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OS ESTADOS UNIDOS, O “FASCISMO AMIGÁVEL” E O “FASCISMO HOSTIL”

O fascismo nas ruas da Venezuela. A figura da direita é Leopoldo Lopez, um dirigente da oposição muito bem recebido em Washingon

2018-11-09

Franklin Frederick, Jornal GGN/O Lado Oculto

“Os crimes cometidos pelos Estados Unidos em todo o mundo têm sido sistemáticos, constantes, implacáveis e muito bem documentados, mas ninguém fala sobre eles.” - Harold Pinter

Tendências fascistas estão de volta à luz do dia na América Latina. Podem ser claramente vistas na criminosa oposição venezuelana e também nas ruas no Brasil e na Argentina. Tais tendências têm sua origem no facto de a desigualdade económica e a igualdade política serem incompatíveis. Mas o fascismo latino-americano também é a expressão de uma agenda política e económica mais profunda que deve ser bem compreendida se queremos combatê-la com sucesso.

Em 1979, Noam Chomsky e Edward S. Herman publicaram um dos livros mais importantes sobre o fascismo latino-americano: ‘The Washington Connection and the Third World Fascism’, onde escreveram:

“(...) O velho mundo colonial foi destruído durante a Segunda Guerra Mundial, gerando ondas de nacionalismo radical que ameaçaram a tradicional hegemonia ocidental e os seus interesses económicos. Para conter esta ameaça, os Estados Unidos alinharam-se com elementos da elite e das forças armadas do Terceiro Mundo cuja função tem sido a de conter os ventos de mudança. (...) Com o apoio frequente dos Estados Unidos, o Estado de Segurança Nacional neofascista ( National Security State) e outras formas autoritárias  tornaram-se o padrão dominante dos governos no Terceiro Mundo”.
“... a massiva intervenção e subversão (dos EUA) nos últimos 25 anos  limitaram-se quase exclusivamente ao derrube de governos reformistas e democracias radicais... (Os EUA) raramente ‘desestabilizaram’ regimes militares de direita, não importa o quão corruptos ou terroristas. (...) A ‘junta militar’ foi considerada um bom modelo de governo e os Estados Unidos fizeram com que este modelo crescesse e se difundisse. Tortura, esquadrões da morte e liberdade para investimentos são elementos relacionados neste modelo patrocinado e apoiado pelo país líder do Mundo Livre. Nestes Estados, o terror é funcional, favorecendo um bom ‘clima para investimentos’(...) Assim, se olharmos para além da barreira mediática e de propaganda, Washington converteu-se na capital mundial da tortura e do assassínio político.”

O “subfascismo” latino-americano

Estas palavras sobre os Estados Unidos da América são tão actuais hoje como o eram em 1979, porém com uma importante diferença: actualmente, além da pura violência, os EUA também passaram a utilizar formas mais subtis, “suaves”, de desestabilização política, como nos golpes de Estado nas Honduras em 2009, no Paraguai em 2012 e no Brasil em 2016. Em todos estes casos não houve intervenção militar, pois o golpe foi dado através do Parlamento ou do Poder Judiciário do país, sempre com o apoio de Washington. Esta diferença é crucial, porque estes “golpes suaves” são muito mais fáceis de legitimar e, por isso, serão a opção preferencial dos EUA sempre que possível. O objectivo, contudo, permanece o mesmo: “melhorar o clima para investimentos” dos interesses norte-americanos e dos seus aliados. Esta é a razão porque Chomsky e Herman qualificam o fascismo latino-americano como “subfascismo”, ou “fascismo clientelista” (client fascism). Ao contrário do modelo clássico, nacionalista, do fascismo dos anos vinte e trinta na Europa do século XX, o fascismo latino-americano é profundamente anti-nacionalista. Chomsky e Herman descrevem-no assim:

“A economia do ‘subfascismo’ implica uma rápida mudança na direcção de uma ampla abertura ao comércio e investimentos estrangeiros, à austeridade monetária e aos cortes no orçamento de programas sociais, ou seja, uma mudança conforme as políticas económicas promovidas pelos interesses do poder dominante e dos seus sócios institucionais como o FMI e o Banco Mundial. A prioridade passa a ser o serviço da dívida externa, através do aumento das exportações e da redução das importações, com a maioria da população arcando com os custos através da redução de salários e do agravamento do desemprego”.

Na verdade, o projeto subfascista latino-americano representa um retorno ao status de colónia, mantendo as mesmas velhas oligarquias no poder. Como estas oligarquias, obviamente, não contam com nenhum apoio da maioria da população dos seus próprios países, todas são profundamente antidemocráticas. Com o intuito de preservar o seu próprio poder e riqueza, escolheram representar e defender os interesses económicos estrangeiros – o “mercado” – cujo objectivo é manter os países latino-americanos como produtores subdesenvolvidos de matérias primas para as companhias transnacionais e instituições financeiras sediadas nos países do norte. Em troca, estes interesses protegem e mantêm essas oligarquias no poder. Como concluem Chomsky e Herman : “(...) sob o fascismo clientelista, as bases de apoio da liderança política passam a ser os interesses estrangeiros”.

