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O PENTÁGONO E A ESTRATÉGIA DA PARANÓIA

Os inimigos estão a desenvolver-se militarmente, os Estados Unidos estão sob ameaça e não estão em condições de responder: uma tese que parece extraída de um guião de Hollywood usada para reforçar o orçamento do Pentágono

2018-12-20

Manlio Dinucci*, Il Manifesto/O Lado Oculto

A Comissão para a Estratégia de Defesa Nacional dos Estados Unidos foi criada em 2017 para fornecer informação especializada ao Congresso. Contudo, a sua principal fonte de informação é o Institute for Peace (Instituto para a Paz), equivalente da NED (National Endowment for Democracy) do Departamento da Defesa. Por consequência, o seu ponto de vista bipartidário é o que o Pentágono deseja que seja defendido pelos Partidos Democrático e Republicano.

À primeira vista dir-se-á que estamos perante uma cena hollywoodesca de um filme de catástrofes. É assim um dos cenários idealizado pelo relatório oficial de 2018 da Comissão encarregada pelo Congresso dos Estados Unidos de estudar a estratégia de Defesa Nacional: “Em 2019, com base em notícias falsas revelando atrocidades contra as populações russas na Lituânia e Estónia, a Rússia invade estes países. Enquanto as forças dos Estados Unidos e da NATO se preparam para responder, a Rússia declara que um ataque contra as suas forças presentes nestes países será considerado como um ataque contra a própria Rússia, o que a leva a encarar uma resposta nuclear. Submarinos russos atacam os cabos transatlânticos de fibra óptica e os hackers russos cortam as redes eléctricas nos Estados Unidos, enquanto as forças militares russas destroem os satélites militares e comerciais norte-americanos. As maiores cidades dos Estados Unidos estão paralisadas, a internet e os telefones portáteis não funcionam”.
A Comissão bipartidária, constituída por seis republicanos e seis democratas, imagina um cenário análogo na Ásia: em 2024, a China faz um ataque de surpresa contra Taiwan, ocupando a ilha; os Estados Unidos não estão em condições de intervir a um nível aceitável porque as capacidades militares chinesas continuaram a desenvolver-se enquanto as norte-americanas estagnaram, devido à insuficiência das despesas militares.

“Os Estados Unidos correm perigo”

Estes cenários, explica a Comissão, “mostram como a segurança e o bem-estar dos Estados Unidos correm mais perigo do que durante as últimas décadas”.
Desde a Segunda Guerra Mundial, “os Estados Unidos conduziram o mundo para uma situação única de prosperidade, liberdade e segurança. Esta realização, de que muito beneficiaram, foi possível graças a um poder militar norte-americano inigualável”.
No momento actual, contudo, o seu poder militar – “coluna vertebral da influência mundial da segurança nacional dos Estados Unidos” – desgastou-se a um nível perigoso. Isto deve-se ao facto de “os concorrentes autoritários – especialmente a China e a Rússia – pretenderem estabelecer a hegemonia regional e os meios para projectar o seu poder à escala mundial”. Será uma tragédia de dimensões imprevisíveis, mas talvez terríveis – previne a Comissão - que os Estados Unidos permitam que os seus próprios interesses nacionais sejam comprometidos por uma falta de vontade de fazer “as escolhas difíceis e os investimentos necessários”. Propõe, por isso, um aumento líquido das despesas militares norte-americanas (já hoje equivalentes e um quarto do orçamento federal) a um ritmo de três a cinco por cento anuais: sobretudo para aumentar a presença das forças dos Estados Unidos (submarinos, bombardeiros estratégicos, mísseis de longo alcance) na região Índico-Pacífico, “onde estão activos quatro dos nossos cinco adversários (o quinto é o Irão): a China, a Coreia do Norte, a Rússia e os grupos terroristas”.
A visão estratégica que emerge do relatório do Congresso – mais preocupante ainda quando se percebe que a Comissão é formada por partes iguais de republicanos e democratas – não deixa dúvidas. Os Estados Unidos – que desde 1945 causaram 20 a 30 milhões de mortos nas guerras que promoveram (mais centenas de milhões originados pelos efeitos indirectos dos conflitos) para “construírem um mundo com prosperidade, liberdade e segurança únicas, de que muito beneficiaram” – estão preparados para tudo de modo a conservarem “o seu poder militar inigualável”; um poder no qual se sustenta o seu império, que está em vias de se despedaçar devido à emergência de um mundo multipolar.
A Comissão do Congresso elabora, para esse efeito, cenários de agressões contra os Estados Unidos, os quais não são mais do que a imagem espelhada da sua própria estratégia agressiva, que corre o um risco de conduzir o mundo para a catástrofe.

*Geógrafo e geopolitólogo

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