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BRASILEIROS EM BUSCA DA UNIÃO ESSENCIAL

A resistência na unidade constrói-se também em grandes reuniões abertas

2018-11-30

Zillah Branco, especial para O Lado Oculto

A História mostra que as acções decisivas para a superação de ameaças à vida dos povos exigem
um esforço para encontrar, nas consciências dos que lutam, o essencial que os une no
pensamento elaborado por grupos diferentes. As diferenças têm múltiplas razões ditadas pela
experiência histórica e a situação social e económica em que os pensadores viveram. Impõe-se a
análise para estabelecer as prioridades no desenvolvimento da luta para efectivar a resistência.

Hoje sabemos que a comunicação social ao serviço da elite política que domina o sistema
capitalista manipula criminosamente a formação mental da opinião pública. E, fazendo uso da
moderna tecnologia aplicada através da internet, nomeadamente pelo organizador e ideólogo Steve Bannon (que
dirigiu a campanha de Trump, a de Bolsonaro e foi para a Europa apoiar a extrema direita na
França, Reino Unido, Hungria e Itália, com um programa divergente do neoliberalismo em crise),
mente sobre a realidade, provoca o medo e o desespero e oferece como solução
(preconizada por crenças medievais baseadas no protecionismo do mais forte, ou de uma entidade
superior) a liderança de um poder autoritário armado.
No entanto, mesmo antes de assumir o governo, Bolsonaro deu início à derrocada das conquistas
sociais do governo PT : os médicos cubanos que atendiam sozinhos 1.500 municipios e
completavam as equipas médicas em mais 2.800 municípios, foram dispensados, deixando a
maioria da população dos 5.000 municipios do país sem socorro médico. Já há vários protestos
das populações e dos responsáveis pelos serviços médicos, além dos dirigentes políticos locais
de esquerda mas também de direita, reconhecendo que, além dos cubanos suprirem as falhas de
pessoal médico nas regiões mais remotas do Brasil, de difícil acesso e sem estruturas urbanas,
eles trouxeram uma prática mais humanizada que reconfortava os mais necessitados, e também apoio
psicológico, dando-lhes a condição de cidadãos de plenos direitos.
A coberto do Presidente eleito com mensagens de violência armada, multiplicam-se os crimes
por todo o território brasileiro; e a esquerda organiza formas de protecção às vítimas e a respectiva denúncia
pública, como uma primeira acção de resistência. As estatísticas mostram que no Rio de Janeiro
existem 800 mil pessoas envolvidas no crime organizado (somando civis e polícias), sendo 300
mil com idades entre 16 a 19 anos. O que se pode esperar desse novo governo é o caos e o
retrocesso.

Perspectiva de um Estado medieval

A escolha de um defensor do caminho neoliberal para assumir o Ministério da Fazenda (Finanças), o BNDES
- Banco Nacional de Desenvolvimento Económico e Social e o Banco Central - com o propósito de
alienar o património do Estado a favor dos neocolonialistas estrangeiros; a nomeação do ex-juiz
Moro, (responsável pela prisão de Lula sem provas de crime e por razões políticas arbitrárias
e anticonstitucionais); o encerramento do Ministério do Trabalho, deixando os trabalhadores indefesos
perante a crescente exploração patronal, não deixando dúvidas de que aumentará o desemprego e
desaparecerão os contratos colectivos, priorizando o trabalho precário e a escravidão em benefício
dos lucros da elite; o agravamento da situação dos cidadãos que protestem pelos seus direitos negados,
ao entregar a condução da Estrutura judicial e da Polícia Federal (que está conjugada com o
crime organizado), ao mesmo ministro que foi a peça fundamental na derrocada do sistema
judicial do Estado - são exemplos de como colocar as raposas a tomar conta dos galinheiros.

