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O SECRETÁRIO-GERAL DA TRISTE FIGURA

2018-09-03

Martha Ladesic, Nova York

Uma directiva secreta vigente na ONU desde Outubro de 2017 determina que nenhuma agência ou serviço da organização participe nos esforços de recuperação da Síria sem que tenha sido “firmemente desencadeada” uma “transição política global autêntica e inclusiva”. O secretário-geral, através do seu porta-voz, nega a existência “de qualquer directiva secreta” – mas ela existe, contradiz os objectivos da ONU e produz efeitos, embora seja formalmente desconhecida do próprio Conselho de Segurança.

O assunto veio a lume quando o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Serguei Lavrov, lamentou que a UNESCO não esteja a participar na recuperação de Palmyra, um lugar de património histórico da humanidade situado na Síria, admirado em todo o mundo e que foi gravemente danificado pelo chamado Estado Islâmico e vários outros grupos terroristas apoiados por potências da NATO, habitualmente designados como “moderados”.

Na altura, Lavrov disse que fora informado que a ausência da UNESCO se devia a uma directiva secreta de 2017 dirigida a todas as agência da organização impedindo-as de participar em qualquer acção que possa ajudar a recuperação da economia síria.

Essa directiva, intitulada “Parâmetros e Princípios da Assistência das Nações Unidas”, fora assinada por Jeffrey Feltman, na altura director de Assuntos Políticos da ONU e secretário-geral adjunto, o número 2 da hierarquia da organização.

Quem é Feltman?

Jeffrey Feltman não é um ilustre desconhecido, muito menos a propósito de temas que se relacionem com o objectivo de conseguir a derrota total e absoluta da Síria na guerra que continua a ser-lhe movida do exterior. Há mais de dez anos que, como funcionário do Departamento de Estado norte-americano e embaixador em Beirute, depois secretário de Assuntos Políticos da ONU, desde 2012, Feltman tem procurado aplicar planos para alterar violenta e radicalmente o mapa do Médio Oriente.

Os seus projectos para promover a mudança de regime na Síria datam, pelo menos, de 2008 – pelo que a directiva de Outubro de 2017 não é mais do que um marco nesse trajecto.

Existem informações muito pouco abonatárias em relação a Jeffrey Feltman: designadamente a propósito do episódio do ainda inexplicado assassínio do primeiro ministro libanês Rafic Hariri; do envolvimento na estratégia norte-americana para execução do golpe de Estado na Ucrânia; e da utilização de “comboios humanitários” da ONU na Síria para transporte de armas destinadas aos terroristas e evacuação destes nas regiões onde têm sido sucessivamente derrotados.

É improvável, ou mesmo impossível, que o secretário-geral António Guterres não tenha conhecimento do vasto currículo de Feltman, obviamente dos seus conteúdos mais negros e off the record. Porém, Jeffrey Feltman foi reconduzido no cargo de número 2 da ONU quando ele próprio tomou posse. Ao fazê-lo, Guterres tornou-se automaticamente refém do experiente funcionário do Departamento de Estado em comissão de serviço na ONU.

Não teve força para o substituir?

Ou não quis?

Qualquer das opções abona pouco em relação à firmeza e independência requeridas a um secretário-geral das Nações Unidas.

Actualmente, Jeffrey Feltman foi substituído no cargo por uma também enviada dos Unidos, Rosemary Di Carlo, por sinal oriunda do mesmo departamento governamental de Washington.

Não consta que, até ao momento, tenha revogado as medidas anti-sírias deixadas pelo seu antecessor no Departamento de Assuntos Políticos da ONU.

Será porque não pode revogar-se o que não existe?

Um ambiente inquinado

Pura astúcia retórica.

De facto, o porta-voz de António Guterres, Stephane Dujarric, emitiu um esclarecimento segundo o qual “o foco” das Nações Unidas está “numa solução política” para a Síria; além disso, não tem conhecimento de novidades “quanto à reconstrução” e não existe qualquer directiva secreta sobre o assunto.

No entanto, o documento de Jeffrey Feltman “Parâmetros e Princípios da Assistência das Nações Unidas” explicita textualmente que a organização “estará pronta a ajudar a reconstruir a Síria unicamente quando uma transição política global, autêntica e inclusiva negociada pelas partes sírias no conflito seja firmemente desencadeada”.

Não é novidade entre membros das agências da ONU que Feltman privilegiou frequentemente as actuações secretas que conduziram ao fracasso de diligências da própria ONU, designadamente as missões de contactos estabelecidas por Koffi Anan, Lakhdar Brahimi e Stefan de Mistura.

Resta saber, neste momento, até que pontos Moscovo estará na disposição de manter a indulgência perante o secretário-geral enquanto este permitir circunstâncias que contrariam objectivamente as evoluções no terreno que contribuem para minorar o sofrimento das populações da Síria.

Neste momento, por exemplo, Guterres continua a pedir “contenção a todas as partes em conflito” quando existem sinais evidentes de que está a ser montado pelos “capacetes brancos” outro falso “atentado com armas químicas”, desta feita em Idleb, para reactivar a guerra e impedir a queda – iminente - deste bastião dos grupos mercenários terroristas.

Não é certo que depois das recentes advertências de Lavrov a Rússia venha a mostrar a contenção que teve em 2015, quando teve conhecimento dos planos de Feltman “para a capitulação total e incondicional da Síria”. Em vez de confrontar publicamente a ONU, e denunciar o escândalo envolvendo a organização em projectos contrários aos seus princípios, Moscovo decidiu-se, nessa altura, pelo silêncio e pelas negociações.

A reincidência, embora com outro secretário-geral e outro número 2, não é menos grave.

Demonstra e confirma o triste alinhamento de António Guterres pela gestão desastrosa e subserviente de Ban Ki-moon.

 

 

 


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