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CELEBRAR O EURO É UMA FARSA

Sam palavras

2019-01-10

Steeve Keen, Zero Hedge; adaptação de O Lado Oculto

Estava eu ansioso para descansar com a família e amigos em Sydney, no dia de Ano Novo, quando Phil Dobbie me arruinou esse momento com a emissão de um tweet e a reprodução de outro:
Jean Claude Juncker: “Em 20 anos, o euro trouxe prosperidade e protecção aos nossos cidadãos. Tornou-se um símbolo de unidade, soberania e estabilidade”.
Phil Dobbie: “Pergunto-me se os gregos pensam da mesma maneira”.

Tinha-me esquecido de que era o vigésimo aniversário do nascimento do euro. Mas os eurocratas de Bruxelas não… Algumas horas antes de chegar o Ano Novo, Juncker e amigos emitiram um comunicado de imprensa exaltando as virtudes do euro. Virtudes como “unidade, soberania e estabilidade… Prosperidade”.
Achei que tanta alegria era excessiva para assinalar o novo ano. Com este tweet, a União Europeia colocou-se no caminho certo para que 2019 seja ainda pior do que 2018. Usar qualquer uma destas palavras para descrever o euro – salvo talvez “unidade”, já que a moeda é usada na maior parte da Europa continental – é uma farsa que parece nem estar ao alcance do próprio Donald Trump.
Soberania? Diga isso aos gregos, aos portugueses, aos italianos, que viram as suas políticas económicas nacionais substituídas em Bruxelas. Estabilidade? O crescimento económico (da Zona Euro) tem sido muito mais instável sob o euro do que anteriormente; e hoje a Europa está dividida e sob uma instabilidade política que poderá ser directamente atribuída à camisa de forças imposta pelo euro e pelo Tratado de Maastricht. Usemos então alguns factos para discussão livre em torno do argumentário de Juncker.

A camisa de forças

Começo a partir da alusão de Phil ao caso da Grécia. O PIB grego caiu ao nível das taxas da Grande Depressão desde que a Zona Euro impôs as suas políticas de austeridade. O PIB grego está hoje cerca de 25% abaixo do seu pico mais elevado

Gráfico 1: PIB grego e taxa de crescimento económico




É claro que estes valores poderiam ser atribuídos ao comportamento dos próprios gregos; então comparemos o crescimento económico em toda a Eurozona com os dados dos Estados Unidos (excepto a Irlanda e o Luxemburgo: no primeiro caso, porque os dados são voláteis e massivamente distorcidos por sucessivas revisões; no segundo caso por corresponderem a uma ínfima faixa de população).

Gráfico 2: Taxas reais de crescimento económico



Antes do euro, o crescimento económico no conjunto dos países da Zona Euro era de 2,5% ao ano, contra 2,4% nos Estados Unidos. Depois do Euro, mas antes da Crise Financeira Global (GFC), o crescimento económico foi de 2,6%, uma subida de 0,1% em relação aos níveis pré-euro; mas a taxa de crescimento nos Estados Unidos subiu para 2,7%, o que, em termos comparativos, significa que o crescimento da Zona Euro foi ultrapassado pelo dos Estados Unidos. Deste modo, a pequena melhoria da Europa em relação à sua taxa de crescimento pré-euro pode ser devida a outros factores para lá do euro e foi menor do que a dos Estados Unidos.
Porém, esta comparação em bruto ainda é lisonjeira para a Zona Euro, já que a maior parte do crescimento entre o início do euro e o início da crise reflecte o aumento da bolha em Espanha e na Grécia – enquanto Portugal e a Itália começaram logo a antecipar os efeitos reais do impacto da moeda única. Se os valores do gráfico fossem ponderados tendo em conta os dados das populações, então os índices da Zona Euro seriam ainda piores.

Estagnação, pobreza, revolta, instabilidade

A comparação real, porém, deve fazer-se com os valores do crescimento registados desde a crise. A taxa média de crescimento dos Estados Unidos tem sido anémica, com 1,4%; o que, no entanto, revela uma dinâmica muito positiva quando comparada com o crescimento pós-crise na Zona Euro, que não vai além de 0,2%. A Europa está basicamente estagnada há uma década, graças ao euro e às políticas de austeridade que lhe são inerentes e dele inseparáveis – uma cortesia do Tratado de Maastricht que Juncker tanto se orgulha de ter assinado.
Na realidade, o euro trouxe baixo crescimento económico, instabilidade económica e desestabilização política à Europa. No entanto, os inqualificáveis dirigentes da Europa têm altamente em conta os resultados da vigência do euro numa época em que, além das vigorosas e constantes lutas contra a austeridade, os cidadãos vestem agora coletes amarelos e manifestam descontentamento com a situação.
Como Wynne Godley argumentou, de forma tão eloquente, quando o Tratado de Maastricht foi assinado, em 1992, as restrições que este documento e o euro imporiam à Europa levariam ao seu empobrecimento, não à sua prosperidade.
Com notável presciência, Godley previu que:

“Se um país ou região não têm poder para desvalorizar a moeda e se não dispõem de um sistema de justiça fiscal, então nada há que possa impedi-los de sofrer um constante processo de declínio capaz de conduzir, a prazo, à emigração como única alternativa à pobreza e à fome” (Wynne Godley, 1992)

Se a atitude coordenada dos patrões da Zona Euro – recuso-me a qualifica-los como líderes, porque isso suporia que poderiam ser removidos – é a melhor que conseguem adoptar, então o ano de 2019 será, no mínimo, tão politicamente instável como foi 2018.

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