Pensamento religioso na prática democrática

São vários os grupos e Igrejas que se pronunciaram contra a manipulação política através de um sector
da Igreja Evangélica, de origem pentecostal, instrumento do golpe dirigido por Temer e deputados
do Parlamento. Sintetizando em palavras simples a essência das respectivas crenças, onde
definem como "místico" não a atribuição das responsabilidades a uma entidade superior, divina,
mas a "prática da fraternidade, o amor ao próximo, a ética, o respeito humano e a dignidade", que
são princípios referidos pelos seus mestres ou entidades através de milénios. Ao falar sobre o
papel do povo na luta contra a retirada de direitos e o aumento da desigualdade no país, João Pedro Stedile,
dirigente do MST, citou a solidariedade como uma das principais ferramentas de luta e
mobilização e aplica o termo "mística" como o ideal humanista que está presente na consciência
dos trabalhadores, sem conotação religiosa. “Precisamos da hegemonia da classe trabalhadora. A
mística do povo é a solidariedade e isso ninguém pode nos tirar."
A utilização de igrejas e movimentos religiosos que tem sido praticada nas campanhas de cariz
neofascista pelos assessores de Trump e Bolsonaro, de acordo com o ex-banqueiro Steve
Bannon, tem levado os responsáveis de organizações e movimentos religiosos a manifestarem a
sua defesa da democracia. Assim, em nome das três religiões monoteístas declaram: "O
Judaísmo trouxe ao mundo a Bíblia Hebraica, o Cristianismo os Evangelhos e o Islão o Alcorão,
livros sagrados que orientam o ser humano para um mundo de respeito ao próximo. Todos aqueles
que professam a sua fé em Deus e nos valores éticos e morais do monoteísmo estão connosco a
favor da civilização e do direito de todos os seres humanos conviverem em paz e harmonia".
Dando inicio a uma listagem de associações de carácter religioso que se propõem a coordenar a
formação de adeptos para a defesa da democracia e contra o obscurantismo no Brasil, na luta
contra as perseguições aos que resistem à onda criminosa que alastra em nome de Bolsonaro
e do seu programa fascista, além do CNBB (Conselho Nacional de Bispos no Brasil) e dos
representantes da Teologia da Libertação, como Leonardo Boff, Frei Beto e outros, já aderiram:
Articulação Judaica, Movimento Nossa Voz (São Paulo), Igreja Anglicana Latino- Americana
(Minas Gerais), Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, Abraâamicos Unidos (Rio Janeiro),
Mesquita Sumayyah Bint Khayyat (Embu das Artes-SP), Comissão Justiça e Paz (SP), Juprog,
Grupo Católico de Oração e Solidariedade Rio Maria (RJ), Cristãos e Cristãs contra o fascismo.
Com a divulgação desta iniciativa e a mobilização dos que já iniciaram o programa de formação,
surgirão listas complementares em todo o Brasil.

Organizações sindicais e movimentos sociais

A esquerda, no Brasil, analisa os problemas internos das múltiplas estruturas - partidos políticos,
organizações sindicais, movimentos sociais e religiosos - e as causas do golpe que destruiu o
governo PT (Partido dos Trabalhadores), em debates e cursos de formação, procurando construir
uma unidade em torno das necessidades de reconstruir o Estado na sua relação com o
desenvolvimento da democracia e das forças produtivas e de evitar os erros cometidos pelos
governos PT sob a pressão do sistema capitalista.
A meta a ser alcançada exige uma resistência democrática e a defesa dos direitos sociais que se
empenha em aprofundar os estudos para a compreensão da realidade histórica que o povo
brasileiro vive, assim com das múltiplas questões estruturais para o desenvolvimento nacional, e o
contexto político internacional sujeito às formas de dominação pelo capital e as contradições
levantadas pela oposição de forças antagónicas que lutam por uma sociedade equilibrada com
paz e independência dos povos. Para organizar os trabalhos são criados calendários para
encontros e divulgação programática, assim como para cursos de formação com apoio de
instituições universitárias solidárias e intelectuais democráticos.
Tendo em vista a criação de “uma frente ampliada de articulação e resistência em defesa das
liberdades democráticas” recordam o problema que se tem verificado no Brasil, onde o poder
oligárquico habitualmente desperta oportunismos pessoais ou de grupos de poder. Procuram unir
“as actuais construções de frentes, fóruns, projectos que já actuam na luta democrática e em defesa
dos direitos, que têm seu papel fortalecido na conjuntura e são os pilares para a construção de
qualquer unidade ampliada”. Empenham-se na promoção de diálogo com as centrais sindicais que
ainda não integram as frentes já existentes para atingir uma articulação conjunta com o MST
(Movimento dos Sem Terra) e MTST (Movimento de Trabalhadores Sem Tecto), e com lideranças
políticas e sociais, intelectuais, artistas e organizações que também não integram as frentes já
existentes.

