O Lado Oculto é uma publicação livre e independente. As opiniões manifestadas pelos colaboradores não vinculam os membros do Colectivo Redactorial, entidade que define a linha informativa.

GEORGE H. BUSH E O RECURSO À CRUEL ARMA DO CANCRO

George H. Bush em campanha contra o Iraque

2018-12-13

George H. Bush, ex-director da CIA, ex-presidente dos Estados Unidos, faleceu. O presidente e os ex-presidentes vivos dos Estados Unidos homenagearam-no como um herói. A comunicação mainstream acompanhou-os na marcha fúnebre. Porém, George H. Bush foi um presidente à margem da lei internacional e um criminoso de guerra, bastando deixar falar os seus actos. Como, por exemplo, a disseminação da cruel e eterna arma do cancro no Iraque, no Koweit e nos Balcãs.

Jeffrey St. Clair, CounterPunch; artigo adaptado por O Lado Oculto

No fim da primeira guerra do Golfo, o presidente iraquiano Saddam Hussein foi considerado um criminoso feroz por ter ordenado que as suas tropas, em retirada, destruíssem os campos de petróleo do Koweit, saturando o ar com nuvens venenosas de fumos negros e cobrindo os solos com pântanos de petróleo bruto. A situação foi justamente qualificada como um crime de guerra ambiental.
Porém, os meses de bombardeamentos do Iraque através de aviões e mísseis de cruzeiro norte-americanos e britânicos deixaram para trás um legado ainda mais mortífero e insidioso: toneladas de invólucros, balas e fragmentos de bombas contaminados com urânio empobrecido. Os Estados Unidos atingiram alvos iraquianos com centenas de bombas e mísseis radioactivos.
Passados menos de dez anos começaram a notar-se os efeitos desta campanha de bombardeamentos radioactivos na saúde das pessoas. Consequências, de facto, terríveis. Médicos iraquianos chamam-lhe “leucemia branca”. Desde 1990, a taxa de incidência de leucemia no Iraque cresceu mais de 600%. A situação foi ainda agravada pelo isolamento forçado a que o Iraque foi submetido e pelo regime sádico de sanções, descrito pelo então secretário-geral da ONU, Kofi Annan, como “uma crise humanitária” que tornou mais difíceis a detecção e tratamento de casos de cancro.
“Temos traços de contaminação radioactiva em amostras de urina colhidas para análise, o que não é muito favorável à tese de que os casos de cancro aumentaram devido a outras razões”, declarou o médico Umid Mubarak, que foi ministro da saúde do Iraque.

"A poeira do deserto traz a morte"

Mubarak argumenta que o receio dos Estados Unidos em enfrentarem as consequências ambientais e sanitárias da sua campanha de bombardeamentos com urânio empobrecido se deve, em parte, ao facto de não terem cumprido as obrigações decorrentes de um acordo que permitia ao Iraque vender parcelas das suas vastas reservas petrolíferas em troca de alimentos, medicamentos e outros meios de socorro.
“A poeira do deserto traz a morte”, afirmou o Dr. Jawasd al-Ali, oncologista e membro da Royal Society of Physicians de Inglaterra. “Os nossos estudos revelam que mais de quarenta por cento da população em redor de Bassorá sofrerá de cancro; vivemos uma outra Hiroxima”.
A maioria das vítimas de leucemia e outras formas de cancro não são soldados. São civis e muitas delas crianças. A Comissão das Sanções contra o Iraque, dominada pelos Estados Unidos, negou os repetidos pedidos do Iraque de medicamentos e equipamentos para tratamento de cancro e, inclusivamente, de analgésicos como morfina. Por isso, os hospitais a transbordar de cidades como Bassorá viram-se obrigados a tratar os pacientes de cancro com aspirina.
Esta situação é parte do horror imposto ao Iraque a partir da primeira guerra do Golfo. Dados compilados pela Unicef demonstram que morrem 180 crianças iraquianas por dia vítimas de uma lista de doenças que inclui algumas do século XIX: cólera, disenteria, tuberculose, e.coli, sarampo, variantes de gripe consideradas extintas.
Os iraquianos e os koweitianos não são os únicos que revelam sinais de contaminação com urânio. Foram encontrados traços de urânio em sangue, fezes e sémen de veteranos norte-americanos das guerras contra o Iraque.
Urânio empobrecido é uma designação benigna para o urânio-238, a matéria que fica do urânio-235 utilizado em reactores e armas nucleares. Durante décadas esses resíduos foram uma incómoda substância radioactiva acumulando-se em fábricas de processamento de plutónio através dos Estados Unidos. No final dos anos oitenta havia quase mil milhões de toneladas desse material armazenadas.

