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NEOLIBERALISMO GERA AS MARCHAS DO DESESPERO

A longa marcha do desespero a caminho dos Estados Unidos

2018-12-06

Jorge Elbaum, elcohetealaluna.com/O Lado Oculto

As caravanas de migrantes oriundos das Honduras e de El Salvador aproximam-se da fronteira com os Estados Unidos. Fogem da violência, da fome e do desemprego provocados por um modelo socioeconómico instaurado por Washington com a cumplicidade das famílias de latifundiários dos países da América Central.

A pressão sobre a fronteira norte do México resulta da deterioração das condições de vida e do predomínio de contextos desumanos gerados ao longo de um século de invasões militares, golpes de Estado e financiamento de grupos criminosos sustentados pelo narcotráfico.
Esta situação integra a injecção de toneladas de armamentos originários do mesmo país para o qual pretendem emigrar e a deterioração das capacidades estatais  para controlar sectores da sociedade civil vinculadas aos paraísos fiscais e ao dinheiro negro.
Mais de 15 mil hondurenhos e cinco mil salvadorenhos decidiram percorrer dois mil quilómetros a pé para fugirem do terror quotidiano e procurarem um trabalho digno, educação para os filhos e evitar o assobio das balas. O sistema político da América Central foi moldado pelo intervencionismo das embaixadas norte-americanas, do Comando Sul e das agências de espionagem com sede em Langley, Virgínia. O êxodo em direcção ao norte, organizado em Tegucigalpa através de mensagens de WharsApp, foi montado com o objectivo de alcançar uma protecção colectiva contra os perigos que correm aqueles que tomam os caminhos da migração solitária.
Mulheres que gerem os seus lares, membros de grupos LGTBI e crianças sem a companhia de adultos fazem parte desta coluna que reflecte, com exactidão, o nível de deterioração de um sistema que se revelou incapaz de se responsabilizar pela sobrevivência de milhões de cidadãos. Os deslocados são o exemplo cabal de um fracasso político institucionalizado.

Uma estrada das mais perigosas

A coluna de emigrantes partiu de maneira ordenada com o objectivo de evitar a actuação de grupos organizados que se dedicam à extorsão e à cobrança de “portagens” aos viajantes. Mover-se em grupo permite percorrer caminhos onde actuam bandos de narcotraficantes e cujos dispositivos de segurança respondem alternadamente a grupos institucionalizados de salteadores, a máfias supraestatais e a representantes dos Estados regionais ou departamentais. Aqueles que decidiram caminhar durante meses não apenas são originários de ambientes extremamente vulneráveis como se expõem perante grandes riscos numa das estradas mais perigosas do mundo. Segundo o Gabinete das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (UNODC, na sigla anglo-saxónica), os migrantes são vítimas habituais de deliquentes ocasionais, de grupos do crime transnacional organizado e também de autoridades governamentais que tentam extorquir-lhes as poupanças contadas com que iniciam a peregrinação.

Causa: o neoliberalismo

O êxodo das Honduras e de El Salvador é a expressão de um fenómeno que não existe apenas no continente americano e se repercute internacionalmente. As causas estão associadas a quatro factores combinados e cada vez mais evidentes: a pandemia de delitos violentos que não são controlados por Estados debilitados pela lógica neoliberal, que destrói a sua capacidade soberana de resposta e intervenção; as intervenções militares neocoloniais impulsionadas por centros hegemónicos e pelas transnacionais (orientadas para controlar recursos naturais), que têm como consequências a transferência de populações indígenas e camponesas; a difusão viral, por meios online, de estilos de vida diferentes, que suscitam súbitas e desesperadas vontades de partir em busca de condições de sobrevivência preferíveis às que existem nos seus lugares de residência; por último, a baixa de preços dos meios de transporte que facilitam as movimentações de quem foge de zonas de guerra, da fome e da ausência de futuro.

Caminhos de fuga

Nos últimos anos têm vindo a desenvolver-se processos de expulsão em quatro áreas geográficas, devido à combinação dos quatro citados factores: além da América Central, onde as populações sofrem as mais altas taxas de homicídios do mundo, existem os êxodos motivados por razões étnicas e religiosas, como acontece com os muçulmanos rohingyas de Myanmar; as vítimas dos conflitos nas zonas do Mediterrâneo e da África subsahariana, onde alguns territórios são controlados por milícias privadas às ordens de empresas transnacionais; e também as populações que sofrem com as guerras no Médio Oriente.
Em todos esses pontos críticos actuam as potências militares ocidentais – de maneira directa ou financiando forças locais de ocupação – contribuindo para o aprofundamento das crises económicas impulsionadas por programas de reformas ou de estabilidade, impostos por organismos multilaterais de crédito.
Em alguns casos, a imposição de medidas de austeridade foi acompanhada por transferências de populações provocadas por privatizações de terras, expulsões de comunidades camponesas e pelo financiamento de guerras civis, abertas ou larvares.
Estes condicionamentos provocaram um aumento exponencial da violência nas cidades, carecterizado pela porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) nas Américas, Francesca Fontanini, como uma crise humanitária cujas consequências ainda não é possível prever.

Calúnias de Trump

O sector dianteiro da caravana da América Central partiu a 12 de Outubro, uma data importante que evoca as tradições de resistência de um continente submetido às arbitrariedades coloniais. O movimento tem vindo a ser caluniado pelo presidente norte-americano, Donald Trump, que tentou até utilizá-lo na sua campanha para as eleições intercalares de 6 de Novembro alegando que, fundidos na marcha, seguem terroristas e narcotraficantes. “Parece que a polícia e os militares do México são incapazes de deter a caravana que se dirige para a fronteira dos Estados Unidos; nela estão misturados criminosos e pessoas do Médio Oriente não identificadas”, declarou o magnata tornado presidente.
Quem estiver a par da xenofobia contemporânea manifestada por alguns dirigentes ocidentais não se esquece de que durante o século XIX e a primeira metade do século XX cerca de 65 milhões de pessoas emigraram da Europa para as Américas, fugindo da fome e das guerras. Não ignora também que as mais importantes catástrofes relacionadas com as migrações resultam de situações bélicas em que participam países ocidentais. Nos últimos três anos, o Iémen é o país com maior quantidade de deslocados, calculados em cerca de três milhões de pessoas. Seguem-se a República Árabe da Síria, com 2,5 milhões, e o Iraque, com 1,7 milhões.
Em todos esses casos, como na longa marcha dos centroamericanos, há denominadores comuns: as intervenções constantes em nome da democracia, a globalização, o neoliberalismo e o comércio livre. Provocam desestruturações demográficas e rupturas nos tecidos sociais que originam tanto o exílio como o ressentimento cultural.
As soluções para o aumento das migrações estão relacionadas com a contribuição para o desenvolvimento dos países que são fontes de êxodos e a limitação das intervenções militares e económicas dos países centrais, que servem para agravar os conflitos existentes.
A manutenção do status quo implicará o aprofundamento das lógicas de isolamento, contraditórias em relação aos discursos sobre abertura de espírito tão em voga.
A tensão entre estes movimentos de sinais contrários, um produto das incoerências do neoliberalismo, surge como um elemento central das relações internacionais: em nome da liberdade globalista começam a erguer-se muros. Entretanto, os desamparados da Terra continuam a fazer travessias de milhares de quilómetros tentando abrir as portas que os seus países lhes fecharam. Em conivência espúria com aqueles que também pretendem encerrar-lhes os portos de acolhimento.


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