Diferentes segmentos sociais fazem acordos

Há diferentes segmentos sociais envolvidos em diálogos e iniciativas em busca de ações unitárias
que devem ser estimuladas e aprofundadas no curto prazo para enfrentar o agravamento do
cenário de ataques à liberdade de organização e contra as tentativas de criminalização das lutas
sociais e populares que defendem os direitos de cidadania já conquistados, diante das ameaças de retrocessos políticos e sociais de Bolsonaro.
A luta pela libertação do ex-presidente Lula também deverá compor a agenda política das
organizações participantes da reunião e caberá às Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo,
assim como ao Comité Nacional Lula Livre, os encaminhamentos referentes a essa luta de
profundo sentido democrático.
Foi realizada em 14 de Novembro, no Centro de Estudos da Media Alternativa Barão de Itararé, uma reunião onde representantes das centrais CUT (Central Única dos Trabalhadores), CTB e
Intersindical); da Frente Brasil Popular; dos partidos políticos PC do B( Partido Comunista do Brasil), PT
(Partido dosTrabalhadores), PSOL (Partido Socialismo Liberdade) e PDT
(Partido Democrata Trabalhista); do Projeto Brasil Nação, da UNE (União Nacional dos
Estudantes), do MST (Movimento dos Sem Terra), do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Tecto), da
UNEGRO, Tortura Nunca Mais; das associações profissionais CONAM, CONEN, CNAB - que
definiram um plano de divulgação e mobilização para expandir as tarefas de conscientização e
formação política dos cidadãos: o Dia Nacional da Consciência Negra; Mobilização Nacional em
defesa da segurança e da previdência social, convocado pelas centrais sindicais; Encontro de
parlamentares amigos do MST e da Reforma Agrária, na Escola Nacional Florestan Fernandes;
Reunião Comunicadores, Mobilização Continental anti-G20 com realização de acção nas redes; Acto
em São Paulo e a tividades em outros estados; Reunião ampliada para avançar no debate da
construção da Frente Democrática;  Seminário Internacional Lula Livre, em Curitiba; Acto interreligioso na Catedral da Sé marcando os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos; comemoração de 50 anos
do Acto Institucional nº 5 (AI-5); Realização de actividades diversas de protesto e memória em todo
o país.
Um dos problemas que os governos PT não foram capazes de resolver no curto prazo em que
existiu um governo progressista no Brasil, apesar de múltiplas iniciativas isoladas de professores e
grupos de educadores solidários, foi o da educação de base e a defesa de uma consciência
democrática para superar a manipulação criminosa feita pelos média hegemónicos para destruir
conceitos fundamentais da cultura mantida a nível familiar que definem: ética, dignidade,
solidariedade, fraternidade, respeito humano, igualdade, liberdade, amor à Pátria. Hoje verifica-se
que essa carência foi o alvo do ataque fascista iniciado pelo golpe, que promove a Escola sem
politica e incentiva os alunos a denunciarem os professores que falem sobre o tema.
O imperialismo, ao apoiar Bolsonaro, contou com a ignorância da população em geral, formada
com os valores do capitalismo que incentivam o egoísmo, a falsidade, a ambição doentia de lucros e
privilégios, que estão na base do oportunismo na luta política, no uso do Estado como instrumento
de poder de uma elite, no ódio aos mais pobres que conquistam direitos de cidadania, no
desespero por não terem acesso às riquezas que se volatilizam no sistema financeiro e no
consumo de produtos de luxo. Promovendo o medo, cultivado em pessoas simples, como as
ameaças forjadas pelo imperialismo na Guerra Fria contra os conceitos de "comunismo" ou
"revolucionário", ofereceram como solução o combate com autoritarismo e forças policiais. Do
golpe de Temer "et catærva", da venda ao desbarato do património nacional, da destruição das
estruturas juridicas e revogação das conquistas sociais, veio Bolsonaro com apoio da estrutura
engavetada da ditadura de 1964/85, desempenhar o falso papel de herói de fantochada cuja
eleição foi financiada e assessorada pela máquina imperialista que criou Trump.

