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SÍRIA E RÚSSIA OBRIGAM TRUMP A RETIRAR

Militares sírios festejando a recuperação aos terroristas da emblemática Palmyra, património histórico e cultural da humanidade

2018-12-21

José Goulão, com Edward Barnes, Damasco

A decisão da administração Trump de mandar retirar as tropas norte-americanas da Síria poderá representar um ponto de viragem decisivo na guerra contra o povo sírio lançada em 2011 pelas grandes potências da NATO, recorrendo essencialmente a grupos terroristas islâmicos. A iniciativa de Washington abriu mais uma brecha entre os agressores, pelo menos entre a parte norte-americana e a França, que decidiu ficar no terreno.

A ordem para retirar as tropas dos Estados Unidos da Síria – cerca de quatro mil efectivos e não os dois mil reconhecidos oficialmente – foi confirmada pelos porta-vozes da Casa Branca e do Pentágono e, previsivelmente, encontrará resistência tanto em meios políticos como militares. O anunciado afastamento do secretário da Defesa, James Mattis, não é, seguramente, alheio a toda esta situação.
O argumento usado por Trump, o de que já não é necessário prosseguir a guerra contra o Daesh ou Estado Islâmico, é pouco convincente. Não porque os terroristas islâmicos tenham sido derrotados pelas tropas norte-americanas, que nunca demonstraram grande incapacidade para os atingir efectivamente, mas porque a relação de forças no terreno de batalha se alterou nos últimos meses. Se o “califado” do Daesh perdeu o essencial da sua estrutura isso deve-se ao exército regular sírio e aos competentes bombardeamentos efectuados por aviões russos.
O facto de o sistema defensivo sírio montado com a chegada das baterias de defesa S-300 russas já estar operacional, em conjugação com a actividade plena do dispositivo electrónico de protecção, através da criação de uma zona de exclusão aérea sobre a Síria – igualmente de origem russa –, modificou profundamente as coordenadas do conflito.
Desde que duas baterias S-300 entraram em funcionamento na província Leste de Deir Es-Ezzor, por exemplo, os ataques da aviação norte-americana que têm provocado centenas de mortos entre os civis foram reduzidos em cerca de 80 por cento. E desde 18 de Setembro que não existe qualquer tentativa israelita de incursão aérea em território sírio.
Aliás, um destacado chefe de operações israelita, o major Aharon Haliva, deslocou-se muito recentemente a Moscovo, onde se avistou com o general Vasily Trushin, chefe adjunto de operações do exército russo. As relações entre os dois países não têm estado ao seu melhor nível desde que Israel contribuiu para a destruição de um avião militar de transporte russo, pelo que se ignoram os temas das conversações. Tudo leva a crer, porém, que o enviado israelita não tenha conseguido obter os desejados códigos de segurança susceptíveis de fragilizar o sistema defensivo sírio.

Uma vasta ocupação ilegal

Os Estados Unidos ocupam militarmente vastas regiões territoriais no Nordeste e no Sudeste da Síria, neste caso enquadrando grupos terroristas que totalizam cerca de seis mil efectivos. Nas zonas setentrionais, além do apoio às chamadas “Forças Democráticas Sírias” (FDS), organização dita moderada mas submetida operacionalmente à al-Qaida e a destacamentos reminiscentes do Daesh, as tropas norte-americanas enquadram a organização curda YPG, que tem ambições separatistas. Para tal, o Pentágono opera 15 instalações militares na região.
Esta situação tem gerado  incómodo no interior da NATO, uma vez que tropas de dois pilares da organização, Estados Unidos e Turquia, estão a confrontar-se em terreno sírio. Ancara não tolera a constituição de uma entidade curda e conta com a colaboração da Síria para concretizar o seu objectivo, embora não seja pelas mesmas razões. Damasco desenvolve a operação no quadro sua missão de libertar todo o território do país das intromissões externas.
A ordem de retirada das tropas da Síria dada por Trump seguiu-se também a uma conversa telefónica entre os presidentes norte-americano e turco, há muito de costas voltadas designadamente por causa do apoio de Washington ao YPG.