Veneno não faltava

Foi nessa altura que os fabricantes de armas para o Pentágono passaram a usar os resíduos para moldar balas e produzir bombas. Matéria-prima não faltava e estava disponível. O urânio é um material pesado, mais denso que o chumbo. Essas características tornam-no perfeito para ser usados em armas contra engenhos blindados como seja tanques e outros veículos de combate, além de bunkers.
Quando as bombas atingem os alvos e explodem, o urânio empobrecido oxida-se em fragmentos microscópicos que podem flutuar na atmosfera na forma de poeiras cancerígenas, transportadas pelos ventos durante longos períodos de tempo. Uma vez inalada, essa poeira letal adere às fibras dos pulmões e começa a destruir o corpo: tumores, hemorragias, leucemias, sistemas imunológicos devastados.
Em 1943, os responsáveis do Projecto Manhattan, que deu origem às três primeiras bombas atómicas norte-americanas, duas das quais foram usadas contra Hiroxima e Nagasaki, especularam que o urânio e outros materiais radioactivos poderiam espalhar-se por vastos territórios, de forma a conter exércitos inimigos. O general Leslie Grove, chefe do projecto, tinha a consciência de que as armas contendo urânio poderiam “causar danos pulmonares permanentes”. No final dos anos cinquenta, o pai de Al Gore, senador do Tennessee propôs a contaminação da zona desmilitarizada da Coreia com urânio, como meio infalível contra ataques norte-coreanos.
A seguir à primeira guerra do golfo, os estrategos das guerras do Pentágono ficaram de tal maneira satisfeitos com o desempenho das armas radioactivas que encomendaram um novo arsenal. Então, já sob as ordens de Bill Clinton, usaram-no contra posições sérvias na Bósnia, no Kosovo e na própria Sérvia. Mais de cem bombas de urânio empobrecido foram usadas nos Balcãs ao longo de seis anos.
Equipas médicas detectaram grupos populacionais com cancro nas regiões onde foram usadas as bombas. Em Sarajevo, cidade atingida por bombardeamentos norte-americanos em 1996, os casos de leucemia triplicaram. Mas nem só sérvios estão a morrer. Militares da NATO e das forças de paz da ONU que estiveram nessas zonas também estão afectados. Desde 23 de Janeiro de 2018, oito soldados italianos que serviram nos Balcãs morreram com leucemia.

Nada de análises às vítimas

O Pentágono arranjou uma série de justificações e desculpas para essas situações. Começou por desvalorizar as preocupações sobre a utilização de urânio empobrecido, considerando-as fruto de teorias da conspiração agressivas engendradas por activistas da paz, ambientalistas e também pela propaganda iraquiana. Quando alguns aliados norte-americanos da NATO exigiram que Washington divulgasse as propriedades químicas e metálicas das suas munições, o Departamento da Defesa recusou. Negou-se também a fazer testes a soldados norte-americanos estacionados no Golfo e nos Balcãs. O Reino Unido, porém, não teve a mesma atitude. Um estudo da Autoridade de Energia Atómica do Reino Unido divulgado em 1991 previu que no caso de menos de dez por cento das partículas libertadas por munições de urânio empobrecido usadas no Koweit e no Iraque serem inaladas, tal facto poderia provocar “300 mil mortes prováveis”.
A estimativa britânica partiu do princípio de que o único material radioactivo utilizado nas bombas era o urânio empobrecido. Mas não é. Um novo estudo sobre a composição desses engenhos revela a existência de um “cocktail nuclear”, uma mistura de elementos radioactivos incluindo plutónio e o isótopo altamente radioactivo urânio-236. Qualquer destes produtos é 100 mil vezes mais perigoso que o urânio empobrecido.
Como se nada fosse, o Pentágono tenta lançar as responsabilidades sobre o Departamento da Energia e as empresas de produção de armamento das quais é cliente. Craig Quigley, porta-voz do Pentágono, declarou que “a melhor maneira de entender a contaminação é associá-la ao funcionamento das fábricas que durante 20 anos produziram urânio empobrecido”.
Esses problemas, tal como a contaminação de que foram vítimas os trabalhadores dessas instalações, são, de facto, bem conhecidos já desde os anos oitenta. Um memorando publicado em 1991 pelo Departamento da Energia revela que “durante o processo de produção de combustível para reactores nucleares e armas nucleares, as instalações responsáveis pela difusão de elementos gasosos em Paducah criaram urânio empobrecido contendo potencialmente, neptúnio e plutónio.
Na falta de qualquer acção para tentar resolver a situação, estas desculpas tornaram-se muito limitadas. Doug Rokke, um físico do Exército dos Estados Unidos que supervisionou a limpeza parcial dos fragmentos das bombas de urânio empobrecido no Koweit, adoeceu. O seu corpo regista um nível de radiação cerca de cinco mil vezes superior aos limites toleráveis. Rokke conhece os culpados: “não há qualquer dúvida razoável em relação a isso”, confessou ao jornalista australiano John Pilgger. “Devido aos efeitos dos metais pesados e do veneno radioactivo do urânio empobrecido, as pessoas do sul do Iraque estão a sofrer de problemas respiratórios, renais e cancerígenos; membros da minha própria equipa morreram ou estão a morrer com cancros”, acrescentou.
O urânio empobrecido tem um período de semivida superior a quatro mil milhões de anos, aproximadamente a idade da Terra. Milhares de hectares de terra nos Balcãs, no Koweit e no sul do Iraque estão contaminados para sempre. Se George Bush pai, Dick Cheney, Colin Powell, Bill Clinton e George Bush filho pretendem um legado, há um bem sombrio de que dispõem e se manterá por toda a eternidade.




Mais notícias...

Iniciar sessão

Recuperar password

goto top