Solidariedade de intelectuais e instituições universitárias

Intelectuais, artistas, institutos de ensino, universidades, escolas, em todo o Brasil mas também
de outros países latino-americanos, buscam participar na defesa da democracia e reforçar uma
consciência de cidadania em todos os níveis da educação e de formação técnica e científica que
fortaleça todo o povo na compreensão dos problemas nacionais de desenvolvimento e de
integração na política internacional. Assim como a ONU instalou na década de 1960 a CEPAL
(Comissão Economia Política da América Latina), que produziu estudos para apoiar o desenvolvimento
das forças produtivas e a independência das nações latino-americanas e caribenhas, foram sendo
implantadas escolas universitárias : CLACSO (Centro Latino Americano de Ciências Sociais), UNISINOS
(Universidade Jesuíta), ELADH (Escola Latino Americana Democracia e História) que hoje colaboram
com o sistema universitário e com a difusão cultural em geral, na defesa da democracia e dos
serviços sociais ao alcance de toda a população.
A necessidade de integrar o desenvolvimento brasileiro com os demais países latino-americano e
caribenhos, levou o PT  em 1990  a criar o Foro de São Paulo  que manteve encontros regulares  albergados por vários países associados para o estudo das condições políticas e económicas que afectam todas as nações latino-americanas condicionadas pelo sistema capitalista. De um pequeno grupo representando as diversas correntes ideológicas da esquerda brasileira que debateram a situação das nações em desenvolvimento condicionadas à
dependência ao mercado externo dominada pelo sistema capitalista, evoluíram para uma
organização que no, ano de  2017 realizou a 24a reunião em Havana com 111 representantes de
partidos ou associações de esquerda da América Latina, Caribe, EUA, Canadá e alguns países
da Europa e Asia, integrando as suas opiniões com diferentes perspectivas históricas.
Se bem que tais encontros tenham colaborado para o surgimento de organismos unificadores
como a CELAC (Comunidade de Estados Latino Americanos e Caribenhos), a UNASUL
(União das Nações Sul Americanas), MERCOSUL (Mercado Comum Sul Americano), e também
favorecido o aparecimento do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e  África do Sul) com consequentes
acordos a nível regional e internacional, não alcançou uma efectiva integração com os respectivos
povos no combate ao neoliberalismo e às armas culturais que o sistema usa através do controle
da comunicação social e das promoções do mercado para estimular o consumo de supérfluos e
da valorização das instituições privadas de ensino e saúde. Esta mesma carência ocorre com as instituições universitárias, porque o sistema dificulta a democratização que reduziria os privilégios
de uma elite socioeconómica e mantém a grande massa afastada das condições plenas de
cidadania. Precisamos de superar este muro que rompe com a democracia.

As várias frentes

Justamente para construir o caminho para uma verdadeira democracia, capaz de sociabilizar as
condições de vida e bem-estar de todo o povo e incentivar a capacidade de organização da
produção privada sem permitir a formação de oligopólios, é necessário atender aos interesses
específicos de empresários progressistas neste momento histórico em que vivemos, abrindo
Frentes específicas - Popular, progressista, democrática e ampla - capazes de aglutinar os
brasileiros patriotas contra a dominação externa dos recursos, do trabalho e da criatividade
brasileiros, favoráveis ao desenvolvimento pleno e democrático de todo o povo.
Estas frentes, acompanhadas pelas organizações populares, permitirão o intercâmbio das
análises e decisões reivindicativas para consolidar a Resistência Nacional que se impõe para
evitar a destruição do Brasil como Nação independente e da capacidade criativa do seu povo.
Acreditamos que o eleitorado iludido de Bolsonaro perceberá, mais cedo ou mais tarde, que votou
no inimigo do Brasil. Isto será possível quando cada cidadão entender que o Brasil precisa de ser
defendido para que o povo, ao qual pertence, seja atendido nas suas necessidades básicas de
vida e desenvolvimento. É um processo de conscientização a ser construído, que exige o esforço
geral de unidade.


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