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HEBRON: O SIONISMO ANTI-SEMITA EM CARNE VIVA

Rua comercial da cidade de Hebron, na Cisjordânia. O espaço público está protegido por uma rede com pedaços de lixo e outros objectos arremessados pelos colonos israelitas contra os transeuntes

2018-12-06

Mersiha Gadzo, Al Jazeera News/O Lado Oculto

A casa da família palestiniana Ewaiwe no distrito H2 de Hebron, na Cisjordânia ocupada, foi cuidadosamente fortificada para protegê-la dos colonos israelitas do colonato Avraham Avinu, na porta ao lado da sua. Lixo arremessado pelos colonos pende da rede de arame farpado que protege o pátio descoberto situado no centro da casa, uma obra feita há quatro anos pela Comissão de Reabilitação de Hebron.

Antes disso, os vizinhos colonos da família palestiniana despejavam enormes recipientes com água do telhado do seu prédio de três andares para a escadaria a céu aberto da residência dos Ewaiwe, o que teria morto ou ferido gravemente alguém que ali se encontrasse na ocasião. Outras vezes arremessavam grandes pedras lá do alto; chegaram mesmo a estilhaçar em pedaços o depósito de água.
“Eu gostava muito de tirar a rede dali; estou farta dela, não deixa correr o ar, esconde-nos o sol”, disse Basma Ewaiwe olhando os vasos com flores alinhados na escadaria mergulhada na penumbra.
“Pelo menos as pedras maiores não podem atravessá-la”.
O jardim que Basma tinha habitualmente no telhado foi mudado, porque não poderia resistir aos ataques dos colonos. O arame farpado estende-se em redor de todo o prédio para tentar impedir as intrusões dos colonos A família Ewaiwe perdeu a conta ao número de vezes que os vizinhos israelitas invadiram a casa, tentando ocupá-la. O quarto do filho foi várias vezes incendiado.
Numa outra ocasião, os vizinhos lançaram uma bomba de gás lacrimogéneo para o interior da sala onde a família usufruía de momentos de convívio. A mãe, Basma, estava grávida mas perdeu a criança a seguir ao ataque.
Uma patrulha do exército israelita chegou a deslocar-se ao telhado da residência da família, testemunhou ataques mas nada fez, afirmam os moradores.
“Aparecem sempre que têm um problema político no país deles”, declarou Nidal Ewaiwe, de 50 anos. “E para aqui vêm os colonos mais extremistas; para eles, Hebron é mais importante que Jerusalém”.
Novo colonato em andamento
Por isso, não foi surpresa quando, em Outubro, o ex-ministro da Defesa de Israel, Avigdor Lieberman, anunciou que fora aprovada a construção de outro colonato em Hebron, o que não acontecia há mais de 20 anos.
Ao longo de décadas foram sendo construídos colonatos ilegais no coração da cidade de Hebron. A família Ewaiwe testemunhou como o centro urbano – antes movimentado graças ao funcionamento de mercados, lojas e pequenas fábricas – se transformou numa zona fantasma, enquanto a pobreza aumentava entre os moradores.
Durante anos a fio os colonatos ilegais têm-se expandido através de toda a Cisjordânia e em Jerusalém Leste, mas ninguém é responsabilizado.
O mais recente projecto de colonato – o sexto no distrito H2 de Hebron, área sob controlo militar israelita – será edificado sobre uma antiga base do exército de ocupação: terá 31 residências para colonos e custos na ordem dos 6,1 milhões de dólares norte-americanos – quantia financiada pelo governo.

Uma longa história de ilegalidade internacional

Já passaram mais de 50 anos desde que Israel ocupou a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, a seguir à guerra de 1967, tornando-se a ocupação militar mais longa do mundo, e sem fim à vista.
Ocupação e colonização são legalmente justificáveis apenas em “situações anormais e de curto prazo, mas que conduzam, sem equívocos, à autodeterminação e soberania”, escreve Michael Lynk, relator especial da ONU para os direitos humanos nos territórios palestinianos, no seu relatório de 2017 dirigido à Assembleia Geral.
No entanto, registou-se uma vaga de propostas de construção de colonatos nos últimos dois anos, desde que Donald Trump assumiu o cargo de presidente dos Estados Unidos, segundo a organização israelita Peace Now (Paz Agora).
Nos anos de 2017 e 2018 houve pedidos para a construção de 3154 e 3167 unidades residenciais, respectivamente, contra apenas 42 em 2016. Em Março de 2017, após uma pausa de duas décadas, o Gabinete de Segurança israelita anunciou planos para construir um novo colonato de raiz na Cisjordânia ocupada. O padrão dominante até agora tem sido o da ampliação dos já existentes.
Actualmente existem cerca de 660 mil a 750 mil pessoas vivendo em aproximadamente 150 colonatos ilegais em toda a Cisjordânia e Jerusalém Leste, construídos em terras onde deveria ser criado o futuro Estado palestiniano.
Trata-se de uma violação da Quarta Convenção de Genebra, de acordo com a ONU, cujo texto proíbe os Estados ocupantes de transferir os seus cidadãos nacionais para territórios ocupados; e também um presumível crime de guerra à luz do Estatuto de Roma de 1998, que criou o Tribunal Penal Internacional.