Fascismo “amigável”

Entretanto, o subfascismo ou fascismo clientelista latino-americano adquiriu actualmente uma nova face, criada para corresponder aos golpes de Estado “suaves”, uma face mais “amigável”.
“Friendly fascism” (Fascismo amigável) é justamente o título de uma obra fundamental de Bertram Gross sobre o fascismo moderno, publicada em 1980. Bertram Gross, professor de Ciência Política e secretário executivo do “Council of Economic Advisers” da Presidência dos Estados Unidos de 1946 até 1952, estava principalmente preocupado com a ascensão do “fascismo amigável” nos EUA – a “Nova Face do Poder na América”, como ele escreveu na época.  Mas o que ele vislumbrou nos seus inícios há 38 anos, quando o seu livro foi publicado, é hoje realidade na maior parte do mundo, incluindo a América Latina.

“Fascismo amigável retrata duas tendências em conflito nos Estados Unidos e em outros países do chamado ‘mundo livre’”, escreveu Bertram Gross. “A primeira tendência é um avanço lento e poderoso em direcção a uma maior concentração de riqueza e poder numa parceria do Grande Negócio com o Grande Governo (Big Business-Big Government partnership). Esta tendência conduz a uma forma de manipulação nova e subtil de servidão corporativa. A expressão ‘fascismo amigável’ ajuda a distinguir este futuro possível do corporativismo, obviamente brutal, do fascismo clássico do passado na Alemanha, em Itália e no Japão. Esta expressão serve também para contrastar com o fascismo dependente e ‘hostil’ apoiado pelo Governo dos EUA actualmente (1980) em El Salvador, Haiti, Argentina, Chile (...).”
“A outra é a tendência, mais lenta e menos poderosa, de indivíduos e grupos buscarem cada vez mais participação nas decisões que lhes dizem respeito. Esta tendência vai além de uma mera reacção ao autoritarismo. (...) Alimenta-se das promessas do ‘establishment’ – que com muita frequência são falsas - de mais direitos humanos, mais direitos e liberdades civis. Encarna em valores maiores como comunidade, participação, cooperação, ajuda aos outros, decência (...). Diz respeito a relações dentro da família, do trabalho, da comunidade, da escola, da igreja ou sinagoga, e chega mesmo a reflectir-se nos labirintos das burocracias públicas e privadas. Esta tendência pode levar a uma democracia mais verdadeira – e por esta razão é duramente combatida...”

O “avanço lento e poderoso”em direcção a uma maior concentração de riqueza” alcançou, actualmente, níveis sem precedentes. De acordo com um relatório da OXFAM, oito indivíduos apenas possuem a mesma riqueza que a metade mais pobre da humanidade. Tais concentrações de riqueza criam uma correspondente concentração de poder político nas mãos dos que mais  beneficiam desta: as corporações internacionais e o sector financeiro. Estes, por sua vez, podem impor à quase totalidade do mundo, deste modo, a “servidão corporativa” sobre a qual Bertram Gross nos alertou.
O neoliberalismo
A segunda tendência identificada por Gross – grupos e indivíduos buscando maior participação nas questões públicas – tem estado sempre muito presente na América Latina e foi a força maior por detrás das eleições dos governos progressistas de Lula no Brasil e Evo Morales na Bolívia a Rafael Correa no Equador e Hugo Chavez na Venezuela. Enfrentando desafios muito difíceis e em condições sociais e económicas bem diversas, estes governos progressistas tentaram construir uma democracia mais verdadeira, promovendo maior participação social e uma melhor distribuição da riqueza. E por esta razão foram todos “duramente” combatidos pelos EUA e pelo “establishment” internacional. O país latino-americano onde, hoje, esta luta se dá com violência crescente é a Venezuela.
Para aqueles que estão relutantes em encarar a realidade e em usar a palavra “fascismo” onde ela cabe, Bertram Gross escreveu:

