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MACRON: O POPULISMO CRIADO POR UMA ELITE

Sem palavras

2018-11-30

Sylvie Moreira, Paris

O partido fundado por e para Emmanuel Macron – En Marche – e a campanha presidencial francesa de 2017 receberam 15,2 milhões de euros em donativos, sendo cerca de dois milhões oriundos do estrangeiro. Dois terços da verba total foram atingidos por apenas quatro por cento dos doadores. Isto é, uma organização contemplada com uma votação massiva, com base em marketing populista, foi organizada e financiada por uma elite restrita.

Os dados financeiros da campanha presidencial e da criação do partido En Marche revelam a artificialidade do processo como experiência assente em marketing populista antissistema e anti partidos do qual Emmanuel Macron procura agora distanciar-se, tentando não enfileirar nas tendências nacionalistas que se inclinam cada vez mais para a extrema-direita e para o neofascismo. Uma tentativa meramente propagandística e elitista.
O carácter autoritário e arbitrário, assente numa heterogénea massa de eleitos e clientes políticos, da gestão presidencial de Macron reproduz o espírito demagógico, tecnocrata e manipulador do sistema que pôs em marcha o En Marche.
Dos dois milhões doados a Macron a partir do estrangeiro, quase metade são oriundos da City, em Londres, a principal praça financeira mundial a seguir à de Nova York.
Embora os doadores seja anónimos e estejam sujeitos, por lei, a uma contribuição máxima de 7500 euros, nos rastos que foi possível obter encontram-se figuras da banca, incluindo Lehman Brothers e BNP Paribas, de empresas de consultoria financeira, startups tecnológicas, redes, fundos e bancos de investimento. A City de Londres contribuiu com 870 mil euros, seguida por Nova York, com quase 300 mil euros de 546 doadores, Suíça e Bélgica, ambos com mais de 100 mil euros cada. Interessante é a contribuição de Beirute, no Líbano, com 105 mil euros de apenas 15 doadores e concentrados no tempo em apenas dois meses – Janeiro e Fevereiro de 2017.
De notar que a contribuição da praça financeira de Londres, garantida por 551 doadores, ultrapassou os donativos somados das principais cidades francesas a seguir a Paris: Lyon, Marselha, Lille, Bordéus, Estrasburgo, Nice e Nîmes.
A constituição do En Marche e a campanha presidencial de Macron, que saiu do anonimato muito recentemente, apenas através de uma fugaz passagem por um dos governos de François Hollande, fez-se através de recolhas de fundos, uma vez que ambas surgiram do nada e, por lei, não podiam auferir das verbas estatais para financiamento de organizações políticas.
As operações de “crowfunding”, concentradas nas praças financeiras, nada tiveram de “popular” em comparação com outras iniciativas do género e, sobretudo, com a massa dos mais de 20 milhões de eleitores que levaram Macron até ao Eliseu e lhe permitem governar com esmagadora maioria.
Dos 15,2 milhões de euros que ele e o seu partido Em Marche colectaram, mais de 10 milhões saíram das mãos de 4200 doadores que participaram com mais de 500 euros, seguramente mil dos quais residem no estrangeiro.
Emmanuel Macron fica, deste modo, como exemplo de um político que teve uma ascensão meteórica em bases populistas – dizendo o que o cidadão comum “gostaria de ouvir”, num dado momento – mas patrocinado por uma selecta elite financeira.




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