Anexação anda no ar

De acordo com o relatório de Lynk, a solução de dois Estados para o território da Palestina “está ligada à máquina e com o pulso débil: Israel atravessou a linha vermelha na direcção da ilegalidade”.
Há um mês, em novo relatório dirigido à Assembleia Geral da ONU, Michael Lynk apelou à comunidade internacional para que tome medidas susceptíveis de impedir a anexação da Cisjordânia por Israel através das suas decisões de expansão e de agregação de colonatos adoptadas desde o início de 2017.
Se a comunidade internacional não o fizer, Israel tenderá a institucionalizar a anexação como lei doméstica, alertou Lynk, acrescentando que a maioria dos ministros israelitas se pronunciaram favoravelmente a uma qualquer forma de integração da Cisjordânia no país.
Ao assinalar o 50º aniversário da ocupação israelita da Cisjordânia, em 2017, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu prometeu que os colonatos ilegais jamais serão removidos. “Estamos aqui para ficar para sempre”, disse o chefe do governo aos colonos presentes na cerimónia. “Vamos aprofundar as nossas raízes, construir, reforçar e decidir”.
A propósito das medidas governamentais de 2017 que pretendem aplicar a lei israelita ao território da Cisjordânia e regulam a colonização – “legalizando” rectroactivamente os colonatos – Lynk declarou à estação Al Jazeera que Israel está a mover-se rapidamente para uma situação na qual tenderá a anexar partes daquela região ocupada.
“Sinto que a anexação anda no ar… Israel está mais determinado, nos últimos 20 meses, na aceleração dos padrões de anexação. De facto, a ocupação está a entrar numa fase em que não é possível distingui-la da anexação”, denunciou o relator da ONU.
O Estado de Israel recusa-se a cumprir 40 resoluções do Conselho de Segurança da ONU e cerca de 100 resoluções da Assembleia Geral.
Ainda segundo Michael Lynk, o Conselho de Segurança precisa de garantir que Israel cumpra as suas obrigações para com a lei internacional, como membro da ONU que é.
“Israel não precisa de declarar a anexação formal da Cisjordânia para que as suas medidas em relação aos colonatos sejam ilegais à luz do direito internacional”, acrescentou o relator da ONU. “Basta que esteja a garantir a continuidade dos colonatos e a impor factos consumados no terreno: isso já é suficiente para violar a lei internacional”.

Paciência e fé em Deus…

Zleikha Muhtaseb, directora de uma cooperativa feminina no distrito H2 de Hebron, preocupa-se com as novas medidas israelitas em relação aos colonatos, receando que tragam ainda mais restrições aos palestinianos que vivam e trabalhem nas proximidades.
“Estamos inquietos porque eles continuam a expandir-se. Mais um novo colonato aqui irá reforçar a violência”, alerta. “Já temos muitos colonos extremistas em Hebron, mas nunca sabemos até que pontos do extremismo poderão chegar os que vierem de novo”.
“A sede da nossa cooperativa fica muito perto do local previsto para o novo colonato em Hebron; acho que estaremos em perigo”, rematou. Tal como a família Ewaiwe, a cooperativa reforçou e protegeu a varanda do edifício com uma grade de metal, para impedir as invasões dos colonos.
Mas quando não são os colonos, são as forças militares israelitas. Há um mês, a família Ewaive iniciou obras no último andar do edifício onde habita para adaptá-lo de modo a oferecer um lar ao filho, prestes a casar-se e sem recursos para alugar uma casa.
As forças israelitas deslocaram-se imediatamente ao local e proibiram quaisquer obras de renovação através de uma ordem emanada pelos ocupantes militares. Empilharam sacos de areia para bloquear o acesso ao andar e reforçaram toda a área circundante com arame farpado, como medida extra.
Consequência imediata: o casamento do filho, previsto para este mês de Dezembro, foi adiado até ser encontrada outra solução.
Aos Ewaiwe resta ter paciência para lidar com a situação. Consideram que pouco mais podem fazer.
“Precisamos de paciência e de agradecer a Deus”, disse Nidal, o chefe de família, a propósito das circunstâncias. “O que podemos dizer sobre a nossa vida? Que estamos vivos… Apesar de a situação ser muito má, continuamos a viver na nossa casa. Deus ajuda-nos”.

*Jornalista e produtora online da secção inglesa da estação Al Jazeera

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