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“QUIMERA DO PETRÓLEO” MOVE GENOCÍDIO NO IÉMEN

Quantas vidas humanas vale um barril de petróleo?

2018-12-07

F. William Engdahl, New Eastern Outlook/O Lado Oculto

O autêntico genocídio que está a acontecer no Iémen, sobretudo a partir da fase mais intensa da guerra, em 2015, tem sido ignorado, até muito recentemente, pelos media ocidentais. Igualmente tem sido ignorado o casus belli fundamental para a guerra saudita e dos sunitas wahabitas, apoiada pelos Estados Unidos, lançada ostensivamente contra os xiitas Huthi. Como em praticamente todas as guerras e desestabilizações desde que os britânicos descobriram petróleo abundante no Golfo Árabe-Pérsico, há mais de um século, a guerra contra o Iémen é motivada pelo petróleo, mais precisamente pelo controlo de petróleo, muito petróleo.

O Iémen é um território muito importante dos pontos de vista geopolítico e estratégico, situado no ponto crítico de ligação entre o Mar Vermelho, em comunicação com o Mediterrâneo através do Canal de Suez, e o Oceano Índico. Trata-se de um dos estreitos mais estratégicos do mundo, o Bab el Mandeb, uma passagem apertada a somente 25 quilómetros de Djibuti, no Corno de África, um dos entrepostos de petróleo do Departamento da Energia dos Estados Unidos. De acordo com esta instituição, calcula-se que 4,7 milhões de barris passem diariamente pelo Estreito de Bab el Mandeb, nos dois sentidos, incluindo petróleo com destino à China.
Em Março de 2015, uma nova guerra começou a alastrar através do Iémen contra o grupo conhecido popularmente como Huthis, designação que deriva de Hussein Badreddin al-Huthi, pertencente à facção Zaidi do islamismo. Os Zaidi são um grupo tradicionalmente moderado, que favorece a igualdade entre as mulheres, um anátema para os wahabitas sauditas. Os Zaidi governaram o Iémen durante mais de mil anos, até 1962.
O movimento Huthi forçou a demissão do presidente iemenita Ali Abdullah Saleh no final de 2011, sob acusações de alta corrupção. Sucedeu-lhe Abdrabbuh Mansur Hadi, na altura vice-presidente de Saleh. Este e Hadi dirigiam o Iémen sob influência da Arábia Saudita.
A situação começou a alterar-se quando Hadi se recusou a renunciar depois de o seu mandato ter expirado. As decisões que tomou sobre corte dos subsídios aos preços dos combustíveis e a recusa em concretizar as reformas entretanto acordadas fizeram com que acabasse por ser demitido pelas forças do movimento Huthi, no início de 2015. Em 25 de Março do mesmo ano, Hadi conseguiu fugir para a Arábia Saudita e, nesse mesmo dia, o ministro da Defesa saudita, Mohammed bin Salman, ordenou o início da guerra hoje em curso contra o Iémen e os Huthis.
No final de 2015, o príncipe Bin Salman e a sua coligação lançaram a Operation Decisive Storm (Tempestade Decisiva, designação a fazer lembrar a Tempestade no Deserto contra o Iraque), praticando atrocidades contra a população civil do Iémen. Após seis meses de bombardeamentos constantes, a ONU declarou o país como uma emergência de “nível três”, o mais elevado da escala. Os bombardeamentos destruíram infraestruturas civis críticas e edifícios hospitalares, enquanto os sauditas bloquearam o abastecimento de alimentos, água e também a assistência médica – tudo estritamente essencial para a sobrevivência de 20 milhões de iemenitas. Estas práticas correspondem a violações do direito internacional. Cerca de 2,5 milhões de civis foram deslocados; a fome e a cólera são galopantes. Em suma, trata-se de um genocídio.

Guerras petrolíferas de Cheney

As raízes da actual guerra contra o Iémen, conduzida pela coligação de Estados do Golfo liderada pela Arábia Saudita, remontam aos tempos do governo norte-americano Bush – Cheney, a seguir ao 11 de Setembro e em plena “Guerra contra o Terrorismo”.
A invasão do Iraque, em 2003, teve como causa o petróleo. Vários funcionários dos Estados Unidos admitiram o facto nessa época, incluindo Paul Wolfowitz.
“Temos de ir onde está o petróleo; não penso muito em termos de volatilidade política”, declarara Cheney durante uma reunião de magnatas do petróleo em 1998, quando ainda era CEO da Haliburton, a maior empresa de serviços de petróleo do mundo.
Como vice-presidente de George W. Bush, Cheney arquitectou as campanhas militares norte-americanas do secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, no sentido de “dominar sete países em cinco anos”, como o famoso general Wesley Clark revelou alguns anos depois. Todos os sete países são estratégicos para controlar os enormes fluxos de petróleo do Médio Oriente para a China, a União Europeia e para a economia mundial.
Em 2004, durante a “Guerra contra o Terror”, Bush foi ao Iémen apoiar o então presidente Saleh, quando o domínio saudita sobre o país era incontestável. Forças norte-americanas e britânicas apoiaram Saleh contra uma revolta da minoria Huthi, iniciada depois de o presidente ter tentado prender Hussein Badreddin al-Huthi, o dirigente religioso Zaidi.
Os acontecimentos de 2015 alteraram a situação; então, o Pentágono e o governo de Obama apoiaram discretamente um ataque militar em grande escala e catastrófico contra o Iémen.
Qual é então o interesse dos Estados Unidos ou da Arábia Saudita no Iémen? O controlo do petróleo é a resposta, mas não no sentido habitual.
Em Novembro de 2005, a República do Iémen expropriou as bacias petrolíferas do Marib al-Jawf à US Hunt Oil Company e à Exxon Mobil. O facto era inquietante, mas não decisivo para mudar o jogo. Foi em 2014, quando a rebelião Huthi contra o presidente Hadi, apoiado pelos sauditas, triunfou, que a guerra assumiu uma nova forma. Em Março de 2015, o Comité Revolucionário Supremo, chefiado por Huthis, decretou uma mobilização geral para derrubar Hadi, depois de assumir o controlo de Sanaa, capital e sede do governo, e tomar o rumo de Aden.