“Ao olhar para a América de hoje (1980), eu não tenho medo de dizer que tenho medo. (...) Qualquer um que esteja à espera de partidos de massas ou de homens a cavalo não vai perceber os sinais de um fascismo insidioso. Em qualquer país de capitalismo avançado do Primeiro Mundo, o novo fascismo será constituído por elementos da herança nacional e cultural, da sua composição étnica e religiosa, da sua estrutura política formal e do seu ambiente geopolítico. (...)  Será fascismo com um sorriso. Como um alerta contra a sua fachada cosmética, manipulação subtil e luvas de veludo, chamo-lhe ‘fascismo amigável”. O que mais me assusta é a sua subtil atração.”
“Fico preocupado com aqueles que se esqueceram – ou nunca aprenderam – que a parceria Grande Negócio – Grande Governo, sustentada por outros elementos, foi o elemento central por detrás das estruturas de poder do fascismo nos tempos de Mussolini, Hitler e dos construtores do império japonês. (...) Preocupam-me os que polemizam sobre as palavras. (…) que usam os termos inventados pelos ideólogos fascistas, como ‘estado corporativo’, mas não fascismo. (...) Igualmente importante é o alcance global da emergente parceria Grande Negócio – Grande Governo. Este alcance está ancorado em colossais corporações e em complexos transnacionais que ajudam a manter unido um ‘Mundo Livre’ no qual o sol nunca se põe. Estes são os elementos de um novo despotismo”.
 

Duas faces do neoliberalismo

Este novo despotismo, o fascismo “amigável” que Bertram Gross observou e denunciou nos seus começos, é actualmente conhecido por um outro nome, com melhor reputação: neoliberalismo. A dinâmica “fascismo amigável/ fascismo hostil” (friendly and unfriendly fascism) é fruto das políticas neoliberais. As corporações e o sector financeiro internacionais, na sua incessante busca por mais lucro e poder, vão tentar permanentemente impor ao mundo o fascismo “amigável”, quando possível; e o fascismo “hostil”, sempre que necessário para atingir os seus fins. Desta forma, o espectro político reduz-se a uma escolha entre um e outro. O neoliberalismo e o fascismo “amigável” são um só. O fascismo “hostil” é apenas a face mais sombria do neoliberalismo, quando este tem de utilizar meios menos “amigáveis” para se impor.
Uma comparação entre o golpe de Estado no Brasil e a situação na Venezuela (antes da eleição da Assembleia Constituinte) ajuda a compreender melhor a dinâmica fascismo “amigável”/“hostil”.
No Brasil, em muitas das manifestações de rua contra a Presidenta Dilma Roussef, os fascistas mostravam sua tradicional face “hostil”: violentos, racistas, homofóbicos. Foi a relativamente rápida instalação e resultado do processo de impeachment, levando à queda da Presidenta Dilma Roussef, que impediram que a violência nas ruas atingisse os mesmos níveis que vimos na Venezuela. Com o fim do governo de Dilma Roussef, a violência nas ruas já tinha atingido o seu objectivo e não era mais necessária na ocasião. O fascismo “amigável” do governo de Michel Temer – adequado para dar legitimidade ao golpe – pôde assumir o poder e iniciar o processo de destruição das conquistas e das políticas do governo anterior do PT: privatização de bens públicos, abertura das reservas de petróleo e outros recursos naturais do país à exploração internacional – que foram as razões reais por detrás do golpe.
A Venezuela é um dos países mais ricos do mundo, não só em petróleo, mas em gás e outros recursos naturais. Hugo Chavez e a Revolução Bolivariana comprometeram-se a usar estas riquezas para o desenvolvimento da própria Venezuela, em benefício de sua própria população, não para a ganância de algumas companhias transnacionais, o que é o maior crime que se pode cometer contra a ordem neoliberal. O fracassado golpe de Estado apoiado por Washington, em 2002, mostrou que desestabilizar a Venezuela não é uma tarefa fácil. A segunda tendência apontada por Bertram Gross é demasiado forte na Venezuela para permitir um golpe “suave”. O fascismo “amigável” na Venezuela não é uma opção, pelo menos por agora: as conquistas sociais e as políticas da Revolução Bolivariana já estão muito enraizadas na sociedade venezuelana, elas são o resultado concreto do comprometimento e da luta política desta mesma sociedade, que irá lutar até o fim para defendê-las.
O ‘establishment’ neoliberal na Venezuela, tão ansioso por recuperar o controlo sobre as riquezas naturais do país, decidiu apoiar o fascismo “hostil”. Há uma grande parcela da oposição venezuelana que parece seguir obedientemente o conselho de Hitler em Mein Kampf: “O emprego regular e constante da violência é essencial para o sucesso”. A grande imprensa internacional, sempre servil ao poder estabelecido, aplaude esta decisão.
A dinâmica fascismo “amigável”/”hostil” pode ser resumida desta maneira: quanto maior for a participação popular no governo de um país, quanto mais forte e sólida for a sua democracia e a sua determinação em utilizar os seus recursos para o seu próprio desenvolvimento; então maior será a necessidade do uso do fascismo “hostil” para combater estas tendências. No mundo orwelliano em que vivemos, sob a “servidão corporativa”, atacar a democracia significa ‘defender a democracia’. A grande imprensa aplaude.


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