sentimento se baseia a tentação persuasiva de uma aliança espúria entre política e fundamentalismo religioso? No medo da fractura da ordem constituída e no medo do caos. Além disso, essa tentação funciona apenas por causa da ameaça do caos. A estratégia política para o sucesso torna-se a de elevar o tom do conflito, exagerando a desordem, agitando o ânimo do povo com a projecção de cenários perturbadores para além de todo realismo.
Neste ponto, a religião tornar-se-ia a garantia da ordem e uma das partes políticas incorporaria suas exigências. A invocação do apocalipse justifica o poder desejado por um deus ou em conivência com um deus. E assim o fundamentalismo é revelado não como um produto da experiência religiosa, mas como uma concepção pobre e instrumental dessa experiência.
É por isso que Francisco está a desenvolver uma contra-narrativa sistemática a respeito da narrativa do medo. Devemos combater, então, a manipulação desta época de ansiedade e insegurança. Por esta mesma razão, Francisco opõe-se, de forma corajosa, à legitimação teológico-política do terrorismo, evitando qualquer redução do islamismo ao terrorismo islâmico. E também não legitima aqueles que querem uma "guerra santa" ou que constroem barreiras de arame farpado. De facto, o único arame farpado para o cristão é o da coroa de espinhos que Cristo tem na cabeça.

*Sacerdote católico, jornalista e escritor italiano. Consultor do Vaticano; director e editor da revista La Civiltà Cattolica.
 

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