Potencial por descobrir

Há dois aspectos estratégicos a ter em conta por quem controla o Iémen, especialmente as áreas sob domínio dos Huthis: o controlo geoestratégico dos fluxos de petróleo que passam pelo Estreito de Bab el Mandeb; e o controlo da riqueza petrolífera praticamente inexplorada do próprio Iémen.
Em 2002, um relatório público do US Geological Survey (USGS) concluiu que “se o potencial por descobrir for adicionado às reservas conhecidas, o total de petróleo iemenita sobe para 9800 milhões de barris de petróleo bruto, o que coloca o país no 51º lugar em potencial de petróleo”.
Dez mil milhões de barris de petróleo bruto podem não parecer um grande volume em comparação com a informação saudita segundo a qual as suas reservas confirmadas são de 266 mil milhões de barris. Mas é neste ponto que um relatório elaborado em 1988 pela CIA se torna interessante. O documento intitulado “Recursos de Petróleo no Sul do Iémen; a Quimera da Riqueza”, entretanto desclassificado, tem uma nota cifrada sobre potenciais reservas na grande fronteira disputada entre o Iémen e a Arábia Saudita. A CIA calcula que existam reservas de petróleo e gás ao longo da Zona Neutra fronteiriça entre o Iémen do Norte e do Sul, muito disputada durante a Guerra Fria.
A US Hunt Oil Company está presente no Campo Alif desde 1982 e descobriu petróleo em 1984. O Campo Alif situa-se no Iémen do Norte, zona controlada pelos Huthis, perto da fronteira por definir entre a Arábia Saudita e o Iémen. Há quase duas décadas tive oportunidade de entrevistar alguém associado ao governo dos Estados Unidos para discutir noções de pico petrolífero e geopolítica do petróleo. A pessoa em causa declarou-me então que as terras desérticas do Rub al-Khali, por onde passa a zona fronteiriça por definir entre o Iémen e a Arábia Saudita, têm um potencial de reservas de petróleo provavelmente superiores às da Arábia Saudita. Os dados foram obtidos através de levantamentos aéreos e geofísicos norte-americanos não divulgados.
Não me foi possível obter a confirmação desta afirmação por uma fonte independente, pelo que não garanto a sua exactidão. O que está claro, porém, é que a área envolvida pelo Golfo Árabe-Pérsico e pelo Mar Vermelho, incluindo o Iémen e a Somália, é uma das mais activas do planeta, um pré-requisito para a descoberta de hidrocarbonetos. Ora a presença de petróleo e gás no Iémen explicaria muito bem as razões que levam o Pentágono a apoiar activamente o esforço saudita para retirar o controlo do Iémen aos Huthis.
Tudo isto tem pouco a ver com um suposto conflito entre xiitas e wahabitas sunitas. Pelo contrário, relaciona-se com o controlo estratégico da energia mundial. Enquanto Sanaa estivesse nas mãos de um procurador saudita, fosse Saleh ou Hadi, o assunto tinha uma prioridade secundária para Washington. O petróleo estaria “seguro”, ainda que o governo do Iémen tivesse expropriado propriedades petrolíferas de uma empresa norte-americana.
Quando uma força independente, neste caso os Huthi Zaidi, assumiu o controlo do país, ou de uma parte importante, a ameaça tornou-se suficientemente séria para que o ambicioso ministro saudita da Defesa e príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, recebesse luz verde para iniciar a guerra.
Uma Iémen controlado pelos Huthis seria um eventual parceiro das companhias petrolíferas russas ou chinesas dispostas a encetar uma exploração séria dos potenciais. Esta possibilidade, combinada com o facto de os Huthis terem boas relações com o Irão, obviamente fizeram soar as sirenas de alarme do governo Obama.
Sem surpresa, Mohammed bin Salman afirmou que se trata de uma guerra “de imperialistas” conduzidos pelo Irão contra as forças sunitas lideradas pela Arábia Saudita.
A China instalou agora a sua primeira base militar no estrangeiro, em Djibuti, à beira do Iémen; situa-se ao lado do campo norte-americano Lemonnier, a maior base militar permanente dos Estados Unidos em África. A França, anterior potência colonial, também está presente no terreno.
Há muito mais em jogo no Iémen do que nos dizem.

*Consultor estratégico e conferencista. Licenciado em Ciências Políticas pela Universidade norte-americana de Princetown, é autor de best-sellers sobre petróleo e geopolítica.


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