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GRANDE DERROTA DA NATO E DA UE NA MACEDÓNIA

Manifestação na capital da Macedónia, Skopje, pelo boicote ao referendo de integração na NATO e na União Europeia

2018-10-05

Urszula Borecki, Skopje

A NATO e a União Europeia foram as grandes derrotadas do referendo de 30 de Setembro na Ex-República Jugoslava da Macedónia (FYROM) sobre a adesão às duas organizações e a mudança de nome para “Macedónia do Norte”. Apenas um terço dos eleitores inscritos disseram “sim”; como somente 37% dos cidadãos com capacidade eleitoral participaram na consulta, esta foi anulada pela Comissão Eleitoral, nos termos da Constituição.

O referendo era a etapa seguinte de um acordo assinado entre o governo macedónio do primeiro-ministro Zoran Zaev, um socialista neoliberal, e o da Grécia, chefiado por Alexis Tsipras. Segundo os termos estabelecidos, a ex-Macedónia jugoslava passaria a designar-se Macedónia do Norte, sem que a província grega da Macedónia alterasse a designação para Macedónia do Sul; além disso, o conteúdo do acordo impõe a supressão de todas as alusões históricas e evocativas da figura de Alexandre o Grande, reivindicada simultaneamente por ambas as regiões.
O secretário da Defesa norte-americano, James Mattis, deslocou-se a Skopje no dia do referendo para “observar” o desenrolar dos acontecimentos – mas não foi recebido ao nível oficial. O facto de os Estados Unidos terem feito comparecer o representante governamental militar traduz a importância que a NATO dá à integração da Macedónia – no quadro da sua política de expansão nos Balcãs e de tentativa de bloqueio das comunidades supostamente bem relacionadas com a Rússia, designadamente as cristãs ortodoxas.
A propaganda eleitoral patrocinada pelo secretário-geral da NATO e pela Alta Representante da União Europeia fazia crer que o apoio ao “sim” no referendo incluída todas as comunidades étnicas do país, incluindo os muçulmanos, e deixaria apenas isolados os cristãos ortodoxos.
Os resultados finais desmentem absolutamente esta interpretação, demonstrando que o quadro político não é estabelecido segundo fronteiras étnicas e revela uma maioritária indiferença em relação à NATO e à União Europeia, entendidos como braço militar e político de um mesmo sistema económico.

Réplicas golpistas da Ucrânia

Apenas cerca de 660 mil dos 1,8 milhões de eleitores participaram no referendo, o que representa uma abstenção de 63%, situação que o torna inválido porque era exigida uma afluência mínima de 50%.
Entre os votantes foi esmagadora a maioria do “sim” – 91,5% - o único dado que serviu de base ao noticiário da comunicação social de grande consumo para enaltecer supostas vitórias da NATO e da União Europeia; as quais não existiram.
A grande maioria das forças de oposição ao governo neoliberal de Zoran Zaev, incluindo o chefe de Estado, Gjorge Ivanov, considerado um “nacionalista”, apelaram ao boicote ao referendo. A maioria de dois terços da abstenção não significa que seja desta amplitude a capacidade de mobilização do “nacionalismo” macedónio, representando antes uma grande indiferença em relação à NATO e à União Europeia e acentuada desconfiança perante o que consideram ser cedências à Grécia no acordo de “mudança de nome”.
A questão da apropriação da herança de Alexandre o Grande pela Grécia, país onde foi considerado “um bárbaro” na sua época, não é tão irrelevante como possa pensar-se. A figura do imperador está integrada na história e na memória da Macedónia ex-jugoslava, pelo que as imposições para rever esses factos e tradições chegam a ser consideradas “traição”.
O acordo entre os governos de Zoran Zaev e de Alexis Tsipras é uma obra do embaixador dos Estados Unidos na Grécia, Geoffrey R. Pyatt, em cujo currículo se destaca o facto de ter sido um dos condutores operacionais do golpe na Ucrânia, em articulação com a organização fascista Sector de Direita
A figura do primeiro-ministro Zoran Zaev “socialista” é um pilar da estratégia montada por Pyatt, dando sequência a um processo que vem de trás e se evidenciou em 2015 com o fracasso da tentativa de golpe de Estado promovido pela CIA e que deveria levá-lo ao governo. De notar que a estrutura dessa intentona, montada com base em manifestações na praça central de Skopje que deveriam degenerar em violência, é uma réplica do bem sucedido golpe na Ucrânia. O papel terrorista que em Kiev foi atribuído aos grupos fascistas coube na Macedónia aos fundamentalistas islâmicos, importados designadamente do Kosovo.
Zoran Zaev, durante a campanha pelo “sim” no referendo, afirmou que a mudança de nome “era o preço a pagar” para as adesões à NATO e à União Europeia. Dois terços dos eleitores do país declararam-se indisponíveis para esse investimento. Mesmo sob a presença ameaçadora do chefe do Pentágono.

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