Uma mudança em dois meses

A mudança de posição norte-americana em relação à guerra na Síria tem um carácter surpreendente, mesmo tendo em conta que a Administração Trump teve inicialmente a intenção de fazer regressar as tropas a casa; mas acabou por manter os padrões de envolvimento externo, devido aos jogos de poder no interior do sistema que realmente governa os Estados Unidos.
Ainda há poucas semanas, em 27 de Setembro, a Conselheira Sénior para a Síria e o Médio Oriente do Departamento de Estado, Mona Yacoubian, declarou numa subcomissão do Congresso que o alvo norte-americano era “o regime de Assad”.
Segundo Mona Yacoubian, o governo de Damasco “pretende destruir a ordem regional, encorajar o Irão e seus aliados e coloca novas ameaças contra Israel”.
Comportamentos do governo Assad considerados inaceitáveis pela conselheira Mona Yacoubian são, por exemplo, “tentar retomar o controlo sobre a província de Idleb, que abriga uma presença significativa da al-Qaida”; e também “tentar recuperar o domínio das instalações de hidrocarbonetos que estão ocupadas pelas Forças Democráticas Sírias, apoiadas pelos Estados Unidos”. Segundo a conselheira da administração Trump, a intenção legítima do governo de Damasco de libertar o território do país, designadamente atacando a al-Qaida e as FDS, era considerada inaceitável ainda em finais de Setembro.
Partindo do princípio de que a conselheira reflectia, perante o Congresso, o ponto de vista da Casa Branca pode deduzir-se que a mudança de posição de Trump aconteceu no máximo em dois meses e meio.
Uma grande ofensiva síria pela libertação de Idleb e a expulsão da al-Qaida e grupos nela filiados é uma operação que deverá seguir-se em tempos próximos. Idleb é a última grande província síria ainda em poder dos terroristas. A Turquia, por seu turno, deve reforçar a ofensiva em curso contra o YPG, recebendo apoio sírio para efeito. O território setentrional sírio onde o YPG pretende criar uma “entidade curda” – também com apoio da França – foi alvo de uma limpeza étnica efectuada com apoio de grupos do Daesh, que expulsaram as populações de origem, sobretudo cristãs e assírias.

Mais uma fricção com Macron

A decisão do presidente norte-americano contraria, pelo menos, a estratégia da França de Macron. A porta-voz do Ministério francês dos Negócios Estrangeiros, Florence Parly, declarou que Paris manterá o empenho na Síria “porque o combate ao Daesh não terminou”. Segundo Parly, os militares franceses pretende eliminar “as bolsas de resistência do Desh”, para “impedir que voltem a território francês”.
Nos bastidores político-diplomáticos franceses relacionados com as operações na Síria confessa-se que, além disso, continua a existir a esperança de alcançar alguns contratos que representem retorno para os investimentos já efectuados.
O envolvimento ilegal de cerca de cerca de 1100 militares franceses na Síria – “Operação Chammal” – é considerado relativamente pouco dispendioso e pouco arriscado em comparação com outras situações, por exemplo no Sahel, mas não proporcionou ainda retornos significativos.
A França espera, essencialmente, contratos comerciais e militares com o Iraque e com outros parceiros árabes da chamada “coligação internacional”. Paris considera que os resultados económicos apurados até agora com esta operação de agressão continuam a ser inferiores aos alcançados, por exemplo, pela Alemanha e a Itália, que nem colocaram militares no terreno. Treino de comandos no Iraque é um dos contratos em negociação, ao qual poderá seguir-se a venda de canhões e helicópteros – ainda assim nada que se aproxime das vantagens obtidas pela indústria militar francesa com a chacina em curso no Iémen.



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